Balkenhol

Big Installation, 2008
Instalação no Museum Deichtorhallen, Hamburgo

 

Stephan Balkenhol

“Elas dizem muito e nada”

Por Leylâ Akinci*

 

Stephan Balkenhol nasceu em 1957 em Fritzlar, Alemanha. Suas esculturas de homens e mulheres - a maior parte delas esculpida em blocos de madeira maciça e com superfícies policromadas - são reconhecidas e apreciadas pelo mundo inteiro. Balkenhol vive e trabalha em Meisenthal (França) e é professor da Academy of Karlsruhe (Alemanha) desde 1992.

As esculturas de Stephan Balkenhol são uma espécie de “homem comum” do século XXI – nem idealizado, nem individualizado. Estas figuras de homens em pé foram descritas por uma crítica como “... pequenos, singelos e precisando perder alguns quilos. Um tipo de homem que você nunca notaria em meio à multidão”. O artista faz estas figuras em madeira maciça usando serra elétrica, martelo e cinzel, criando uma superfície rica onde cada marca é visível. Relembrando a grande tradição das esculturas figurativas em madeira e a herança expressionista da Alemanha, as pessoas representadas por Balkenhol são curiosamente desprovidas de emoção e já foram descritas como “expressionismo alemão sem o expressionismo”.

Há um estado intermediário que domina suas esculturas e que é, talvez, o aspecto mais marcante de sua existência. Suas figuras parecem quase vivas, como se quisessem se mover, embora paradas; se parecem com alguém que conhecemos e estão vestidas quase como você ou eu. Possuem uma espécie de uniformidade e não há ternura demonstrada por seus gestos ou expressões. Seus olhares parecem fixos, tanto em um ponto próximo quanto em um ponto além da realidade. Será que elas têm, enfim, qualquer tipo de expressão? Elas não têm uma expressão particular, ainda que possuam algo que vá além disso. Como Balkenhol afirma, suas figuras estão “acima de tudo”, “belas, silenciosas, vívidas”. Elas “dizem muito e nada”.

Quanto mais estudamos o mistério destas esculturas, mais descobrimos o seu caráter. Elas – que parecem não ter pretensões ou mensagens, cujos olhares parecem indefinidos e sem qualquer questionamento – acima de tudo “dizem muito”. De alguma forma, parecem nos reproduzir. Estas figuras podem facilmente serem tomadas como um verdadeiro ser humano, copiando a uniformidade humana. Suas poses, por exemplo, podem facilmente se confundir a um visitante olhando para elas, em um museu ou galeria. O mistério é que, embora não revelem nenhuma personalidade, não são estranhas ao espectador. O espectador reconhece a si mesmo nestes observadores silenciosos, nestas criaturas “nômades”, como Jeff Wall as definiu certa vez. Em sua existência nômade, as figuras de Balkenhol são bastante discretas: brancas, camisas cinzas e calças pretas, na maioria das vezes. As mulheres quase sempre estão com vestidos brancos ou pretos com alças.

Stephan Balkenhol, povoando o mundo com suas criaturas misteriosamente impessoais e uniformes, é um dos artistas de mais destaque de sua geração, à frente de seu tempo desde o início de sua carreira. Ele reinventou a figuração em um período dominado pela Minimal Art e Concept Art. Foi aluno de Ultich Rückriem (entre 1976-82 na Academia de Hamburgo), cujo modo abstrato e minimalista de tratar grandes blocos de pedra deve ter lhe ensinado a direcionar a sua atenção a um material especifico. No entanto, ninguém poderia esperar que Balkenhol se voltasse à figuração. Ainda assim ele o fez. Ao invés de esculpir em pedra, ele começou a usar a madeira. Nunca foi fácil se opor drasticamente à influência do professor, principalmente nas academias alemãs, onde o “Mestre” é muito dominante na maior parte do tempo. No entanto, opor-se aos dogmas da arte e do mainstream tem provado ser um critério para a arte revolucionária. Embora Balkenhol nunca tenha seguido nenhuma estética matematicamente precisa, suas instalações não estão alheias às idéias conceituais e na questão fundamental pela qual se interessava: qual é a escultura pura? Balkenhol revelou sua perfeição elegante ao fundir elementos do minimalismo e da arte conceitual com o seu fascínio pelo tratamento tradicional dos materiais e pela admiração das esculturas egípcias. Se interessou por bustos romanos e pela maneira com são expostos nos museus de arte antiga. Também os retratos renascentistas lhe ensinaram muitos segredos para encontrar o misterioso caminho intermediário da representação do pessoal e do anônimo. Como em um retrato renascentista, as faces em relevo de Balkenhol sempre olham para todos, ao mesmo tempo que para ninguém, como seus olhares pudessem ser captados pelo espectador a partir de qualquer ângulo.

