Artigo de Annabel Keenan e Josie Thaddeus-Johns identifica temas visuais recorrentes na 61ª Bienal de Veneza
A Bienal de Veneza 2026 abriu ao público marcada por política, emoção e uma curadoria atravessada pela ausência de Koyo Kouoh. Primeira mulher africana nomeada para dirigir a Bienal, a curadora camaronense-suíça morreu inesperadamente em maio de 2025, antes da realização da mostra. Sua equipe curatorial, formada por nomes como Rasha Salti, Marie Hélène Pereira e Gabe Beckhurst Feijoo, deu continuidade à visão de In Minor Keys, exposição concebida a partir da ideia da arte como força compartilhada e sustentadora.
Em artigo publicado na Artsy, Annabel Keenan e Josie Thaddeus-Johns identificam cinco tendências que ajudam a ler a 61ª edição da Bienal de Veneza: nascimento e fertilidade, obras não fotografáveis, água, matérias-primas e cabelo. O texto observa a mostra central, os pavilhões nacionais e exposições colaterais espalhadas por palácios, igrejas e espaços de Veneza. A partir desse percurso, as autoras mostram como certos materiais, imagens e procedimentos aparecem de forma recorrente em obras que respondem a pressões do presente, como colapso ecológico, divisão social e horror da guerra.
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Bienal de Veneza entre corpo, matéria e experiência
Entre os temas apontados está a presença de nascimento e fertilidade. O artigo cita a escultura de Wangechi Mutu no Giardini, com a imagem de uma barriga grávida emergindo do chão, além do pavilhão do Japão, em que visitantes recebem um bebê boneco e são convidados a cuidar dele. A proposta, assinada por Ei Arakawa-Nash, aproxima criação artística e criação biológica, em uma chave que combina humor, cuidado e ansiedade diante das discussões contemporâneas sobre natalidade.
Outro ponto forte é o que as autoras chamam de “não fotografável”. Em diferentes pavilhões, artistas recusam a lógica da imagem rápida e do registro para redes sociais. No pavilhão da Áustria, Florentina Holzinger pediu que visitantes guardassem os celulares durante as performances. No Egito, Armen Agop solicitou silêncio e ausência de fotos. No pavilhão do Vaticano, uma caminhada sonora criada por artistas como Patti Smith, FKA twigs e Brian Eno conduz o público por uma experiência feita para ser ouvida, não capturada pela câmera.

Vista da instalação de Alexa Kumiko Hataqa na Bienal de Veneza de 2026. Foto de Andrea Avezzù. Cortesia da Bienal de Veneza.
A água também surge como eixo central. Em uma cidade diretamente afetada pela acqua alta e pela elevação do nível do mar, ela aparece tanto como matéria quanto como metáfora. O artigo cita obras de Melissa McGill, Jewel, Michael Joo, Alexa Kumiko Hatanaka e Abbas Akhavan, além do pavilhão austríaco inundado de Holzinger, que aborda a urgência da crise climática, o futuro dos recursos naturais e o acesso à água limpa.

Zulfiya Spowart, vista da instalação de Beshik (O Berço), 2026 “O Mar Sonoro”, Pavilhão Nacional do Uzbequistão, 61ª Exposição Internacional de Arte – La Biennale di Venezia, 2026.
As matérias-primas formam outro núcleo de leitura. Terra, areia, sal e cinzas aparecem em obras que tratam de identidade nacional, território e degradação ambiental. Entre os exemplos estão Dawn DeDeaux, Joana Hadjithomas e Khalil Joreige, Matías Duville, Haitham Al Busafi e o pavilhão do Uzbequistão, onde o sal remete ao desaparecimento do Mar de Aral.
Por fim, o cabelo aparece como matéria simbólica entre corpo, memória e identidade. Marina Abramović, Jenna Sutela, Temitayo Ogunbiyi, Wangechi Mutu, Marcia Kure e Adebunmi Gbadebo são citadas em obras que usam fios, perucas, tranças e cabelo humano para abordar ancestralidade, diáspora, cura, tradição e violência histórica.
Na leitura da Artsy, a Bienal de Veneza 2026 se revela menos por uma única narrativa dominante e mais pela repetição desses sinais materiais, sensoriais e políticos que atravessam a cidade.

