Daniel Senise
Casa, 2005, acrílica sobre tela sobre madeira


Daniel Senise

Além da ousadia

Entrevista com Justo Werlang

 

A pintura do carioca Daniel Senise é uma das principais reverberações da histórica mostra "Como vai você, Geração 80?", realizada na Escola de Artes Visuais do Parque Lage, Rio de Janeiro, em 1984. Dos 120 selecionados — muitos expondo pela primeira vez, o que não era o caso do pintor, que no ano seguinte já participaria de sua primeira Bienal de São Paulo — poucos são aqueles que permaneceram no cenário contemporâneo com a mesma força de atuação.

Senise, desde lá, inaugurou novos territórios para a pintura, em um momento — como escreve o curador e crítico Ivo Mesquita na apresentação de Ela que não está (Cosac Nayfy, 1998) — em que uma das grandes questões da arte era “como trazer frescor ao olhar saturado deste fim de século?”. Tendo participado de três Bienais de São Paulo e uma de Veneza, tem tido nos últimos anos o trabalho contemplado por individuais em instituições internacionais e nacionais.

Da pintura como resposta a arte conceitual à invenção de uma pesquisa do universo particular calcada na história da arte, Senise traz uma gama de leituras e possibilidade que garante sua presença em set lists de curadorias distintas e igualmente importantes.

Para conhecer um pouco mais da trajetória e dos trabalhos de Senise, entevistamos um de seus colecionadores, Justo Werlang:

 

Como se deram os primeiros contatos com as obras do artista?
A coleção que estamos formando determina o acompanhamento e aquisição sistemático da produção de cada um dos artistas que a compõem, com vistas a formação de um conjunto de obras que possibilite a compreensão de seus respectivos percursos. Desde o final da década de 80 as obras de Daniel Senise nos causaram forte impressão. Foi por intermédio de Charles Cosac, em 1996, que travamos contato com o conjunto de sua produção, momento em que Senise passou a integrar a coleção.

Montanha e Abismo foram os dois primeiros trabalhos de sua autoria que entraram na coleção. São obras que trazem uma reflexão sobre a história da arte, sobre o fazer artístico, e possibilita leituras poéticas muito intensas.

 

Quais foram - e continuam sendo- suas reações e sensações mais evidenciadas diante das obras do artista?
Se, por um lado, as obras recentes de Senise estão carregadas por uma forte construção racional, que as aproximam dessa tradição brasileira, por outro cada uma delas sugere reflexões sobre nosso cotidiano. O confronto que temos com seus trabalhos é sempre emocionante e gratificante.

 

Acompanhando a trajetória do artista, como você define o conjunto de sua obra, sua localização no contexto de sua geração e importância no panorama atual ?
A obra de Daniel Senise é toda coesa, desdobramento de sua contínua pesquisa e reflexão. