Museu Afro Brasil

Um conceito em perspectiva

Por Emanoel Araújo*

Fotos: Nelson Kon

 

O Museu Afro Brasil é resultado de mais de duas décadas de pesquisas e exposições, exibindo como negro quem negro foi e quem negro é no Brasil, de séculos passados aos dias atuais. Esta é, assim, mais uma etapa em um processo em curso.

Criar um museu que possa registrar, preservar e argumentar a partir do olhar e da experiência do negro a formação da identidade brasileira é o desafio de uma equipe de consultores, especialistas em museologia, história, antropologia, artes e educação, diante de uma coleção de aproximadamente 4 mil obras – entre pinturas, esculturas e gravuras, de artistas brasileiros e estrangeiros, além de fotografias, livros, vídeos e documentos – para delinear um fio condutor desse ambicioso projeto.

Certamente não se poderia contar essa história por uma visão oficial já escamoteadora, que insiste em minimizar a herança africana como matriz formadora de uma identidade nacional, ignorando uma saga de mais de cinco séculos de história e de dez milhões de africanos triturados na construção deste país. Da perspectiva do negro, este não é um processo exclusivo do Brasil, pois sua presença, aqui como nas Américas, é indissociável da experiência de desenraizamento de milhões de seres humanos graças à escravidão. Assumindo essa perspectiva, o Museu Afro Brasil, sendo um museu brasileiro, não pode deixar de ser também um museu da diáspora africana no Novo Mundo.

É a escravidão que, na diáspora, força o contato e o intercâmbio entre membros de diferentes nações africanas e produz as mais diversas formas de assimilação entre suas culturas e as de seus senhores, bem como de resistência à dominação que estas lhes impõem. Como um museu da diáspora, o Museu Afro Brasil registra, portanto, não só o que de africano ainda existe entre nós, mas o que foi aqui apreendido, caldeado e transformado pelas mãos e pela alma do negro, salvaguardando ainda o legado de nossos artistas – e foram muitos, anônimos e reconhecidos – que nesse processo de miscigenação étnica e mestiçagem cultural contribuíram para a originalidade de nossa brasilidade.

Entretanto, não se pode esquecer que a cultura mestiça que se forma na diáspora envolve relações entre desiguais, em se tratando de senhores e escravos. Da perspectiva do negro, esta é uma história de muito e doloroso trabalho, de incertezas, incompreensões e inconsciência que ainda hoje persistem na mentalidade de parte da elite brasileira. Não é só uma história de preconceitos, racismo e discriminação, mas, sobretudo, uma história de exclusão social das mais danosas e permissivas, nesse abismo das desigualdades criadas e cristalizadas no Brasil como herança da escravidão.

O Museu Afro Brasil tem, pois, como missão precípua, a desconstrução de estereótipos, de imagens deturpadas e expressões ambíguas sobre personagens e fatos históricos relativos ao negro, fazendo pairar sobre eles obscuras lendas que um imaginário perverso ainda hoje inspira, e que agem silenciosamente sobre nossas cabeças como uma guilhotina prestes a entrar em ação a cada vez que se vislumbra alguma conquista que represente mudança ou o reconhecimento da verdadeira contribuição do negro à cultura brasileira.

Este museu pretende unir História, Memória, Cultura e Contemporaneidade, entrelaçando essas vertentes num só discurso, para narrar uma heróica saga africana, desde antes da trágica epopéia da escravidão até os nossos dias, incluindo todas as contribuições possíveis, os legados, participações, revoltas, gritos e sussurros que deram lugar no Brasil e no circuito da diáspora negra. Um museu que reflita uma herança na qual, como num espelho, o negro possa se reconhecer, reforçando a auto-estima de uma população excluída e com a identidade estilhaçada, e que busca na reconstrução da auto-imagem a força para vencer os obstáculos à sua inclusão numa sociedade cujos fundamentos seus ancestrais nos legaram.

O Museu Afro Brasil é, portanto, um museu histórico que fala das origens, mas atento a identificar na ancestralidade a dinâmica de uma cultura que se renova mesmo na exclusão. Um centro de referência da memória negra, que reverencia a tradição que os mais velhos souberam guardar, mas faz reconhecer os heróis anônimos de grandes e pequenos combates, e os negros ilustres na esfera das ciências, letras e artes, no campo erudito ou popular. Um museu etnográfico que procura expor com rigor e poesia ritos e costumes que traduzem outras visões de mundo e da história, festas que evidenciam o encontro e a fusão de culturas luso-afro-ameríndias para formar a cultura mestiça do Novo Mundo, mas que também registra as inovações da cultura negra contemporânea na diáspora. Um museu de arte, passada e presente, que reconhece o valor da recriação popular da tradição, mas reafirma o talento negro erudito, nas artes plásticas e nas artes cênicas, na música como na dança.

Sobretudo, o Museu Afro Brasil é um museu contemporâneo, em que o negro de hoje pode se reconhecer. Um museu que quer integrar os anseios do negro jovem e pobre ao seu programa museológico, contribuindo para a sua formação educacional e artística, mas também para a formação intelectual e moral de negros e brancos, cidadãos brasileiros, em benefício das gerações que virão. Um museu capaz de colaborar na construção de um país mais justo e democrático, igualitário do ponto de vista social, aberto à pluralidade e ao reconhecimento da diversidade no plano cultural, mas também capaz de reatar os laços com a diáspora negra, promovendo trocas entre a tradição, a herança local e a inovação global.

Um museu que está na maior cidade brasileira e uma das maiores do mundo, e que, por ser ela própria multicultural e multirracial, é o palco ideal para concretizar essa utopia, assumindo uma tarefa pioneira na criação de uma instituição que pode servir como instrumento para se repensar novos conceitos de inclusão social, e espelho para refletir uma sociedade enfim disposta a incorporar o outro nas suas diferenças. Afinal, foi nesta cidade de São Paulo que a herança de sangue, suor e lágrimas, de africanos que souberam conservar o patrimônio de sua cultura e sua memória, ergueu os quilombos do Jabaquara e da Saracura, e gerou personalidades como André Rebouças e Luís Gama, cidadãos negros, heróis brasileiros na luta contra a escravidão.

* O multifacetado EMANOEL ARAUJO tem uma vida inteira dedicada à arte. Curador, pesquisador, artista e colecionador, reergueu a Pinacoteca do Estado e hoje é diretor do Museu Afro-Brasil, mais um de seus gradiosos projetos

 

Museu Afro Brasil
de terça a domingo, das 10 às 18 horas
Pavilhão Padre Manoel da Nóbrega Parque do Ibirapuera, portão 10
tel.: [11] 5579-8542 | www.museuafrobrasil.com.br

 

Museu Afro-Brasil
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