Já em cartaz, Amelia Toledo – Lembrar de Não Esquecer percorre a intimidade, as rupturas e a liberdade experimental de uma artista que recusou fronteiras entre matéria, natureza e criação
Há algo especialmente preciso no título Amelia Toledo – Lembrar de Não Esquecer. O novo documentário dirigido por Helio Goldsztejn não se limita a reconstruir a trajetória de uma artista: atua contra o apagamento de uma obra decisiva, mas ainda menos reconhecida do que sua relevância justificaria.
Já em circuito nacional, o longa de 82 minutos aproxima o público da casa-ateliê de Amelia Toledo (1926–2017) e de uma produção que atravessou mais de seis décadas. Depoimentos de familiares, amigos e artistas se articulam a fotografias, registros de exposições e imagens de arquivo, algumas delas com a própria Amelia falando sobre seus processos e inquietações.
Pintora, escultora, desenhista, designer e educadora, ela nunca se acomodou em uma única linguagem. Trabalhou com acrílico, chapas de metal, pigmentos, cristais, pedras, conchas e água; criou joias, esculturas, instalações, fotografias e pinturas geométricas. Em sua obra, a natureza não aparece apenas como tema ou paisagem, mas como matéria dotada de cor, energia, textura e tempo.
Uma artista que fez da experimentação o seu território
A formação de Amelia Toledo atravessa diferentes momentos da arte brasileira. Ainda jovem, frequentou o ateliê de Anita Malfatti, estudou com Yoshiya Takaoka e Waldemar da Costa e trabalhou com o arquiteto Vilanova Artigas. Em Londres, no fim dos anos 1950, teve aulas com William Turnbull e começou a produzir colagens com papéis rasgados, antecipando a liberdade processual que marcaria toda a sua trajetória.
Embora tenha convivido com figuras centrais da vanguarda do pós-guerra, como Hélio Oiticica e Lygia Pape, Amelia construiu uma pesquisa difícil de aprisionar em movimentos. Sua geometria nunca foi inteiramente racional; aproximava-se das formas microscópicas, dos ritmos minerais e das forças invisíveis da matéria.
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Essa abertura também alcançou sua atuação como professora no Mackenzie, na FAAP e na recém-criada Universidade de Brasília. O golpe militar de 1964 interrompeu esse percurso e levou Amelia e sua família a viverem temporariamente em Portugal.
O filme de Goldsztejn chega em um momento de renovação do interesse por sua produção. Nos últimos anos, Amelia ganhou exposições institucionais e maior projeção internacional, processo que agora encontra no cinema uma via de acesso mais ampla. Mais do que organizar uma biografia, Lembrar de Não Esquecer devolve presença a uma artista que enxergava possibilidades onde outros viam apenas materiais.
O documentário estreou nos cinemas brasileiros em 20 de agosto, após integrar a 49ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.
