Artistas-curadores da 33ª Bienal de SP anunciam propostas expositivas

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As sete mostras coletivas concebidas por eles irão compor o evento ao lado dos doze projetos individuais selecionados pelo curador geral Gabriel Pérez-Barreiro, divulgados previamente, em um modelo que dá voz aos artistas e valoriza suas interpretações sobre seus contextos de produção

Apontado pela Fundação Bienal de São Paulo para assumir a curadoria da 33ª Bienal de São Paulo – Afinidades afetivas por sua proposta de organizar o evento a partir de um “sistema operacional” alternativo, Gabriel Pérez-Barreiro concebe uma Bienal que privilegia o olhar dos artistas sobre seus próprios contextos criativos e evita a realização de uma grande exposição temática em favor de experiências curatoriais múltiplas. Estas incluem, além dos doze projetos individuais já divulgados, mostras coletivas organizadas por sete artistas-curadores: Alejandro Cesarco (Uruguai/EUA, 1975), Antonio Ballester Moreno (Espanha, 1977), Claudia Fontes (Argentina, 1964), Mamma Andersson (Suécia, 1962), Sofia Borges (Brasil, 1984), Waltercio Caldas (Brasil, 1946) e Wura-Natasha Ogunji (EUA/Nigéria, 1970).

Assim como os projetos individuais não configuram juntos uma exposição coletiva no sentido tradicional e não são ligados por qualquer estrutura narrativa ou temática, as propostas dos artistas-curadores são completamente independentes umas das outras. “Os sete artistas-curadores têm trabalhado com total autonomia na concepção de suas mostras, tanto em relação uns aos outros quanto à curadoria geral. As únicas limitações impostas a eles foram de ordem prática, relativas a orçamento e ao uso do Pavilhão da Bienal”, explica Pérez-Barreiro.

Guiados exclusivamente pelo conceito de afinidades afetivas e pelo fato de que obras de sua autoria também devem integrar sua curadoria, cada um dos artistas-curadores respondeu a seu modo ao convite de Pérez-Barreiro, adotando diferentes metodologias e estratégias curatoriais. “Enquanto alguns adotaram estratégias mais museológicas e históricas, realizando curadorias de obras, outros propuseram exposições com trabalhos exclusivamente comissionados, estabelecendo uma espécie de curadoria coletiva em um processo horizontal de desenvolvimento de pesquisa artística. Pode-se entender como sete diferentes exemplos de metodologia curatorial”, acrescenta.

Os projetos

A partir de seu interesse em questões como repetição, narrativa e tradução, Alejandro Cesarco realiza uma curadoria de obras de artistas que compartilham de suas inquietações conceituais e estéticas. Intitulada Aos nossos pais, “a mostra propõe questionamentos acerca de como o passado (a história) ao mesmo tempo possibilita e frustra potencialidades e de como ele pode ser reescrito pelo trabalho do artista, gerador de diferenças a partir de repetições”, explica. Além de Cesarco, participam da mostra artistas de três diferentes gerações, entre os quais Sturtevant (EUA, 1924 – França, 2014), Louise Lawler (EUA, 1947) e Cameron Rowland (EUA, 1988). “Dedicar esta exposição a uma relação primária (biológica ou adotiva, literal ou metafórica) é construir uma genealogia e uma tentativa de aproximação da fonte central de nossas interpretações, métodos, inibições, possibilidades e expectativas”.

Antonio Ballester Moreno aborda sua curadoria na 33ª Bienal como forma de contextualizar um universo baseado na relação íntima entre biologia e cultura, com referências à história da abstração e sua interação com natureza, pedagogia e espiritualidade. Para tanto, ele relaciona a produção de filósofos, cientistas e artistas: “somos todos criadores de nosso próprio mundo, mas entendo que tamanha variedade de linguagens nos separou da noção do que nos é comum, então esta proposta salienta o estudo de nossas origens, sejam elas relacionadas a aspectos naturais, sociais ou subjetivos — os três eixos que organizam a exposição”, afirma Ballester Moreno.

