

Adriana Varejão é uma artista plástica que vem ganhando cada vez mais destaque no espaço nacional e internacional. A artista, que se consagrou através de obras viscerais, peles rasgadas, interiores à mostra, canibalismo e esquartejamento, começa a trilhar novos caminhos.
Com profundidade, crítica e um cuidado estético impressionante, permeado por anos de pesquisa, Adriana Varejão produz obras extremamente vigorosas e impactantes. Para falar um pouco mais sobre a artista, sua trajetória e sua produção, convidamos João Carlos de Figueiredo Ferraz, um de seus muitos admiradores.
Touch of Class - Como e quando foi a primeira vez que você teve contato com a obra de Adriana Varejão?
João Carlos - A primeira vez que eu vi o trabalho da Adriana foi na Galeria Luisa Strina, em São Paulo. Creio que era a sua primeira exposição na cidade. Não me recordo precisamente da data, mas acredito que tenha sido no começo dos anos 90.
TC - Qual foi a sua reação diante das obras e quais as sensações mais evidentes?
JC - Os primeiros trabalhos eram em formato ovalado, já com uma massa avermelhada sob a tela que, rasgada, dava a idéia de um ferimento. As imagens eram de figuras do Brasil colonial, com seus padres, negras, soldados imperiais, índios e índias. As obras mostravam as personagens em cenas de sexo libertino – entre padres e negras, por exemplo – ou então sendo açoitados (como soldados punindo índios), tendo ao fundo um cenário idílico tropical, com florestas exuberantes, retratando as paisagens brasileiras. As obras da Adriana eram, e ainda são, trabalhos agressivos que, em uma primeira impressão, me causaram um natural desconforto. Esta idéia, que a artista soube bem utilizar na sua obra crítica, me faz lembrar de uma lenda presente na Idade Média européia que dizia que o “paraíso” tão falado na bíblia seria na própria terra em algum lugar ao sul do Equador - um lugar pacífico e maravilhoso, onde o pecado não existia. Daí toda permissividade no comportamento das pessoas que acabavam por gerar, contraditoriamente, todo tipo de violência.
TC - Desde então, como você observou o desenvolvimento da obra da artista?
JC - De lá para cá, esta visão crítica foi se confirmando até chegar na utilização da imagem clássica dos azulejos portugueses, também rasgados e feridos, sanguinolentos, dando idéia da selvageria da dominação colonial. Ao que me parece, esta dominação, fortalecida pela crítica atualizada do comportamento colonialista, ainda impera no Brasil. Por isso o trabalho de Adriana Varejão é extremamente coerente e bem resolvido. Ao lado desta representação crítica, este trabalho se mostra também sob um caráter lírico, romântico, com estética mais suave, porém sem perder a competência e a firmeza. São talvez os que eu mais admiro, não por serem melhores, mas apenas pelo meu gosto pessoal.
TC - O que a obra de Adriana representa, na sua opinião, para o cenário artístico contemporâneo do Brasil e para o mundo da arte internacional?
JC - Os anos 90 foram extremamente importantes para o cenário artístico brasileiro, tanto pela qualidade quanto pela competência dos artistas que surgiram nesta década. Neste período, a arte brasileira se projetou no cenário internacional, não como uma extravagância exótica, como havia ocorrido no passado, mas pela sua linguagem contemporânea, pela força de sua mensagem e pelo pioneirismo de sua proposta estética e conceitual. Vários artistas começaram a se destacar nesta época no cenário mundial e, inegavelmente, Adriana Varejão se encontra entre estes nomes.
TC - Se você tivesse que sintetizar a obra da artista em poucas palavras, qual seria a sua definição?
JC - Eu definiria o trabalho da Adriana como vigoroso, vibrante e provocador.
| VIDA E OBRA DE ADRIANA VAREJÃO
Adriana Varejão, atualmente, é uma das artistas brasileiras de mais destaque na cena contemporânea, no Brasil e exterior. Nascida em 1964, a carioca Adriana começou sua carreira nos anos 80, ainda muito jovem. Entre 1981 e 1985 freqüentou cursos livres na Escola de Artes Visuais do Parque Lage, no Rio de Janeiro e fez sua primeira exposição individual em 1988, na galeria Thomas Cohn. Na década de 90, foi incluída em inúmeras mostras importantes e aos poucos foi revelando o amadurecimento de sua obra. Destacam-se suas participações na Bienal de São Paulo, em 1994 e 1998; nas Bienais de Havana (1994), Johannesburgo (1995) e Liverpool (1999). Adriana também foi uma das figuras centrais da Bienal de Sydney (2000), além das mostras coletivas UltraBaroque (EUA, 2000-2002), TransCulture (Veneza; Tokio, 1995), New Histories (ICA, Boston, 1996), Mapping (MoMA-NY, 1994). Em 2002, Varejão realizou individuais na galeria Victoria Miro, uma das mais conceituadas de Londres e na Galeria Fortes Vilaça, em São Paulo. Atualmente está em exposição no MoMA-NY, que remontou integralmente sua monumental instalação “Azulejões”, exibida no último ano com sucesso no Centro Cultural Banco do Brasil do Rio de Janeiro e prepara os trabalhos que irá expor em suas próximas individuais, em Madri e Nova York. Sua obra reproduz elementos históricos e culturais, com temas ligados à colonização, ao barroco e à azulejaria. Investiga também a utilização do corpo humano, da visceralidade e da representação da carne como elemento estético. Apesar de remeter ao barroco, adquire forte contemporaneidade em decorrência do acúmulo excessivo de materiais, camadas de tinta e informações. A densidade simbólica de Adriana Varejão é tanta que escandaliza os espectadores, mas ao mesmo tempo é responsável pela conquista de admiração e respeito cada vez maiores nos cenários internacionais da arte. |
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