

Antony Gormley nasceu em Londres em 1950. Contando com uma sólida formação intelectual, é diplomado em antropologia, arqueologia e história da arte e estudou em duas das principais escolas de arte inglesas: Goldsmiths College e Slade School of Art.
A obra de Antony Gormley foi exibida em museus como a Tate, Hayward Gallery, Whitechapel e o British Museum em Londres, The Corcoran Gallery of Art de Washington, Centro Galego de Arte Contemporânea em Santiago de Compostela, Espanha, e Fundação Calouste Gulbenkian em Lisboa, Portugal, tendo participado também de importantes mostras como a Documenta de Kassel VIII e as Bienais de Veneza de 1982 e 1986.
Desde os anos 80, acompanho o trabalho do artista Antony Gormley com particular interesse.
Vejo sua obra, principalmente, como uma tentativa de revitalizar e explorar as diversas possibilidades de representação da figura humana através da escultura, utilizando-se de uma radical investigação do corpo como um lugar da memória e de transformação. Em muitas de suas obras, Gormley se utiliza de seu próprio corpo como modelo, ferramenta e material.
Nesse sentido as esculturas de Gormley são tão distintas entre si e ao mesmo tempo tão próximas, ou seja, uma única forma de um mesmo corpo, seu próprio corpo.
Desde 1980 ele tem expandido suas preocupações com a condição humana de explorar o corpo coletivo e a relação entre o ego e o outro em grandes instalações. Por outro lado, suas obras mais recentes estão cada vez mais relacionadas com sistemas de energia, campos e vetores, mais do que propriamente com a massa e o volume definido.
Gormley tornou-se muito conhecido por suas esculturas de chumbo reproduzindo homens em tamanho natural, frequentemente moldes de seu próprio corpo.
Todo o processo começa com um molde tirado de seu próprio corpo nu. A pessoa que normalmente reveste seu corpo de gesso e depois retira o molde e o lava, é a sua própria esposa, Vicken Parsons, uma pintora.
Ela primeiro o mumifica, e quando as faixas são removidas, a impressão é de que ele simplesmente estivesse renascendo. Depois de um breve respiro, ele é repentinamente banhado por ar. Muitas das esculturas de Gormley conseguem registrar perfeitamente esse momento, como tivessem sido capturadas entre um estado de asfixia e liberação.
Gormley chega a levar até seis meses construindo algumas partes dos seus moldes ou simplesmente refazendo completamente outras. A próxima etapa é a fibra de vidro e a etapa final compreende o trabalho com as chapas de chumbo, moldando as formas em torno do molde de fibra de vidro e, finalmente, soldando as diversas partes, de forma que as figuras pareçam ter cicatrizes A delicadeza e a violência, a intimidade e a distância, a confiança e a ponderação, todas se mesclam nas esculturas dependendo do processo através do qual elas são feitas.
“Campo” é a primeira obra que Gormley concebeu, na qual seu próprio corpo não exercia um papel predominante. A instalação era composta por uma multidão de milhares de pequenas figuras em terracota, cada uma delas uma sólida peça com apenas dois orifícios que representavam seus olhos.
Esta instalação inverteu a condição normal de ver obras de arte no sentido de que não somos nós que olhamos, mas sim, milhares de figuras que olham para nós. A posição cuidadosamente estudada, expõe nossa incapacidade de captar o trabalho como um todo, tornando impossível abarcar a totalidade das figuras com nosso olhar, ou mesmo permitir que circulemos em torno delas. Gormley concebeu esses campos de argila como “objetos transitórios”, estabelecendo um espaço no qual o momento e o processo de criação sejam compartidos.
Em uma entrevista concedida em 1994, Gormley enfatiza a importância da relação da obra com o espaço em torno dela, fazendo com que ela desloque ou desordene o espaço que a contém, criando assim, tensão entre eles.
Essa afirmação demonstra claramente a intenção do artista de não só criar esculturas, mas sim fazer com que elas interajam e interfiram no espaço no qual estarão presentes.
Seus trabalhos enfatizam a relação do corpo com o vazio, a idéia do espaço no qual o corpo em algum momento esteve presente.
Diz ainda, “eu estou interessado no corpo, porque este é o lugar onde as emoções são mais diretamente registradas. Quando você sente medo, fica excitado, feliz ou deprimido, de alguma forma o corpo registra isso. A escultura é um ato de fé na sua continuidade”.
Gostaria de destacar aqui a série denominada “Expansion”, que ocupa um lugar especial na obra do artista. Mais do que simplesmente adicionar novas camadas de gesso ao molde inicial do corpo, pedaços de madeira são presos a pontos nodais da superfície do molde e a estrutura resultante desse processo é então coberta de forma a produzir uma superfície contínua. Originando-se no corpo, esse procedimento formal cria formas orgânicas como se fossem casulos que parecem muito distantes da imagem original do corpo, ainda que evoquem de uma forma potente a experiência de seu peso e massa.
Outra série recente, que entendo deva ser objeto de nossa atenção, é “Feeling Material”, que consiste de um frenético redemoinho de linhas, na realidade, composta de um único fio de metal, que dá forma a uma figura humana sem nunca limitar suas margens aos clássicos contornos com os quais estamos acostumados na escultura tradicional.
Na verdade, o corpo humano só se torna visível se observado de certos ângulos, enquanto que de outros mais parece um furacão ou uma construção abstrata. Mas de qualquer ângulo que observarmos, a escultura sugere, mais que qualquer outra coisa, simplesmente um desenho no espaço.
*Oscar Cruz, galerista
www.galeriaoscarcruz.com
Publicado em Junho/2010
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