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GALLÉ: ARTE
EM FORMA DE VIDRO Ao mergulhar no mundo de Art Nouveau e Art Deco, no início dos anos 1970, em se tratando de vidro, pude apreciar e penetrar no mundo de grandes mestres: na França, Emile Gallé, nos Estados Unidos, Louis Comfort Tiffany, entre outros. Os vidros de Gallé me fascinam pela sua diversidade. Têm vida própria, pois suas cores acompanham a luminosidade no decorrer do dia. Ao longo destes anos tive o privilégio de ter e formar importantes coleções com peças de Emile Gallé das mais variadas, o que me deixa muito gratificada. Até hoje, continuo acompanhando tudo o que encontro sobre este artista, cujo centenário de morte ocorre este ano. Emile Gallé foi figura dominante e talvez o artista que mais se sobressaiu no trabalho do vidro na França, no período Art Nouveau (1880-1910). Filho de artesãos ebanistas, nasceu em 4 de maio de 1846 em Nancy, França, cidade onde estudou. Tinha grande afinidade pela natureza e se formou em botânica e química. Era grande observador da flora e fauna, em particular das plantas e insetos que o rodeavam. Costumava fazer longas caminhadas pelos campos da Lorena, estudando e fazendo vastas pesquisas que serviriam como motivos de decoração na execução de móveis em madeira, faienças e, posteriormente, em vasos e lâmpadas de vidro. Tornou-se inovador, desenvolvendo várias técnicas, sendo assim chamado de “Mágico de Nancy”. Os primeiros trabalhos de Gallé em vidro foram com vidro transparente e aplicações decoradas em esmalte. Foi na Exposição Universal de Paris, em 1889, que Gallé introduziu a técnica de vidro em cameo, técnica que seria usada por outros artistas e pela qual ficou mais conhecido. Muito ligado em poesia, intercalou na decoração dos vidros com motivos florais, trechos de poemas de autores simbolistas, que chamou de verreries parlantes e paysages de verre - onde reproduzia paisagens. Além dessa, usou várias outras técnicas valiosas: marqueterie, aplication em forma de cabochons, verre soufflé-moulé e martelê, entre outras. Na “Exposition Universal de Paris 1900” Gallé expôs um forno em funcionamento, produzindo o vidro no próprio stand e foi muito aclamado. Era o auge de sua carreira e, na ocasião, chegou a ter 300 artesãos trabalhando em seu atelier, todos de altíssimo nível. Em fevereiro de 1901 foi fundada a “Escola de Nancy”, sendo Emile Gallé presidente, Auguste e Antonin Daum, Louis Majorelle e Eugene Vallin vice-presidentes. A Escola continuou a florescer mesmo depois da morte de seu fundador, estendendo a tradição estabelecida por Gallé e promovida pelo amigo e administrador, Victor Prouvé. Gallé executou algumas peças de tiragem limitadíssima, como a lâmpada “Les Coprins”, os vasos com motivo “Rose de France” e “A Mão”, considerada a sua obra prima. Além das paisagens da Lorena, foram feitos vasos com paisagens reconhecíveis como o do Lago de Como, a partir de uma aquarela desenhada por um de seus artistas durante suas férias no norte da Itália. Nesses vasos utilizou um azul intenso chamado “borome bleu”, azul boromeu derivado do azul pavão, que também aparece na decoração do vaso. Existem vasos retratando o Rio de Janeiro. São conhecidas três vistas: o Pão de Açúcar, o Corcovado e a Pedra da Gávea. Gallé nunca esteve no Rio, mas os vasos foram feitos a partir de cartões postais, para abastecer o ávido mercado sul-americano. Hoje estes vasos são muito disputados pelos colecionadores e atingem preços altos. Nos século XVII e XVIII alguns gravadores colocavam suas iniciais nos trabalhos mais importantes e algumas firmas de vidro punham suas marcas nas peças. Gallé foi o primeiro a pôr seu nome em cada peça feita por ele ou no seu atelier. Aparentemente ele tinha satisfação de ter seu nome, em uma grande variedade de assinaturas. Gallé popularizou esta técnica, o que levou outros artistas contemporâneos a proceder igualmente. Devido à leucemia, Gallé faleceu em 23 de setembro de 1904, em Nancy, deixando muitos desenhos de peças a serem executadas. A viúva tomou conta da produção e, de 1904 a 1906, foi acrescentada nos vasos uma estrela precedendo a assinatura, em tributo ao artista. A firma foi fechada em 1914, no início da II Guerra Mundial, reabrindo em 1919, após o Armistício. Na “Exposition Universal de Paris” de 1925 não houve receptividade nas peças expostas. A França, atingida pela crise mundial de 1929, provocou o declínio na procura, causando o fechamento definitivo, em 1931. No início de 1960 aconteceu o redescobrimento do Art Nouveau e Art Deco, resgatando paralelamente as obras de Emile Gallé, cujo sucesso permanece até os dias de hoje. |