THOMAS COHN - A ARTE DA NOVIDADE

O início do meu envolvimento com a arte coincidiu praticamente com minha vinda ao Brasil. Nasci na Alemanha e fui criado no Uruguai, onde trabalhava com a comercialização de aparelhos médicos. Em 1962 recebi e aceitei a proposta de uma empresa para me transferir ao Brasil. Contava com 28 anos quando mudei com minha esposa Myriam para o Rio de Janeiro, deixando para trás nossas famílias e amigos. Nossa vida social ficou praticamente reduzida a zero. Íamos ao cinema, viajávamos de vez em quando e fortuitamente começamos a freqüentar exposições de arte das galerias cariocas da época - Jean Boghici, Barcinski, Petite Galerie, Relevo. Às vezes vínhamos a São Paulo e aos poucos fomos recebendo cada vez mais convites. Ingenuamente, achávamos que ir a esses vernissages era uma obrigação moral e comparecíamos a todos elas.

O contágio pela arte
Comecei a gostar muito desta atmosfera e, como ganhava mais do que gastava, passei a comprar alguns desenhos e gravuras – erradas, no princípio, porque quando começamos a co mprar, sem saber, iamos aleatoriamente a aquilo que impressionava a primeira vista. Alguns artistas da época – Antonio Dias, Roberto Magalhães, Gerchman e Gastão Manuel Henrique – souberam que estávamos comprando; foram os primeiros a nos orientar para que déssemos preferência por “artistas da nossa geração”, política esta que acabou norteando nossa coleção. Foi assim que compramos algumas obras deles todos e fomos infectados por esta doença crônica, que nunca mais nos abandonou.

Por uma dessas casualidades da vida, quando meu chefe faleceu, em 1965, me deram a chance de fazer as suas viagens ao exterior, já que eu dominava algumas línguas. Na mesma época, Antonio Dias também passou a viajar para a Europa, me ajudando por lá. Através dele conheci artistas importantes como Boltanski, Sol Lewitt, Adami e Arakawa, visitei galerias e assim fui aprendendo muito, inclusive a depurar o meu gosto pela arte.

Depois, fiz contato com críticos importantes e minha ligação com as artes plásticas foi se tornando cada vez mais intensa. As minhas entradas não eram fabulosas, mas todo o dinheiro que me sobrava era aplicado na arte. Fui formando uma pequena coleção, primeiro em nível nacional e mais tarde, com alguns elementos internacionais.

Tomada de decisão
Finalmente, em 1982, com 20 anos de coleção e 48 anos de idade, tive que tomar uma decisão em minha vida. Eu não poderia trabalhar em nenhuma outra área que não fosse a arte. Analisando minha coleção e as minhas limitações financeiras, percebi que colecionando eu manteria apenas algumas obras para o resto da vida, e que teria mais sentido abranger uma quantidade significativa de obras, - e as vezes até administrando o seu destino final - por um espaço de tempo menor. Isso representava a escolha de me tornar um marchand!

Já Myriam e eu tinhamos nos separado em 1978, mas em 1983 nos tornamos sócios e abrimos uma galeria, com a proposta de prestigiar e lançar jovens artistas. Em todo o período em que fomos apenas colecionadores, mantivemos essa postura – fomos como colecionadores dos primeiros compradores de Waltércio Caldas, Cildo Meireles, Tunga e José Resende, ainda nos anos 70.

Com a galeria, decidimos continuar apoiando jovens talentos. Nosso primeiro lançamento foi Leonilson. Por causa disso chegamos a perder alguns artistas mais estabelecidos, mas não nos abalamos por acreditar que o nosso caminho era esse.

Geração anos 80
Leonilson foi uma exposição-prenuncio “anos 80”, já que a geração 80 só veio à tona depois de uma exposição em São Paulo organizada pela Aracy Amaral e outra no Parque Lage, em 1984. Neste ano, fomos a primeira galeria contemporânea latino-americana a participar de uma feira de arte européia, a ARCO, na Espanha. Levamos artistas como Sérgio Romagnolo, Leonilson, Leda Catunda e Antonio Dias. Fomos pioneiros, já que as galerias brasileiras trabalhavam exclusivamente com o mercado nacional. Foi o primeiro passo para inserir artistas brasileiros no mercado internacional, logo seguido por outras galerias.