Intitulada sentido/comum, a mostra abarca desde brinquedos educativos das vanguardas históricas e obras da Escuela de Vallecas (um movimento espanhol de vanguarda da década de 1930 próximo ao surrealismo) à presença de artistas contemporâneos. Dentre os participantes, encontram-se o filósofo e pedagogo Friedrich Fröbel (Alemanha, 1782-1852); Andrea Büttner (Alemanha, 1972); Mark Dion (EUA, 1961), que participa da Bienal com um projeto comissionado; e Rafael Sánchez-Mateos Paniagua (Espanha, 1979), integrante do coletivo Atenta que pesquisa práticas de atenção no campo da arte. Além de sua participação na exposição de Ballester Moreno, Paniagua contribuiu também com a publicação educativa da 33ª Bienal, Convite à atenção, com um texto inédito de sua autoria.

Para sua exposição intitulada O pássaro lento, Claudia Fontes parte de uma metanarrativa: um livro fictício homônimo cujo conteúdo é desconhecido, salvo por alguns fragmentos e por seus vestígios materiais. Fontes e os artistas convidados apresentam trabalhos que ativam as aproximações entre artes visuais, literatura e tradução através de experiências que propõem uma temporalidade expandida, alternativa ao fetiche moderno da velocidade. “A experiência de velocidade e lentidão são experiências políticas enraizadas no corpo. Ambas influenciam nossos entendimentos de espaço, distância e possibilidade. Há mais de um século, nossa espécie vem sendo treinada desde a infância para desprezar a vagarosidade e desejar rapidez. Como resultado, todos nós agora temos dificuldade de imaginar outros meios de estar consigo mesmo e com os outros”, afirma Fontes.

Em um processo curatorial horizontal e colaborativo, todos os participantes, à exceção de Roderick Hietbrink (Holanda, 1975), desenvolvem obras comissionadas para a ocasião: Ben Rivers (UK, 1972), Daniel Bozhkov (Bulgária, 1959), Elba Bairon (Bolívia, 1947), Katrín Sigurdardóttir (Islândia/EUA, 1967), Pablo Martín Ruiz (EUA, 1964), Paola Sferco (Argentina, 1974), Sebastián Castagna (Argentina, 1965) e Žilvinas Landzbergas (Lituânia, 1979).

Para sua exposição, Stargazer II [Mira-estrela II], Mamma Andersson reúne um grupo de artistas que têm inspirado e nutrido sua produção como pintora. A seleção inclui uma ampla gama de referências, como ícones russos do século 15, os “outsiders” Henry Darger (EUA, 1892-1973) e Dick Bengtsson (Suécia, 1936­-1989); e artistas contemporâneos como a cineasta Gunvor Nelson (Suécia, 1931) e o piloto de caça e artista sonoro Åke Hodell (Suécia, 1919-2000), entre outros. Em comum, todos os participantes compartilham o interesse pela figuração expressiva e pelo corpo humano. “Estou interessada em artistas que trabalham com a melancolia e a introspecção como um modo de vida e uma forma de sobrevivência”, afirma Andersson. A exposição inclui também uma quantidade significativa de pinturas de Andersson, estabelecendo um diálogo vibrante entre sua obra e suas inspirações artísticas.

A curadoria de Sofia BorgesA infinita história das coisas ou o fim da tragédia do um, parte de interpretações filosóficas sobre a tragédia grega para mergulhar em uma colagem de referências mitológicas. Sua proposta configura-se como um espaço ativo de investigação acerca dos limites da representação e da impossibilidade da linguagem enquanto instrumento de mediação do real. “Eu passei anos procurando, através da imagem, desvendar o estado de representação das coisas com o meu trabalho, até que entendi se tratar de uma questão sem solução, visto que ela é na verdade o problema do significado. A linguagem é em si trágica, porque ambígua, e não se pode usar uma matéria para falar de outra”, explica.

Sobre esta base conceitual, o projeto expositivo se constrói a partir de um modelo curatorial misto em que a seleção de peças específicas é acompanhada por convites a certos artistas para que desenvolvam trabalhos comissionados. Uma das particularidades da proposta — que inclui obras de Jennifer Tee (Holanda, 1973), Leda Catunda (Brasil, 1961), Sarah Lucas (UK, 1962) e Tal Isaac Hadad (França, 1976), entre outros — é encarar a exposição como algo que se dá não apenas no espaço, mas também no tempo. Desta forma, a mostra será ativada, ao longo dos três meses de duração da Bienal por um programa de experimentações propostas pela artista-curadora a partir da interação entre as obras, os artistas e outros convidados.

