Only God Knows I'm Good, 2009
neon branco
63.5 x 346.7 cm
Edição de 3
Cortesia da artista e Lehmann Maupin Gallery, Nova York


Tracey Emin
Os neóns de Tracey Emin
Texto de David Maupin*

A arte de Tracey Emin pode chocar você. Imagens explicitamente sexuais e a linguagem provocativa permeiam seus trabalhos em todos os meios – pintura, desenho, filme, bordados e esculturas. Mas além do choque inicial encontra-se algo ainda mais inquietante. Com sua linguagem e imagens – e a pura emoção que transmitem – Emin confessa suas próprias inseguranças, desejos e medos para o espectador. Sua vulnerabilidade bruta pode ser bastante comovente, trazendo para fora as nossas próprias profundas emoções. Ao expor a si mesma, ela nos expõe.

Emin ganhou fama no mundo da arte na década de 1990, por suas obras controversas como “Everyone I Have Ever Slept With 1963 – 1995” (1995), uma tenda com os nomes de cada pessoa com quem compartilhou a cama, com apliques em seu interior; e “My Bed” (1998), sua própria cama desarrumada, com preservativos usados, roupas íntimas manchadas de sangue e outros restos reveladores. Sua vontade em expor suas experiências de vida continua a ser o que define parte de seu trabalho, ainda hoje. Palavras cuidadosamente construídas e frases bordadas em tecidos ou transcritas em desenhos revelam detalhes íntimos de seu passado. Que são lidos como poesia. Mas o veículo onde as palavras de Emin têm um impacto emocional imediato é indiscutivelmente o néon. Suas frases poéticas como em “Every Part of Me’s Bleeding” (1999) e “I promise to love you” (2008) esparramadas pelas paredes em radiantes luzes de néon penetram na alma. Enquanto seus trabalhos em grandes cobertores requerem contemplação e são multifacetados, seus néons têm uma pungência emocional que atingem imediatamente.

As obras de Emin estão estreitamente baseadas em suas experiências pessoais e a discussão de sua arte é incompleta sem a discussão de sua trajetória. Emin passou a infância e a adolescência em Margate, uma cidade litorânea inglesa que já viu dias melhores. Uma vez o destino dos turistas ricos de Kent e Londres, a Margate da juventude de Emin foi incontestavelmente mais decadente e degradado. Máquinas de jogos abandonadas, sex shops, sinais de néon brilhantes no topo dos prédios deram um dia a Margate o codinome “Golden Mile”.

Emin, seu irmão gêmeo Paul e sua mãe afundaram-se em uma pobreza crescente após a falência de seu pai. Emin deixou a escola aos 13 anos e passava seus dias e noites em volta dos cafés e discotecas. Nessa época, foi estuprada em um beco, a caminho de uma discoteca. Passou, então, os anos seguintes em Margate. Ir a bares, comer peixe e fritas, dançar e ter relações sexuais eram seus divertimentos de sempre. O sexo era simples e gratuito, e parecia não importar aos homens de 25 e 26 anos que ela mal havia saído da pré-adolescência. Aos 15 anos, Emin deixou Margate e seguiu para Londres, apenas para encontrar-se de volta à sua cidade natal pouco mais de um ano depois.

Apesar de todas as dificuldades e miséria da experiência de Emin em Margate, ela ainda se lembra da cidade como um lugar mágico e bonito. Em seu livro de memórias “Strangeland”, ela devaneia sobre a cidade: “é uma coisa estranha quando você vem de um lugar – ou melhor, quando você de certo modo tenha criado o lugar de onde você veio. A Margate da minha mente tem o mais lindo pôr-do-sol, que se estende por todo o horizonte. Falésias brancas dividem o mar azul intenso da dura realidade da terra firme”. Assim como suas mais intimas experiências definem a sua arte, certamente este cenário de sua juventude influenciou a sua estética. A beleza oprimida de uma cidade litorânea outrora brilhante causa emoções intrínsecas ao trabalho de Emin: um senso de perda, solidão e desespero. E o brilho roto das luzes de néon, em contraste à beleza natural do litoral, desperta sensações de desejo, medo e angústia.

As obras de Emin em neón, em particular, têm uma ligação nostálgica com a sua juventude em Margate. Em sua assinatura ela trasncreve seus mais profundos medos, arrependimentos e desejos, da mesma forma que as luzes do néon permeiam a sua cidade natal. Algumas de suas obras são explicitamente sexuais, relembrando os sex shops de Margate, mas a maioria tem uma sentimentalidade que ressoa profundamente nos espectadores. As palavras escolhidas cuidadosamente e as frases incisivas expressam emoções universais como amor, esperança, tristeza, dor e solidão. Ao usar néon, Emin amplia a intensidade emocional de suas palavras. Ao contemplar obras como “With You I Want to Lie” (2007) e “I Can Feel Your Smile” (2005), sentimentos poderosos de esperança e amor são evocados. Da mesma forma, uma sensação de solidão e pesar torna-se palpável ao ver “You Should Have Loved Me” (2008) ou “You forgot to kiss my soul” (2008).

Emin dá ênfase ao conceito de que o pessoal se tornar universal em seu recente projeto “NEON LIFE: A Portrait”. Tirando o foco de si mesma, a artista faz aos colecionadores uma série de perguntas íntimas como “Você acredita em Deus?”; “Se você pudesse, como escolheria morrer?” e “O que você fala quando faz amor?” Das respostas, Emin compõe frases em néon, capturando a essência de seus colaboradores. Poderíamos dizer que todas as obras de Emin em néon são uma forma de auto-retrato. Através destas palavras iluminadas, ela nos oferece um vislumbre de sua alma.

David Maupin é Diretor da Lehmann Maupin Gallery
www.lehmannmaupin.com


My Heart is With You/ And I Love You/ Always
Always Always, 2006
neon azul
128.5 x 163.3 cm
Edição de 3
Cortesia da artista e Lehmann Maupin Gallery, Nova York

I promise to love you, 2008
neon azul claro e vermelho
145.8 x 143 cm
Edição de 3
Cortesia da artista e Lehmann Maupin Gallery, Nova York

I Can Feel Your Smile, 2005
neon branco
63.5 x 152.4 cm
Edição de 3
Cortesia da artista e Lehmann Maupin Gallery, Nova York

You Should Have Loved ME, 2008
neon branco
57 x 160.6 cm
Edição de 3
Cortesia da artista e Lehmann Maupin Gallery, Nova York
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