| HANGÁ:
GRAVURAS JAPONESAS |
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Texto e reproduções:
Laerte E. Ottaiano
Hanga,
traduzido literalmente, quer dizer “estampa” ou “gravura” através
de chapa. No Ocidente a gravura japonesa ficou conhecida pelo nome
genérico “Ukiyo-ê”, ou desenhos do mundo flutuante. O Japão usa
os dois termos concomitantemente: Hanga, referindo-se à técnica
e Ukiyo-ê, referindo-se ao gênero.
Origens
Após a unificação do Japão, por volta de 1600, levada a cabo pelo
Shogum Yeyassu Tokugawa e com o estabelecimento da nova capital,
Edo (atual Tokyo), o país entrou em uma era de isolamento e com
isso viu um período de tranqüilidade que iria durar cerca de 300
anos.
A estabilidade
política trouxe consigo paz e desenvolvimento. A nova capital borbulhava
de gente, de todos os níveis sociais. O comércio prosperava e bairros
inteiros dedicavam-se a diversões. A vida era vivida intensamente
nos teatros, restaurantes, casas de chá e bairros reservados. Os
habitantes de Edo chamavam esse modo de vida de “Mundo Flutuante”.
A filosofia então prevalecente era baseada na impermanência das
coisas, onde nada é definitivo nem permanente; ou como o ditado
“A vida de um samurai tem a duração de uma pétala de cerejeira”...
Para retratar
esse estilo de vida, os artistas da época, pintores, desenhistas
e gravadores, juntos num esforço comum, produziram desde fins do
século 17 uma forma de obra de arte de baixo custo, destinada ao
consumo de toda a população. Retrataram tudo aquilo que era caro
a todos - as cenas do mundo flutuante - determinando assim o gênero
“UKI” flutuar; “YÔ” mundo; “Ê” desenho.
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Acima: Detalhe
de Hanga de Toshussai Sharaku (1794/95). A gravura mostra o ator
Morita Kaya no papel de Uguissu Jirossaku. Com cores brandas, o
fundo da gravura é de mica prateada e a expressão é de surpresa
e incredulidade.
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Gueixas famosas, atores de teatro Kabuki, lutadores de Sumô, heróis nacionais,
figuras da Corte, batalhas famosas, paisagens e locais famosos do Japão,
cenas das lendas e mitologia foram gravadas, em um retrato completo que
revela a história e o desenvolvimento do Japão.
Os
grandes artistas e suas obras
Foi a partir
do século 18 que artistas individuais importantes fizeram história. Torii
KIYONAGA (1762-1815) desenhou a elegância e a beleza das mulheres, de
corpo inteiro, e artistas do Teatro Kabuki em poses clássicas. Seguiu
os passos de Shunshô (1726-1793) que também fez esse gênero, com linhas
mais simples.
Kitagawa
UTAMARO (1753-1806), considerado o mestre dos mestres, apresentou grandes
“gueixas”, em retrato de meio-busto (Okubi-ê) e de corpo inteiro, dando
especial destaque às atitudes “eróticas” de suas beldades. As expressões
no rosto de suas mulheres são de sonho e irrealidade e fortemente carregadas
de sensualidade. Junto com ele, e trabalhando “porta-a-porta” Eishi, Eisho,
Eiri e Tchoki seguiram a mesma linha; são desse período as famosas cortesãs
Hanaogi, Kassugano, Ohissa e Ossen. As gravuras desse tipo correspondiam,
então, aos nossos atuais “posters” de “pin-up girls”... e a mesma conotação
era dada às gravuras retratando os famosos atores de teatro Kabuki.
Em
fins do século 18 aparece no cenário um artista misterioso de nome Toshussai
SHARAKU (que produziu somente entre 1794 e 1795). Pouco se sabe da sua
biografia. Teria sido um protegido do grande editor Tsutaya Juzaburo e,
eventualmente, um samurai desempregado.
