MARIA ADELAIDE AMARAL
Entrevista à Maria Lucia Segall

Maria Adelaide de Almeida Santos Amaral, jornalista, escritora, editora, tradutora e dramaturga, nasceu na cidade do Porto, em Portugal, em 1942, vindo para o Brasil aos 12 anos de idade. Teve uma infância difícil e encontrou na Literatura o refúgio para aliviar suas privações. Formou-se em Jornalismo pela Fundação Cásper Líbero e trabalhou durante as décadas de 70 e 80 na divisão cultural da Editora Abril, onde se privilegiou do contato com intelectuais, professores e jornalistas, afastados pela repressão de seus postos de origem e contratados pela Abril.

Seu primeiro texto, “A Resistência”, data desta época e expressa a realidade da grave crise e a conseqüente demissão em massa ocorrida no setor editorial. Adelaide presenciou este episódio e sentiu a necessidade de registrá-lo. O texto, premiado pelo Serviço Nacional de Teatro (SNT), foi censurado. Veio a seguir uma vasta produção de peças teatrais: Bodas de Papel (1978); Ossos do Ofício (1980); Chiquinha Gonzaga – Ó Abre Alas (1983); De Braços Abertos (1984); Querida Mamãe (1994); Intensa Magia (1995); Tarsila (2003) e Mademoiselle Chanel (2004).

No campo literário escreve: “Aos Meus Amigos”, seu livro autobiográfico; “Luísa – Quase uma História de Amor” e “O Bruxo”. Adaptou para o teatro “O Evangelho Segundo Jesus Cristo”, romance de José Saramago.

Premiada em todas as áreas culturais nas quais atua, Maria Adelaide Amaral já recebeu quatro prêmios Moliére, quatro Mambembe e dois Shell por sua produção teatral. Na Literatura foi contemplada com o Jabuti pelo romance “Luísa – Quase uma História de Amor” e dois Prêmios da Associação Paulista de Crítica de Arte (APCA) pelas minisséries “A Muralha” e “A Casa das Sete Mulheres”, além do Qualidade Brasil por “J.K.”.

No seu livro “Aos Meus Amigos”, o engajamento político dos anos 70 e os dramas vivenciados pelo grupo eram permeados por sentimentos como fraternidade, afeto e até mesmo uma notória tolerância, apesar das diferenças entre eles. Estas virtudes me parecem raras, desaparecendo em dias atuais. Você concorda?
Elas desapareceram mesmo, ainda nos anos 80, com o triunfo e ascensão do individualismo, da cultura yuppie, da ganância e da valorização excessiva aos bens materiais. Nós ficamos reféns de uma cultura orientada para o dinheiro e para os símbolos óbvios de status: carros, marcas. Nos anos 70 eu não usaria qualquer peça de qualquer grife onde a marca fosse óbvia. Depois isso se tornou um símbolo de status, eu nunca dei bola pra isso. Agora, com a crise econômica que certamente atingirá a todos, ninguém estará imune à ela, quem sabe as pessoas voltem a recuperar alguns valores que se perderam, os valores mais legítimos e importantes para a coexistência, como a solidariedade... Perceber que não é necessário grife para viver ou ter cem pares de sapato, tendência que a gente vem assistindo há décadas e é deplorável. Chegamos aonde chegamos devido a esta cultura da ganância.

Você iniciou na Rede Globo de Televisão em 1990, convidada por Cassiano Gabus Mendes, junto de quem escreveu como co-autora as novelas “Meu Bem, Meu Mal” e “O Mapa da Mina”. Depois, com Silvio de Abreu, “Deus nos Acuda” e “A Próxima Vítima”. Em 1997/1998 foi autora titular de “Anjo Mau”. Foi após este período que você iniciou a fase de adaptação das minisséries?
Iniciei a fase de escrever minisséries e, por acaso, algumas foram resultados de adaptações, como “A Muralha”, “Os Maias” e “A Casa das Sete Mulheres”, ou então ditadas por personagens da realidade como foi o caso de “Um Só Coração” e “J.K.”. Todos os temas foram sugeridos por mim e por acaso aconteceu de eu sugerir estórias adaptadas ou livremente inspiradas em romances ou histórias da vida real.

“Um Só Coração” lhe proporcionou o titulo de cidadã paulistana...
Sim. Cada uma destas minisséries me trouxe alguns prêmios e honrarias. Recebi uma medalha do governo do Rio Grande do Sul pela “A Casa das Sete Mulheres”, o título de Cidadã Paulistana por causa de “Um Só Coração”, e assim por diante... Por “J.K.” fui agraciada com a Medalha Tiradentes do governo de Minas Gerais, um gesto de gratidão pelos serviços prestados ao estado e à história ou personalidades locais.

