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Os bastidores de Hector Babenco
Cresci em Mar
del Plata, cidade balneária ao sul de Buenos Aires. No verão, a
cidade abrigava o quíntuplo de seus 300 mil habitantes. Já no inverno,
toda a sua infra-estrutura ficava às moscas e, para se manterem
ativos, os cinemas da cidade promoviam festivais, intercalando exibições
de filmes italianos, franceses, húngaros e japoneses, além dos lançamentos.
Aprendi a gostar
de cinema desde então, em meados de 1960. Ao lado da literatura,
este era meu grande refúgio, em um tempo onde a televisão não passava
de um eletrodoméstico, com um ou dois canais, exibindo seriados
que não me interessavam. A partir dos 14 anos, fui me alimentando
de uma forma muito democrática e plural das produções cinematográficas
do mundo inteiro.
Nunca estabeleci
diferenças entre cinema comercial e artístico. Para mim, tudo pertencia
à sétima arte e cada história contada tinha o poder de me fascinar.
Em uma época de acesso precário à informação, os filmes e a literatura
eram os responsáveis por acrescentar elementos culturais à minha
formação, únicas fontes de referência do que acontecia no mundo.
Eu os explorei com toda a força de um adolescente, trabalhando em
uma livraria durante à tarde e indo ao cinema à noite. Assistia
de cinco a seis filmes por semana.
Nessa época,
fui convocado para servir o Exército. Ouviam-se histórias sobre
as humilhações impostas a garotos judeus e, por vir de uma família
judia (apesar de não ser praticante), tive pânico de passar obrigatoriamente
dois anos em serviço, então saí do país e vim para o Brasil, onde
fiquei pouco mais de um ano. Depois, influenciado pela literatura
beatnik, peguei um barco até a Europa onde me aventurei sempre querendo
trabalhar com cinema. Nos últimos dois anos da minha trajetória
européia trabalhei como figurante em filmes na Espanha, mas sem
nenhum contato com a produção deles.
Aos 26 anos,
resolvi voltar, mas descobri que era considerado um desertor pela
justiça argentina. Então lembrei do Brasil, um país que cultuava
a liberdade, a espontaneidade, a felicidade de existir e com o qual
havia me identificado. Vim para cá, me adaptei, fiz meu primeiro
documentário e logo depois meu primeiro longa-metragem, “O Rei da
Noite”, com Paulo José e Marília Pêra. Devo muito ao Brasil, que
me proporcionou esta chance – eu que não tinha nenhum tipo de formação
profissional para tal.
Em 1977, veio
“Lúcio Flávio, o Passageiro da Agonia”, baseado no livro de José
Louzeiro, que alcançou a terceira maior bilheteria da época. Seu
grande sucesso me colocou no mapa do cinema nacional e me deu autoconfiança
para fazer “Pixote”, filme que considero muito. Se “Lucio Flávio”
me abriu as portas do Brasil, “Pixote”, filme produzido entre 1979
e 1980, me abriu as portas para o mundo. Com ele ganhei prêmios
importantíssimos e fui reconhecido internacionalmente. Em uma época
onde havia quatro grandes prêmios no cinema, ganhei três deles com
“Pixote”.
Em seguida
me apaixonei pelo livro de Manuel Puig, “O Beijo da Mulher Aranha”.
Decidi filmá-lo, trazendo atores estrangeiros (inclusive William
Hurt, que ganhou o Oscar e a Palma de Ouro em Cannes pela sua atuação).
Depois, em 1987, fui convidado para filmar nos “Ironweed”, nos EUA,
com Jack Nicholson e Meryl Streep, baseado em um livro que eu admiro
muito. Em 1991, veio “Brincando nos Campos do Senhor”, filmado na
Amazônia, com um elenco de atores ótimos como Tom Berenguer, Daryl
Hannah e Kathy Bates. Tive uma doença que me afastou alguns anos
das filmagens. Na minha volta, fiz “Coração Iluminado”, na Argentina
– um filme que resgata minha memória. A idéia do meu último filme
veio depois de ler o livro do homem que havia sido meu médico. Resolvi
adaptar o texto e filmei “Carandiru”, o filme de maior sucesso e
reconhecimento na retomada do cinema brasileiro.