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As
gravuras de Sharaku retratavam apenas atores de teatro Kabuki nas
suas expressões mais fortes das peças que representavam e o realismo
colocado nas expressões dos personagens. Chegou a chocar tanto os
outros artistas como também o público que comprou suas gravuras.
Como já foi dito, sua carreira foi curta e termina abruptamente,
sem explicações. Suas gravuras são raríssimas e extremamente caras.
O
período que vai de 1800 a 1870 é de total desenvolvimento, onde
se encontra o maior volume de estampas. Neste período (1825-1850)
surgem também os dois grandes mestres da paisagem japonesa. O primeiro
é Ando HIROSHIGUE (1797-1858), com sua obra prima “As 53 Estações
da estrada de TOKAIDO” (estrada que ia desde Tokyo até Kyoto). Produziu
também outras tantas séries de estampas de paisagens e lugares famosos
do Japão. Em algumas instâncias foi chamado de “Poeta da Paisagem”
e também de “Poeta da Chuva”.
Outro
tão importante e não menos famoso foi Katsuchika HOKUSSAI (1760-1849),
com sua obra prima “36 vistas do Monte Fuji” que inclui a mais famosa
das estampas, a “Grande Onda” e outra também muito importante, o
“Fuji Vermelho”. Seus desenhos são extremamente arrojados e muitas
vezes insólitos, com maravilhoso colorido.
A
partir de TOYOKUNI, surgem outros “Kuni”: Kunissada I, Kunissada
II, Kuniyoshi e Kunitchika. Todos fazem a mesma escola e basicamente
têm o mesmo nível artístico. São freqüentes nesse momento e nessa
escola, retratos de personagens históricos, heróis, atores, lutadores
de Sumô, grandes cortesãs. Kuniyoshi especificamente destacou-se
pelos trípticos mostrando batalhas de samurais. Suas figuras têm
vida e movimento.
A
última grande estrela é YOSHITOSHI (1838/1892), com sua série mais
famosa; “Os 100 aspectos da Lua”. Os desenhos são de uma linha muito
mais atrevida, as perspectivas e proporções diferentes e fora do
comum. Um verdadeiro inovador, com um novo estilo, mas que manteve,
porém, um grande interesse pelo desenho japonês.
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Hiroshigue
Ando (1835). Da série Tokaidô, 53 Estações, Versão Reisho, Estação
Hara. O tema principal é o Monte Fuji, visto pela aldeia de
Hara. Duas mulheres em viagem são acompanhadas por um carregador.
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Kitagawa
Utamaro (1805). Título da série: 5 mulheres. A gravura mostra
uma “Bijin” (mulher bonita) lendo uma carta de seu amante.
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TOYOKUNI
II (1845). Da série Episódios da vida de Lorde Minamoto.
A gravura mostra uma cena palaciana onde duas nobres damas assistem
a um menino que acaba de libertar dois pássaros. A composição é
riquíssima em elementos arquiteturais e em detalhamento e cores
dos quimonos
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A produção das gravuras
A produção dessas gravuras requer a participação de várias pessoas; o
artista original que vê e pinta a cena em forma de aquarela; o gravador,
que irá gravar o desenho em blocos de madeira, um para cada cor usada,
sendo esta a parte mais difícil e demorada; o impressor, que vai imprimir
cada uma das folhas, quantas vezes forem as cores utilizadas, cuidando
da pressão e da intensidade das cores; o editor, que contrata os trabalhos,
age como diretor de produção, edita e distribui ao público.
Em
tese cada estampa traz informações completas: título da série, nome do
local ou do personagem, nome do artista original, carimbos de data e de
censura e o nome da Editora.
Concluindo
O que foi, em sua época uma arte destinada a um consumo popular veio a
tornar-se objeto do mais alto colecionismo mundial, tendo em vista sua
representatividade iconográfica, seu valor estético e artístico. O Hanga
é um verdadeiro legado.
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