Fizemos a primeira exposição de Leda Catunda, Caetano de Almeida, Edgard de Souza, Lia Mena Barreto e Adriana Varejão. A primeira no Rio da Lygia Pape y a primeira de escultura de Amilcar de Castro. Nessa década de 80 apresentamos internacionalmente vários artistas e trouxemos outros tantos de fora para expor aqui, como Tony Cragg (com a sua 6ª exposição no Brasil agendada para 2006), Peter Schuyff, Donald Baechler e Diane Arbus. Entre os latinoamericanos ficamos conhecidos pelo trabalho de dez anos com Guillermo Kuitca.

Do Rio para São Paulo
A década de 90 foi marcada pela crise conseqüente ao modelo econômico adotado na época. O mercado do Rio ficou muito abalado, com as galerias fechando uma atrás da outra. Nos mantivemos com dificuldade, perdendo substância entre 90 e 97, quando chegamos à conclusão de que tínhamos que nos mudar para São Paulo, onde o mercado de arte acabou por se concentrar.

Ainda assim, nomes como Rosana Palazyan, Walter Goldfarb e Mauro Restiffe vieram à tona pelas nossas mãos. Acrescentamos ainda Rodrigo Cunha, André Gomes, Paulo Queiroz e, mais tarde, Oscar Oiwa, além de continuar trazendo artistas reconhecidos internacionalmente, como Marta Maria Pérez Bravo e Donald Baechler. No final da década 90, houve a onda da “Morte da Pintura” e a ocupação do espaço para novas tendências e tecnologias, como as instalações, fotografia e vídeos. Nos perguntamos até que ponto não se estava trocando a discussão de conteúdo por uma de forma e optamos por manter nossa política e apostar na pintura. Quem viaja aos grandes centros da arte pode conferir: a pintura se mantém firme e continua como nosso carro chefe na galeria.

Hoje
Continuamos buscando novos talentos, em todas as vertentes das artes – pintura, escultura, desenhos, fotografia. Nosso objetivo maior é descobrir outros valores, aqui e lá fora, para oferecer ao colecionador e aos interessados na arte. Queremos que as pessoas saibam que na nossa galeria sempre encontrarão novas propostas e, lançadas com o aval de 42 anos de experiência de quem sendo galerista hoje foi colecionador durante 20 anos.

A pesquisa é constante. Além da leitura de veículos especializados, visito feiras de arte, galerias e escolas de arte da Europa. Freqüento estes lugares como colecionador, já que a galeria para mim é apenas uma forma de colecionismo. A diferença é que coloco minhas obras à disposição de outras pessoas, até que elas deixem de me pertencer e passem p ara outras mãos. É como se eu pudesse colocar minha experiência a serviço daqueles que ainda não a tem. Compartilhar estas vivências é fascinante, assim como descobrir um artista for a-de-série e lançá-lo no mercado como uma surpresa é um dos grandes momentos da profissão. A movimentação do mercado em São Paulo é bem expressiva, mas ainda há espaço para expansão. Muito dinheiro continua sendo investido em outros bens, muita gente com potencial de aquisição não está explorando a arte, por não saber como fazer, não querer ou não se aproximar destas oportunidades. Lugares da América Latina, como Venezuela e Porto Rico, comparados proporcionalmente ao Brasil, têm mais colecionadores. Esses países não têm qualidade de produção, ao contrário de nós, que possuímos um excelente núcleo de artistas que poderia concorrer em coleções no exterior.

Claro que a globalização tem facilitado muito o processo de garimpar e divulgar os artistas. Hoje consegue-se saber imediatamente de qualquer nome, em qualquer lugar do mundo, através da internet. Essa é a maior diferença entre as gerações anteriores e a atual, o que vai facilitar cada vez mais a exposição das nossas produções.

Iniciativas como as feiras de arte também são fundamentais. A novíssima SP Arte, por exemplo, é um grande passo para que o Brasil possa ter um calendário expressivo e ser reconhecido por outros eventos além da Bienal. Tanto a organização da feira quanto as galerias envolvidas merecem os parabéns por esta atitude.

Nosso foco continua fixo sobre “Arte dos próximos 10 anos”. Estou com 71 anos de idade e o fato de renovar sempre é um exercício e um desafio, tanto em nível pessoal, quanto voltado à minha contribuição à arte.