Você considera “Queridos Amigos” sua cria predileta?
Ele é mais do que isso, não só é minha obra preferida, mas é o primeiro trabalho para a televisão que é absolutamente meu, ou seja, eu não adaptei de livros de outros autores, não é um remake de outro autor de TV e não é baseado em nenhum personagem ou na história do Brasil. Foi extraído de um romance meu de caráter autobiográfico. É realmente minha obra favorita, sem dúvida, por todas essas razões.

Como é verter uma obra literária, exemplo, seu premiado livro “Luísa”, para o teatro, e épicos como “Os Maias” e “A Muralha” para a linguagem televisiva?
A história de “Luisa” é exatamente o contrário, já que o livro surgiu depois da peça. Em 1979 escrevi três capítulos de um romance e guardei na gaveta. Cinco anos depois, em 1984, fui procurada pela Irene Ravache, que me pediu para que eu lhe escrevesse uma peça sobre paixão e desencontros. Lembrei que o que ela estava me pedindo era o teor do terceiro capítulo deste romance inacabado. Tirei uma cópia deste capitulo e o enviei para que ela o avaliasse. Era exatamente o que a Irene buscava. Esse material gerou “De Braços Abertos”. Quando eu vi a peça em cartaz, achei que era a hora de terminar o romance. Tirei uma licença não remunerada de seis meses e, em 1986, escrevi o romance, que recebeu em 1987 o Prêmio Jabuti de Melhor Romance relativo ao ano anterior.
Cada obra é uma obra e cada adaptação é uma adaptação. Eu jamais poderia dizer que “A Muralha” é baseada no livro homônimo da Dinah Silveira de Queiroz. Eu diria que, assim como “A Casa das Sete Mulheres”, é uma obra livremente inspirada no livro devido aos acréscimos de personagens e de tramas. A única obra que escrevi quase que inteiramente baseada no livro foi “Os Maias”, que continha em si todos os elementos de folhetim que precisávamos para realizar a minissérie. “A Muralha” também tinha estes elementos, mas daria cerca de 24 capítulos, quando precisávamos de 48. Neste caso precisei adicionar novas tramas às originais e o resultado foi fantástico!
Em “Os Maias” fiz pouquíssimas alterações, porém tivemos o mesmo problema de número de capítulos. Como não queríamos acrescentar novas tramas, eu e Luís Fernando deliberamos incluir “A Relíquia”, em um núcleo cômico que não interagia diretamente com a história principal. Apenas os personagens “periféricos” migravam eventualmente de um núcleo ao outro. Tanto que, na edição para o DVD, deixamos apenas a história central sem nenhum prejuízo para a obra principal.

Por que a necessidade de se alterar o texto original, como no final de “Os Maias”?
Minha grande intervenção no caso de “Os Maias” foi a volta de Maria Monforte. Na obra original não há notícias dela e, apesar de eu ter uma grande admiração pela obra do Eça, me incomodava como este segredo havia sido desvendado, quase de maneira casual. Como a literatura é um veiculo diferente da teledrama-turgia, achei que a volta de Maria Monforte daria uma maior força dramática à história. Quando escolhemos um livro para adaptar, existem algumas “licenças” que nos permitem estas modificações.
Apesar da reclamação dos fundamentalistas, que preferiam a minha fidelidade à obra, acredito que, se Eça estivesse vivo, aprovaria a minha intervenção e adoraria ver sua obra adaptada para a TV e o seu livro entre os bestsellers por semanas consecutivas.

Até o presente, qual trabalho realizado para a televisão você considera o mais prazeroso? E o mais decepcionante?
Todo trabalho traz a sua cota de prazer e de insatisfação. Muitas vezes você escreve e tem a consciência de que está fazendo um bom trabalho, mas quando vê o capítulo pronto sente que deixou a desejar – ou pela escalação do elenco, por falta de informação ou mesmo de insensibilidade por parte do diretor. Claro que o contrário também acontece: ver uma cena na qual eu não acreditava muito, bem realizada. O que existe entre autor e diretor é um “casamento”, e é preferível que seja um relacionamento feliz e ameno. Tive casamentos felizes com Denise Saraceni, Jaime Monjardim, Denis Carvalho...
Casos como “Os Maias” me entristecem pela rejeição do público. Considero esta uma obra magnífica, mas que infelizmente não interessou à massa.

A atriz Fernanda Montenegro disse, em uma entrevista, que “a televisão sofre de verborragia, mas que você é uma especialista em textos enxutos”. Como você obtém este resultado? É uma técnica?
Não, é um estilo, acho que menos é mais, sempre, não só no teatro como na televisão.

