Primeira e única exposição de Hockney na Serpentine Galleries recebeu quase 300 mil visitantes e tornou-se a mostra mais concorrida dos 56 anos da instituição londrina
Quase 300 mil pessoas visitaram David Hockney: A Year in Normandie and Some Other Thoughts about Painting, estabelecendo um novo recorde de público na história da Serpentine Galleries, em Londres. A mostra permaneceu em cartaz gratuitamente na Serpentine North entre 12 de março e 23 de agosto, com procura suficiente para levar a instituição a ampliar seus horários nas semanas finais.
Além de ter sido a primeira exposição de David Hockney na galeria, a apresentação adquiriu um significado inesperado após a morte do artista, em junho, aos 88 anos. Tornou-se, assim, uma das últimas grandes mostras realizadas durante sua vida e uma despedida marcada não pelo silêncio, mas pela extraordinária adesão do público.
No centro da exposição estava o monumental A Year in Normandie, apresentado pela primeira vez em Londres. Com cerca de 90 metros de extensão, o friso acompanhava a passagem das estações nos arredores do antigo estúdio de Hockney na Normandia, da renovação da primavera à paisagem recolhida pelo inverno.

David Hockney: A Year in Normandie and Some Other Thoughts about Painting, installation view, Serpentine North, 2026 © David Hockney. Photo: George Darrell
Um convite coletivo para reaprender a olhar
A obra foi criada entre 2020 e 2021, durante a pandemia, a partir de mais de cem pinturas digitais realizadas no iPad. Seu formato panorâmico nasceu do diálogo entre referências distantes no tempo e na geografia, como os tradicionais rolos de pintura chineses e a Tapeçaria de Bayeux, produzida no século 11.
Confinado enquanto o mundo enfrentava sucessivas restrições, Hockney voltou sua atenção para aquilo que permanecia acessível: árvores, flores, caminhos, mudanças de luz e pequenos acontecimentos da paisagem cotidiana. O resultado não documenta apenas a passagem de um ano. Defende o ato de observar como forma de resistência à pressa, à distração e ao desalento.
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A mostra também apresentou dez pinturas inéditas: cinco naturezas-mortas e cinco retratos de familiares, amigos e cuidadores do artista. Interligados pelas composições frontais e pela presença recorrente de uma toalha xadrez, os trabalhos transitavam entre figuração e abstração, uma separação que Hockney frequentemente colocava em dúvida.
Embora a exposição tenha terminado, um fragmento de seu universo ainda permanece na Serpentine. Instalado no jardim da galeria, um mural de grandes dimensões reproduz uma cena primaveril de A Year in Normandie, com uma casa na árvore, e poderá ser visto até 20 de setembro.
O recorde alcançado pela exposição revela uma aparente contradição apenas na superfície. Em um presente dominado pela velocidade, quase 300 mil pessoas aceitaram o convite de Hockney para fazer justamente o contrário: desacelerar, olhar de novo e perceber que o cotidiano ainda guarda mundos inteiros.