Quando comecei
a fazer cinema percebi que a televisão apresentava a realidade de
forma leve e fantasiada ao espectador, mesmo ao abordar assuntos
sérios. Senti que só valia a pena filmar se fosse para utilizar
esta linguagem com abordagens mais inteligentes e reais. Desde então,
produzo os filmes da maneira como eu gostaria de assistir; contando-o
do meu jeito, como se o único espectador que eu quisesse agradar
fosse eu mesmo.
Minha escolha
em fazer determinado filme nunca foi baseada na busca de respostas
comerciais absolutas. As idéias surgem de qualquer lugar – um recorte
de jornal, uma conversa, um livro... Isso porque não defino previamente
quem eu quero atingir. Se o filme vai encontrar um público ou não,
só o seu lançamento poderá dizê-lo. Esta repercussão é como um “day
after” para mim, que pode vir tanto um mês quanto dois anos depois.
Quando o filme
está pronto passa a ter vida própria, saiu de dentro de mim e eu
não o controlo mais. Esta fonte se esgota e, depois de um tempo
parado, surge outra idéia que eu preciso desenvolver, nascendo assim
o próximo filme.
Um filme também
mostra quem é o homem que o fez. Eu sou uma pessoa muito curiosa
e contemplativa, me alimento através da música, das artes plásticas
e da observação do comportamento humano. Admiro tudo o que revela
a capacidade do homem em inventar coisas belas, novas. Procuro entender
o mundo da melhor forma possível e transpor isso nos meus trabalhos.
Quando concluo um filme, tenho a certeza de que consegui metabolizá-las.
Me expor através deles traz a possibilidade de crescimento pessoal
através das críticas – positivas ou negativas. E saber que consegui
tocar o coração de alguém através deles me deixa muito vaidoso.
Analisando
ontem e hoje, sinto que estou mais maduro, que entendo melhor as
coisas, tenho um crivo crítico maior em relação ao que me interessa.
Não cedo fácil, sou exigente comigo mesmo e desenvolvi um certo
feeling, uma lucidez maior em relação à produção de filmes. Às vezes
preferiria ter o mesmo ímpeto e a mesma ignorância de quando comecei,
mas isso é uma situação ilusória. O passar do tempo nos traz a prática
em fazer algo, que passa a determinar nosso comportamento.
Considero que
no final da década de 70 e começo de 80, a produção nacional atingiu
uma presença fantástica no mercado. Depois vieram anos difíceis
e o cinema brasileiro “morreu” durante dez anos. Por isso hoje falamos
na retomada do cinema nacional, que de certa forma teve início com
“Central do Brasil”, “Carlota Joaquina” e com outros filmes que
vêm sendo feitos nos últimos anos, para todas as gerações e de diversos
gêneros. E é isso o que torna o cinema brasileiro tão rico.
Não existe uma
mentalidade de investimento no cinema nacional e nosso estágio ainda
é muito infantil também em termos de produção. Talvez porque o retorno
não seja previsível. Quando se perde na Bolsa, isso é considerado
normal; no cinema, onde o risco também é grande, os investidores
ficam desapontados. Por isso, nos EUA, as produtoras apostam em
projetos paralelos, pois se um não der certo, os demais cobrem os
prejuízos.
Infelizmente
o governo não tem apostado na criação de uma indústria nacional
de cinema, sempre nos olha como se estivesse ajudando uma instituição
de caridade. Não entende que o cinema gera empregos e é uma forma
de registrar valores culturais e documentar a nossa história. Sua
importância na formação do caráter de uma Nação não é devidamente
valorizada.
Precisamos lutar
cada vez mais para manter a independência em relação a quem nós
somos. Somos brasileiros, somos deste jeito e estamos tentando melhorar,
mas não copiando modelos de outros países. Nossa cultura, que para
mim é o conjunto de tudo aquilo que representamos, é valiosa e precisa
ser assumida. E é fundamental que possamos nos reconhecer na tela,
em filmes que falam da nossa realidade, nossa história, nossa gente
e, inclusive, com os nossos sotaques.
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