Voltando a “Queridos Amigos”, você disse que o considerava uma “Cerimônia do Adeus”. A catarse veio ao escrever o livro ou quando o transpôs para a TV?
Ambos, porque a minissérie não é exatamente o livro. O livro começa com o Léo já morto, e na minissérie eu fiz com que ele preparasse essa morte e a transformasse em uma obra de arte, obra essa que ele sempre desejou e jamais conseguiu realizar.

Em que você trabalha no momento?
Desde que terminei “Queridos Amigos”, apesar de querer férias, tive duas encomendas irrecusáveis para o teatro. A primeira, uma adaptação de “As Meninas”, de Lygia Fagundes Telles, que me deu muito prazer. O resultado foi excepcional; fiquei muito feliz e Lygia muito grata.
A outra era sobre Dercy Gonçalves, baseada na biografia que escrevi dela em 1983. Marília Pêra e Fafy Siqueira pediram ao Marcos Montenegro que entrasse em contato comigo e pedisse autorização. Foram até Dercy, que ficou na maior felicidade. Isso aconteceu meses antes dela vir a falecer.
Comecei a escrever Dercy com muita dificuldade, pois evidentemente tratava-se de um espetáculo baseado na vida real, mas diferente dos outros que escrevi como Chanel, Tarsila e Chiquinha Gonzaga. Demorei mais de um mês para achar uma forma correta. Usei o livro como um roteiro remoto, já que o espetáculo deveria ter a cara da Dercy, do teatro de revista, algo peculiar onde ela pudesse se reconhecer. Quatro dias antes de falecer, ela veio a São Paulo, falou da peça, de mim, do livro. Quando me perguntaram sobre isso, disse que todas as homenagens a ela deveriam ser feitas em vida. Ela morreu quatro dias depois e eu me senti cada vez mais obrigada a terminar esta homenagem. Conclui a peça há alguns dias e enviei para algumas pessoas, que adoraram.
Outro projeto foi uma peça minha, inédita, que tive que refazer porque foi escrita na época da máquina de escrever e a personagem principal é uma datilógrafa... Estreou dia 18 no Festival de Teatro de São José do Rio Preto. De resto, estou em férias da TV até que eu seja chamada para um novo trabalho.
Agora começaram a chover convites para escrever para o cinema. Fui convidada e aceitei o roteiro de um filme baseado em uma peça do Dr. Antonio Ermírio. Topei porque os produtores Fabiano e Caio Gullane são pessoas da maior competência, que produzem cinema de alto nível.
Trabalho não me falta, não posso reclamar, é um privilegio para uma mulher de 66 anos. No meu ofício, felizmente, não existe aposentadoria. À medida que o tempo passa os escritores vão ficando melhores.

Hobby: ler e ir ao cinema
Uma viagem inesquecível: foram tantas... mas duas foram especiais. Em 1985 quando fui à França fazer o caminho de Proust, percorrer seu roteiro sentimental e literário. Em 1980, estive na Grécia onde fui à procura do teatro e dos deuses do teatro. Também as viagens que fazia anualmente para Nova York na década de 80, eram a cada vez um deslumbramento pra mim.
Família: tenho dois filhos, três netos (Ana Luiza, Pedro e Marina) e três noras, as atuais e a ex, que continua fazendo parte da minha vida. Sou muito família, como você sabe.
Como é possível trabalhar tanto, viajar, dar atenção à família e aos amigos? Sou muito disciplinada e consigo organizar meu tempo. Quem, como eu, trabalhou na imprensa, com prazos curtos e sob pressão, aprende a ter esta disciplina. Na TV, se você não é disciplinado você não consegue trabalhar.
Sobre seus conhecidos dotes culinários: quando entro na cozinha para fazer alguma coisa minhas secretárias ficam aflitas, perguntam se eu não estou gostando da comida delas. Quando, porém, estou deprimida, preciso cozinhar, e isso envolve buscar a melhor receita, ir à feira, ao supermercado escolher os ingredientes, me empenhar na confecção do prato do início do processo até o resultado final.
Uma grande curtição: Para mim são as reuniões com meus amigos, sou uma pessoa gregária e tenho um prazer imenso no convívio com meus queridos amigos.
Para finalizar, uma mensagem: Estou otimista em relação a esta crise atual porque acredito que as pessoas vão começar a rever conceitos fundamentais. Acho que a crise vai fazer bem ao planeta, frear esta escalada de consumo assustadora, o mundo não agüenta tanto consumo, poluição e desrespeito para com a natureza. É preciso que se tenha respeito pelo que chamamos de “o próximo”.