Desde sua época de estudante, Stephan Balkenhol tem feito uma carreira excepcional. Suas obras estão em museus do mundo todo e suas esculturas de homens e mulheres gigantes, ou em escala menor do que a natural, podem ser encontradas em museus e coleções privadas. A apreciação pelo seu trabalho não perdeu força, e com razão. Balkenhol tem aprimorado constantemente suas habilidades e vocabulário artístico, construindo incansavelmente um conjunto grandioso e rico. E produz cada escultura de acordo com os espaços das galerias ou museus, sempre dentro do contexto de cada exposição ou conceito artístico.

Stephan Balkenhol está constantemente ampliando sua variação de temas e grupos de figuras que formam as instalações. Man with Zebra, Man with Gorilla, Man with short green Pants e também King e Prisoner revelam que Balkenhol cria tipos e combinações de figuras humanas e animais - assim como o inesquecível 57 Penguins (1991) da coleção do Museu de Arte Moderna de Frankfut. Este grupo de pinguins revela a variedade de diferentes poses dos animais. Mas no final Balkenhol parece nos relembrar que os animais apenas apontam para a uniformidade dos humanos. Comparável à instalação 57 Penguins estão as obras 10 Dancing Pairs (1996-1999), 8 Boxers (2000) e Two Nudes on a Bench (2002).

Enquanto no passado Balkenhol estava interessado na combinação de animais com humanos ou em agrupamentos de humanos de acordo com suas relações aparentemente evidentes, seu interesse nos últimos anos está mais voltado para questões mais conceituais de figura e espaço ou do papel da escultura figurativa em um contexto espacial. Questões como o papel do monumento ou o status de esculturas heróicas tornaram-se mais evidentes em suas obras recentes. Desde 2004 Balkenhol decidiu não deixar suas colunas de figuras e bustos isolados no espaço das galerias e museus, mas dar a eles um fundo. Introduziu a combinação da figura com um pano de fundo e, ao combinar estes dois elementos, antes isolados, conseguiu um efeito surpreendente. Não apenas deu às figuras uma posição mais específica, criando um espaço para elas, mas também expandiu seu poder de “dizer muito” sem acrescentar expressões em seus rostos. Elas se mantiveram neutras, mas suas presenças no tempo e no espaço se fortaleceram. As figuras, assim como seus panos de fundo, podem ser lúdicas, dependendo dos seus motivos. Podem criar um efeito surrealista ou um cenário com críticas a um acontecimento histórico ou ainda uma situação urbana para as esculturas no plano principal. Elementos abstratos entram mais deliberadamente nas obras de Balkenhol, muitas vezes ele situa em segundo plano relevos com motivos abstratos e ornamentais, em frente dos quais a figura é colocada. Este pano de fundo em relevo foi uma importante invenção para criar uma ambientação para os nús, talvez porque careçam de atributos que possam indicar virtudes ou outras características.

A questão intrínseca da escultura é mais evidente nas obras recentes de Balkenhol. Qual é a função de uma escultura? Em seus últimos trabalhos, Balkenhol parece ter encontrado uma resposta mais precisa para esta questão que ele já tinha colocado no início da década de 80. Esculturas analisadas sob o ponto de vista de sua função aponta para duas opções: do ponto de vista tradicional, esculturas tratam de heróis, deuses e alegorias ou retratam um indivíduo específico. Embora Balkenhol tenha “reinventado” a figuração em seus primeiros anos como estudante, ele nunca quis esculpir heróis, deuses e alegorias. Tampouco retratar pessoas. Na verdade, talvez sempre tenha retratado a sim mesmo. Em dois casos sei que ele mesmo chamou os relevos de “auto-retratos”. Esta é uma exceção, mas como todo artista modesto ele não poderia resistir à sedução de brincar com esta tradição artística do auto-retrato. Mas Balkenhol tem proibido rigorosamente o aspecto de monumento da sua obra. Suas esculturas não são monumentos, embora muitas vezes sejam de dimensões monumentais. Esta é uma questão interessante em relação às configurações de suas esculturas mais recentes, criadas para sua apresentação no Deichtorhallen, em Hamburgo (2008/09). Embora Balkenhol tenha ampliado os relevos, que funcionaram como pano de fundo e divisórias de espaço, ele se concentrou em elegantes e vastos ornamentos ou imagens cotidianas, como desenhos ampliados de seus filhos. Em frente destes enormes relevos, colocou colunas com figuras de homens e mulheres vestidos com roupas do dia-a-dia. Escalas, mas não heróis. Ambiente cotidiano monumental, mas nenhum monumento.

Esta abordagem bastante revolucionária da escultura quase tradicional fez de Balkenhol um escultor único. Seus pequenos “homens comuns” provaram ser capazes de sobreviver às tentações da vaidade. Mas ao mesmo tempo Balkenhol resgatou seus pequenos homens e mulheres colocando-os em cenários que tem mais encanto do que nunca, como se ele não tivesse ampliado seus homens e mulheres, mas sim ampliado o mundo em volta deles.

*Leylâ Akinci, Galerie Akinci
www.akinci.nl

 


Woman in front of white relief (2008)

Man on pedestal, 2008

Two Nudes on Table (2005)

Male Head with Shadow (2008)

Big Installation, 2008
Detalhe da instalação no Museum Deichtorhallen, Hamburgo

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