REMANDO MUNDO AFORA
As aventuras do maior canoísta brasileiro pelos cinco continentes
Depoimento de Sebástian Cuattrin
a Felipe Mazorca
A vida de um esportista de sucesso não é fácil. Treinos intensos diários, competições desgastantes, pressão de patrocinadores e assédio por parte tanto dos fãs quanto da mídia. E claro, viagens. Muitas viagens. Sebastián Cuattrin, o maior canoísta da história do Brasil, não foge à regra. E sua história dentro de aviões e aeroportos, cruzando continentes e oceanos, começou bem cedo. Foi logo aos 15 anos de idade, quando foi disputar sua primeira competição internacional no Canadá.
Isso foi há duas décadas. Nesse meio tempo sua carreira decolou e ele se consagrou como o mais vitorioso deste esporte no País. Em diversas modalidades da canoagem de velocidade, este apaixonado por carros antigos e competições automobilísticas conquistou mais de 100 campeonatos brasileiros, 15 títulos sul-americanos, 11 medalhas em Jogos Pan-Americanos e desde 1996 é eleito o melhor brasileiro em seu esporte. Além de todos esses títulos, ele coleciona 19 participações em campeonatos mundiais, representou o Brasil nos últimos quatro Jogos Olímpicos e teve a honra de ser um dos condutores da Tocha Olímpica quando ela passou pelo Rio de Janeiro, em 2004.
Hoje, aos 34 anos de idade, Sebastián Cuattrin é praticamente um cidadão do mundo. Seu tempo de vôo, seja pela carreira ou por prazer, registra cinco passaportes, quatro continentes e 40 países diferentes. Inclui desde as rotas mais badaladas – como Estados Unidos, França e Alemanha –, até as menos usuais – como Trinidad & Tobago, Eslovênia e Bósnia-Herzegovina. Com tantas viagens ele passou por grandes experiências, lugares maravilhosos, situações curiosas e surpreendentes e também por alguns apuros, vistos nas palavras do próprio atleta.
“Uma das minhas experiências mais marcantes foi quando estive na Austrália, considerado por muitos um dos lugares mais isolados e exóticos do mundo. É um país muito interessante, que mistura o moderno e o selvagem com uma proximidade muito grande. Eu fiquei impressionado com a beleza e o cuidado que eles têm com os recursos naturais. Lá existe uma vasta quantidade de água. As cidades aproveitam essas belezas e se edificam ao lado de grandes baías e praias, respeitando a natureza e tentando conservá-la”.
“Outras cidades européias que me encantaram por esse contraste entre o velho e o novo foram Sevilha, na Espanha, e Linz, na Áustria. Em Linz essa mescla é genial. Existem igrejas e monumentos muito antigos. Foi lá também que eu vi neve pela primeira vez”.
“Aqui no Brasil também existem cidades belíssimas e que me deixaram grandes recordações. Já estive em diversas partes do mundo, mas o Rio de Janeiro é o lugar mais lindo que conheci. Com certeza é uma Cidade Maravilhosa. Lá perto, em Angra dos Reis, tive um dos melhores passeios da minha vida. Curitiba é uma das metrópoles mais interessantes que já estive. Tem cara européia, mas a população tem o carinho e a hospitalidade brasileira. Não me esqueço quando fui ao autódromo da cidade e pude unir minhas duas paixões: carros e velocidade”.
“Outro paraíso brasileiro fica nas cidades de Itacaré e Barra Grande, no sul da Bahia. Um dos locais de natureza mais exuberante que já visitei, com paisagens fantásticas. Lá também aprendi a surfar. O local é mesmo abençoado por Deus”.
“Eu gosto também de praticar esportes quando estou em viagem. E alguns lugares são bastante propícios para isso. Gosto muito da cidade de Timburi, no interior de São Paulo. Fazer rapel naquela cachoeira maravilhosa foi realmente uma das minhas experiências mais legais. Além da aventura e de toda a emoção de descer a queda de água, ainda existe a sensação de poder curtir o visual assim que chegamos lá embaixo”.