Waltercio Caldas,  que sempre considerou a história da arte como material de trabalho, projeta um espaço em que obras de diversos artistas são confrontadas com trabalhos de sua autoria. “Visto que a produção de um artista trata de inúmeras questões que  variam ao longo do tempo, escolhi obras que desviam do que mais se conhece de cada um deles e se destacam por seu valor e especificidade. O resultado da relação entre as peças escolhidas passou a ser o principal interesse desta seleção”, explica.

Com sua mostra, Caldas propõe uma reflexão sobre a poética, a natureza das formas e das  ideias e suas implicações na atividade artística desde o final do século 19. “Procurei, através da  tensão entre obras muito diversas, as surpresas esclarecedoras que resultam destes confrontos”, comenta. A partir de uma visão desafiadora do artista sobre sua própria obra e dos enfrentamentos muitas vezes inusitados — como entre trabalhos de Victor Hugo (FRA, 1802-1885), Jorge Oteiza (ESP, 1908-2003) e Vicente do Rego Monteiro (BRA, 1899-1970) — abrem-se  novas possibilidades de leitura para a arte.

Para seu projeto expositivo intitulado sempre, nunca, composto exclusivamente por obras comissionadas, Wura-Natasha Ogunji convidou as artistas Lhola Amira (África do Sul, 1984), Mame-Diarra Niang (França, 1982), Nicole Vlado (EUA, 1980), ruby onyinyechi amanze (Nigéria, 1982) e Youmna Chlala (Líbano, 1974) para criar, assim como ela, novos trabalhos em um processo curatorial colaborativo e horizontal. A produção dessas seis artistas “concilia aspectos íntimos (como corpo, memória e gesto) a épicos (arquitetura, história, nação)”, explica Ogunji. “Em diálogo aberto e contínuo, nossos projetos individuais abarcam práticas e linguagens distintas, que convergem em ideias e questões cruciais para a experimentação, a liberdade e o processo criativo”.

O trabalho de cada uma dessas artistas é afetado por suas histórias individuais e pelas complexas relações que mantêm com suas terras, nações e territórios. “Não são suas origens ou nacionalidades que são reveladoras, mas sim o fato de que suas obras quebram as narrativas hegemônicas e abraçam interrupções como aberturas necessárias”, complementa a artista-curadora.

Expografia

A autonomia dos projetos se estende ao desenho expográfico, que varia entre as diferentes exposições. Elas compartilham, no entanto, um interesse por criar experiências que dêem forma às expectativas de visitação do Pavilhão da Bienal. A expografia da 33ª Bienal, concebida pelo arquiteto Alvaro Razuk, prevê a criação de áreas livres para descanso e reflexão entre as diferentes proposições expositivas, em consonância com a proposta de Pérez-Barreiro de criação de espaços favoráveis a desacelerar, observar e compartilhar experiências.

Publicações

O projeto editorial da 33ª Bienal serve como uma plataforma que expande a atuação dos artistas da mostra, uma vez que permite aos mesmos explorarem o formato de livro de artista como complementar à exposição. O catálogo da 33ª Bienal reúne um conjunto de dezenove publicações, no formato de brochuras e pôsteres, desenvolvidas em colaboração com a equipe da Fundação Bienal e a consultora editorial Fabiana Werneck.

Com previsão de lançamento e circulação nas primeiras semanas de setembro, uma publicação complementar apresenta registros fotográficos da exposição, um ensaio visual do fotógrafo Mauro Restiffe, textos e entrevistas. Na peça, os artistas-curadores comentam o desenvolvimento de suas seleções para a edição e como seus próprios trabalhos responderam à proposta.

Residências artísticas

Por meio da parceria com o Programa Residência Artística FAAP, estabelecida a partir da 27ª Bienal (2006) e renovada a cada edição, cinco artistas da 33ª Bienal estarão em residência em São Paulo para desenvolver seus projetos na mostra: Lhola Amira  (África do Sul, 1984), Luiza Crosman (Brasil, 1987), Mame-Diarra Niang (França, 1982), Tal Isaac Hadad (França, 1976) e Tamar Guimarães (Brasil, 1967).

Texto originalmente publicado no site da Bienal

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