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PAULO AUTRAN
Por Karin Rodrigues

Depois de alguns meses da sua morte, ainda estou tentando criar uma nova rotina sem a companhia do Paulo. Tínhamos uma vida ótima juntos e venho tentando me adaptar, pois sei que a vida continua.

Morávamos em casas separadas e nosso dia-a-dia era, invariavelmente, assim: perto do meio-dia, eu ia almoçar na casa dele e depois, lá pelas cinco e meia, ele vinha para a minha casa. Ficávamos jogando tranca, que ele adorava! Chegamos a “viciar” a minha filha Cristiana e por vezes alguns amigos apareciam também. Passávamos horas jogando, às vezes até brigávamos por causa de bobagens! Contabilizávamos as vitórias e, a cada vez que chegava a um determinado limite, o vencedor ganhava um jantar. Ele reclamava: “Que coisa horrível, só você ganha!” E eu o consolava, dizendo que tinha de ser melhor do que ele em pelo menos uma coisa!

Quase sempre íamos ao cinema ou teatro, pois o Paulo era muito interessado em conhecer os novos atores. Ele prestigiava os espetáculos consagrados e os alternativos. Também aproveitávamos para jantar, nossos locais preferidos eram o Parigi, o Gero e o Camelo, entre outros. Paulo adorava a sopa de aspargo do Parigi.

Líamos muito, trocávamos os livros. Paulo foi um homem curioso, um sinal de que seu espírito também precisava se alimentar. Adorava bons filmes e uma boa conversa, principalmente em pequenas reuniões, onde amigos se sentavam ao redor da mesa e permaneciam comendo e conversando, por horas.

Nossas temporadas no sul do País eram uma delícia, neste sentido. Nos reuníamos com os amigos – Mafalda Veríssimo, esposa do Érico, Lya Luft e outros. Conversar era um prazer, para Paulo.

Cozinhar para o seu elenco também era um prazer, quase uma tradição. Havia o famoso vatapá ou então um picadinho delicioso. E a sua sopa de cebola, também consagrada, ele foi até ensinar no programa da Ana Maria Braga.
Como ator, Paulo Autran é único. Pode-se dizer que era “preguiçoso”. Muitos atores ótimos que eu conheço ficam estudando em casa, fazem um trabalho de pesquisa e análise, mas ele não. Paulo pensava, subia no palco e fazia. Era um superdotado! Tinha inteligência, cultura, talento e vocação e por isso chegou até onde chegou.

Sua carreira foi inteiramente dedicada ao Teatro. Fez algumas novelas, com cenas muito emblemáticas e marcantes, mas sobreviveu com o teatro – coisa rara nos dias de hoje, pois todos acham que é preciso tomar um banho de imagem e estar na TV. Paulo Autran sempre esteve na mídia, sem estar na TV. Mas era único, já disse, e talvez só ele tenha conseguido esta proeza.

Não fazia TV porque achava os textos pobres e a pressão pelo “fazer rápido” se sobrepondo ao “fazer com qualidade” não o atraía. Participou de alguns especiais e minisséries, como “Hilda Furacão”, onde trabahou com Rodrigo Santoro, que admirava bastante. Aliás, sempre estimulou os novos talentos, como Dan Stulbach, com quem contracenou em uma das temporadas de “Visitando Mr. Green”.

Nos palcos, atuou nos grandes clássicos e nas peças brasileiras, foi da tragédia à comedia, drama e até um monólogo, “O Quadrante”, que foi um grande sucesso.

Também sou atriz e brinco que, em qualquer ensaio ao lado dele, eu era sempre a “última da classe”. O talento dele, em contraste com a minha dedicação e esforço, era evidente! Mas eu não tinha problema algum com isso, não havia competição. Havia uma convivência deliciosa e cumplicidade. E o privilégio de tê-lo ao meu lado, na vida pessoal e nos palcos.

Tudo o que eu aprendi de mais valioso no teatro veio dele. Um pouco ele me ensinando, porque me dirigiu várias vezes, mas a maior parte de vê-lo representar. Na última cena de “O Avarento”, eu fazia um comissário de polícia e ficava parada, com uma máscara, e aproveitava para observá-lo. Ele não tinha nenhuma tensão, estava totalmente em casa. Os outros atores representavam, mas Paulo encarnava o personagem.

Ele lidava muito bem com tudo isso. Tinha sua vaidade, sim, mas não exagerada. Ficava inseguro antes das estréias, ficava nervoso, mas disfarçava muito bem. Nunca dava bandeira de nada, estava sempre no controle de suas emoções. Quando não gostava de alguma coisa, fazia sua “cara de paisagem” – como brincava um de seus sobrinhos.

Muito determinado, era um empreendedor. Quando cismava com uma peça, corria atrás dos direitos e mesmo que fosse muito complicado, sempre conseguia o que queria. Também produziu muitos espetáculos, em uma época onde o patrocínio não existia. O espetáculo era montado, se fazia um empréstimo e o colocava em cartaz. A bilheteria acabava custeando a produção, em espetáculos de terça a domingo, com dois horários no final de semana.

Sua última peça em cartaz foi “O Avarento”. Seguíamos a mesma rotina: ele vinha para casa e jogávamos baralho até às sete e meia, depois íamos para o teatro. De lá, saíamos para jantar. A peça foi um grande sucesso! No dia que paramos definitivamente, porque o Paulo já não podia mais trabalhar, tivemos que devolver 1150 ingressos. Isso, depois de um ano em cartaz, de quinta a domingo. E foi quando ele parou de trabalhar que a sua vida perdeu o sentido.

Nosso relacionamento era ótimo. Há duas coisas muito importantes em um relacionamento, e nós as tínhamos: ríamos muito juntos e também conseguíamos ficar em silêncio, sem ansiedade ou agonia. Ficávamos horas em silêncio, eu bordando e ele fazendo uns tapetes de lã. Era uma delicia! Compartilhamos os bons momentos e os difíceis também, com problemas de saúde, mas sempre lado a lado.

Ele me dizia “Minha flor, você tem que se conformar com a idéia, uma hora vamos embora daqui” e eu entendia que esse dia ia chegar. Ele estava com 85 anos e não parava de fumar, mesmo depois dos diagnósticos de enfisema e câncer de pulmão. O cigarro acelerou a sua partida, senão poderia estar como a Bibi Ferreira, nos palcos até hoje. E ele me pedia para alertar as pessoas de que ele só morreu porque não conseguiu parar de fumar.

As últimas homenagens que ele recebeu, ainda em vida, foram muito especiais. Uma das mais marcantes foi o Prêmio “Bravo!”. Paulo levou a platéia às lagrimas quando começou por dizer “Eu só me emociono quando os personagens pedem”, mas não agüentou e caiu no choro. Ao sair do palco, acenou um adeus, como se estivesse mesmo se despedindo. Foi um momento pungente.

Outra homenagem especial foi ver o antigo Teatro do Sesc Pinheiros ser rebatizado como Teatro Paulo Autran.

Sempre foi lindo vê-lo representar. O Paulo foi embora, vai deixar um lugar insubstituível, muitas saudades e uma história linda, que se confunde com a própria história do teatro no Brasil.