“Uma das experiências nas quais eu mais me surpreendi até hoje foi quando estive na África do Sul. Eu achei que seria apenas uma paisagem selvagem, misturada à savana. Mas me deparei com grandes metrópoles e cidades estruturadas, como em qualquer outro lugar do mundo”.
“Uma das viagens que eu mais aproveitei foi a que fiz para a Polônia, há uns 10 anos. Com o final do regime comunista, o país atravessava uma fase de mudanças, principalmente econômicas. Os poucos dólares que eu levava na carteira, me deram condições de adquirir muitas coisas e de fazer uma viagem muito legal. O preço das mercadorias era muito barato e acabei multiplicando meus passeios”.
“Uma das melhores cidades polonesas é Bydgoszcz, onde meu ex-treinador mora. Apesar de agrária, tem muitos lugares antigos e cheios de história, principalmente da II Guerra Mundial. Lá eu tive uma experiência bastante engraçada com comida. Na Europa eles comem muito porco, que é mais fácil para a criação. E uma vez meu ex-treinador quis fazer um churrasco com carne de vaca, mas eles não entendem nada. Quando eu percebi que a coisa não iria dar certo tive que ir para a churrasqueira para salvar a refeição. Foi bem divertido”.
“Sempre que eu conheço um lugar novo gosto de experimentar a culinária local. Sempre desperta minha curiosidade. E no exterior o país que lidera meu ranking gastronômico é Cuba. Com a proximidade e fartura do mar do Caribe, nós comíamos frutos do mar todos os dias. A mistura de frutas e comidas salgadas faz da cozinha cubana umas das mais legais e saborosas que eu já
experimentei”.
“Acho que a maior chateação que já passei por causa de viagens foi numa das vezes que fui do Brasil para a Austrália. Eu saí de Londrina e fiquei três dias viajando. Tive que trocar ou descer do avião em São Paulo, Miami, Perth e, finalmente, em Sidney, meu destino final. Mas com certeza a parte mais chata ao viajar é ter que contar a grana para não estourar o cartão de crédito e se privar de um monte de coisas legais que a falta de uma condição financeira mais elevada não nos permite”.
“Eu também não tive uma passagem boa pela Bulgária, mas foi por outros motivos. Estava competindo e não tive a oportunidade de conhecer os lugares turísticos. Mas com certeza o país deve ter seus encantos naturais e históricos. Agora, o maior apuro que eu já passei foi quando estava em Atlanta, me preparando para o Pan de Winnipeg em 99. Estivemos no meio de um tornado e a tempestade chegou a arrancar árvores pela raiz. Felizmente nada aconteceu”.
“Eu já visitei dezenas de países e quase todos os continentes, mas ainda há lugares que eu pretendo visitar, como a Ásia. Também pretendo conhecer nações imponentes e históricas como a Rússia, o Japão e a China. Estou na expectativa de disputar, em agosto, minha quinta Olimpíada, em Pequim”.
“Mas mesmo depois de ter passado por ótimas experiências, conhecido culturas encantadoras, visitado conhecidas belezas naturais e degustado de variados tipos de culinárias, não há país melhor do que o Brasil. O diferencial aqui é a alegria e o carinho do povo, que você não encontra em lugar algum do mundo, por mais hospitaleiros que tentem ser”.
“Para quem, assim como eu, gosta e precisa viajar constantemente, eu deixo algumas dicas: Guarde bem seu passaporte, seu dinheiro e não ache que não existam bandidos na Europa ou em qualquer parte do mundo. Fique atento e curta cada momento de sua viagem. Se puder, eternize-os em fotos e filmes. Mas, principalmente, guarde-os na memória para poder viajar a qualquer parte do mundo novamente, sem sair de casa”.
|