Julio Le Parc, artista argentino referência da arte cinética e interativa, morreu em Paris aos 97 anos, às vésperas de retrospectiva na Tate Modern
O artista argentino Julio Le Parc, um dos nomes fundamentais da arte cinética e da arte interativa, morreu em 30 de maio, em Paris, aos 97 anos. Reconhecido por obras que combinam luz, movimento, cor, espelhos, efeitos ópticos e participação do público, Le Parc deixa uma contribuição decisiva para a arte contemporânea, especialmente por sua forma de deslocar o espectador da posição passiva para uma experiência física, sensorial e ativa diante da obra.
Nascido em 1928, na província de Mendoza, na Argentina, Le Parc estudou em Buenos Aires e teve contato com movimentos que marcaram profundamente sua formação, como a Arte Concreto-Invención e o Spazialismo de Lucio Fontana. Em 1958, mudou-se para Paris com uma bolsa do governo francês, cidade onde passaria a viver de forma permanente e onde consolidaria sua pesquisa artística.
Nos anos 1960, em um contexto de intensa experimentação visual, Le Parc passou a desenvolver obras baseadas em sistemas geométricos, abstração, percepção e movimento. Em 1960, foi um dos fundadores do Groupe de Recherche d’Art Visuel, o GRAV, ao lado de artistas como François Morellet, Francisco Sobrino, Horacio García Rossi, Hugo Demarco e Joël Stein. O grupo rejeitava a ideia do artista como gênio isolado e defendia uma prática coletiva, experimental e aberta à participação do público.

Julio Le Parc e Ricard Akagawa
Julio Le Parc e a arte como experiência participativa
A grande força da obra de Julio Le Parc está em sua compreensão da arte como experiência. Seus móbiles, ambientes luminosos, labirintos, salas de espelhos e instalações ópticas propunham uma relação direta entre corpo, olhar e espaço. Para ele, a obra não deveria apenas ser contemplada, mas atravessada, ativada e vivida.
Essa abordagem fez de Le Parc uma referência antes mesmo de os museus adotarem, em larga escala, o conceito de experiências imersivas. Seu trabalho já investigava, décadas atrás, aquilo que hoje se tornou central em muitas discussões sobre arte contemporânea: a presença do público como parte essencial da obra.
O reconhecimento internacional veio em 1966, quando recebeu o Grande Prêmio Internacional de Pintura na Bienal de Veneza. A premiação teve um peso simbólico importante, pois muitas de suas obras já ultrapassavam os limites tradicionais da pintura, explorando luz refletida, instabilidade visual, movimento e participação.

Sphère rouge (Red Sphere), 2001–12. Collection of Jorge M. and Darlene Pérez. Installation view: Julio Le Parc, Palais de Tokyo, Paris, 2013. Julio Le Parc © 2016 Artists Rights Society (ARS), New York / ADAGP, Paris. Photo: André Morin.
A dimensão política também acompanhou sua trajetória. Le Parc defendia uma arte mais democrática, acessível e menos dependente da validação de críticos, curadores, colecionadores ou instituições. Para ele, o público deveria construir sua própria experiência diante da obra. Essa visão também se refletiu em sua atuação política, incluindo sua participação nos protestos de 1968 na França, episódio que levou à sua breve expulsão do país.
- Georg Baselitz deixa legado revolucionário para a pintura contemporânea
- Sarah Sze recebe o prêmio inaugural Meraki Artist Award do ICA Boston
- Recordes nos leilões de maio mostram mercado seletivo, mas ainda disposto a pagar por obras raras
Mesmo associado à arte cinética dos anos 1960, Le Parc continuou produzindo e se reinventando ao longo de sete décadas. Desenvolveu séries importantes, como Modulation e Alchemy, explorou novas tecnologias, trabalhou com realidade virtual ao lado dos filhos e lançou um museu virtual. Nos últimos anos, sua obra voltou a ganhar forte atenção institucional, com retrospectivas em espaços como Palais de Tokyo, Pérez Art Museum Miami e Met Breuer.
Sua morte ocorreu poucos dias antes da abertura da exposição “Julio Le Parc: Light. Colour. Action.”, prevista para 11 de junho de 2026 na Tate Modern, em Londres. A mostra, que percorre quase sete décadas de produção, passa agora a ter também o sentido de homenagem a um artista que ampliou os limites da percepção, da participação e do próprio lugar do espectador na arte contemporânea.
