A poucos dias da abertura de uma retrospectiva histórica de Yayoi Kusama no Stedelijk Museum, a exposição assume inesperadamente o sentido de despedida e celebração de uma trajetória sem paralelo na arte contemporânea
Yayoi Kusama dizia que continuaria criando até o dia de sua morte. Cumpriu a promessa de maneira literal: segundo a fundação que preserva seu legado, a artista japonesa permaneceu pintando até seus últimos dias. Kusama morreu em 14 de agosto, aos 97 anos, em um hospital de Tóquio, em decorrência de falência múltipla de órgãos. A notícia foi anunciada publicamente em 27 de agosto.
Sua partida antecede em menos de um mês a abertura de uma ampla retrospectiva no Stedelijk Museum, em Amsterdã. Concebida e organizada quando a artista ainda estava viva, a exposição assume agora uma dimensão imprevista: a de primeira grande homenagem póstuma a uma das figuras mais influentes e reconhecíveis da arte dos séculos 20 e 21.
A mostra abre em 11 de setembro e percorre mais de sete décadas de produção, reunindo pinturas, desenhos, esculturas, colagens, moda, registros de performances e ambientes imersivos. A passagem pelo Stedelijk encerra uma itinerância iniciada na Fondation Beyeler, na Suíça, e levada posteriormente ao Museum Ludwig, em Colônia.
Da vanguarda marginal ao fenômeno global
Nascida em Matsumoto, em 1929, Yayoi Kusama começou a desenhar ainda criança, transformando as alucinações visuais que a acompanhavam em um vocabulário próprio. Pontos, redes e padrões repetitivos tornaram-se instrumentos para representar a dissolução das fronteiras entre corpo, objeto e universo, experiência que chamou de “auto-obliteração”.
Em 1957, deixou o Japão e partiu para os Estados Unidos. Na Nova York predominantemente masculina e branca do pós-guerra, construiu uma presença radical com as pinturas da série Infinity Nets, esculturas de formas fálicas, ambientes espelhados e performances públicas que articulavam liberdade sexual, crítica institucional e oposição à Guerra do Vietnã.
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Em 1966, apresentou sem convite o célebre Narcissus Garden nos arredores da Bienal de Veneza, oferecendo ao público centenas de esferas espelhadas. Vinte e sete anos depois, retornaria ao evento como representante oficial do Japão, marco decisivo de sua redescoberta internacional.
Kusama atravessou períodos de invisibilidade, incompreensão e fragilidade psíquica antes de se tornar um fenômeno cultural. Suas Infinity Mirror Rooms, abóboras e instalações cobertas por pontos alcançaram públicos muito além do circuito especializado, enquanto sua imagem se aproximava da moda, do design e da cultura de massa. Sob a superfície sedutora, porém, permaneceu uma investigação persistente sobre medo, desejo, desaparecimento, eternidade e pertencimento.
A retrospectiva do Stedelijk não nasceu como memorial. Talvez por isso seja uma despedida ainda mais potente: apresenta Yayoi Kusama em movimento, não cristalizada pelo fim. Diante de uma obra que passou a vida tentando ultrapassar os limites do corpo e do espaço, a morte parece menos um ponto final do que outra passagem para o infinito.
A exposição permanece em cartaz até 17 de janeiro de 2027.

