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LOUISE BOURGEOIS
num tempo de pouca escultura
Por Vitor Figueiredo
Uma exposição da obra recente de Richard Deacon, há cerca de dois anos na Lisson Gallery de Nicholas Lonsdale, foi o pretexto para um jantar, um dos habituais jantares que ocorrem nas galerias de arte e recebem o artista, convidados e possíveis compradores
No dia de inauguração da exposição de Deacon fui, por mero acaso, à Lisson Gallery, onde Nicholas convidou-me para o jantar ritual. Um acontecimento mundano do qual habitualmente fujo; mas a memória das muitas conversas tidas em torno do tema da escultura desde a minha primeira visita a Lisson, em 1993, fez-me ficar. O que permaneceu na memória foi uma frase, um pequeno comentário do Nicholas quando, juntos, visitamos a exposição ainda antes da chegada dos convidados: “Vitor, estamos passando por um período difícil para a escultura, há poucos novos escultores”. Esta frase me fez pensar, sobretudo porque vinha da boca de alguém que foi o responsável pelo lançamento e reconhecimento internacional de toda uma geração de escultores ingleses, além de Deacon: Tony Cragg, Anish Kapoor, Shirazeh Houshiary, Julian Opie, Richard Wentworth.
A atual conjuntura é rica em pintura e em novos pintores, alguma fotografia e muitos praticantes de diversos e muitos meios convocados para dizerem coisas que, quando revistados, sabem quase sempre muito pouco. Estas reflexões me vieram ao pensamento ao visitar no Tate Modern a exposição de Louise Bourgeois. Aqui está um exemplo de escultura, de coisas esculpidas, reunidas, coladas, que exigem a existência do espaço enquanto audição para ganharem sentido e permanecerem com sentido. A condição de escultura exige este diálogo, esta fala com o espaço.
Louise Bourgeois começou como pintora e foi o grande pintor Fernand Léger que, na sua linguagem seca, lhe abriu o caminho da prática da escultura. “Não compreendo a tua necessidade de pintar”, disse Léger agarrando um pedaço de madeira, que suspendeu de uma prateleira; “Olha, a madeira roda. Isto é escultura”. Louise Bourgeois fez a propósito alguns desenhos, que mostrou a Léger e que lhe resultaram nas seguintes palavras decisivas: “Louise, você não é uma pintora, é uma escultora”.
Descobri a importância da escultura de Louise Bourgeois na exposição “Pensées-plumes”, que em 1995 teve lugar no Centre Pompidou. Mas foi em novembro de 1997, na Galeria Robert Miller, em Nova York, que escolhi a obra Torso, auto-retrato de 1963-4, para a minha coleção pessoal.
É uma obra importante, mas não basta; deveria ter escolhido uma das suas celas, compartimentos onde o segredo do surgimento da nossa personalidade é sutilmente sugerido.
Na atual exposição da Tate Modern pude rever uma das obras que vi na exposição de treze anos atrás, Líquidos Preciosos, de 1992, e uma vez mais fiquei maravilhado e dominado pela capacidade única de Louise Bourgeois em representar o medo, a ansiedade, a violência escondida das palavras, a agressividade contida, a influência que a fantasia do outro tem na gestação das nossas identidades.
Para operar as suas representações, Louise Bourgeois encena espaços fechados, mas abertos e disponíveis ao nosso olhar, espaços que sugerem, sem nunca serem, o quarto das nossas infâncias. Estes espaços, “celas” na linguagem da escultora, são preenchidos com coisas do cotidiano, encontradas, associadas pelo seu significado simbólico ou por coisas feitas, esculpidas. O que liga os objetos está ausente e é esta sábia e controlada ausência que produz e nos permite sentir e ver o medo, os segredos da nossa interioridade que, normalmente, apenas através da palavra, das palavras, é possível de anunciar, dizer, falar.
A visita à exposição de Louise Bourgeois deixa um mal-estar, não o mal-estar de quem quer chocar, coisa comum nas práticas atuais, mas de quem diz o que está proibido de ser dito. A obra de Louise Bourgeois comporta-se como uma espécie de psicanalista portátil, de alguém que sem falar está, no entanto, presente e nos permite reviver o escondido, a ansiedade e os medos, a violência, a natureza canibal das relações humanas. E esta grande escultora tem hoje 95 anos e iniciou já aos 60 anos a sua fase mais decisivamente criadora. Idades que parecem dar razão e pertinência ao pequeno comentário de Nicholas Lonsdale que aqui relembrei. |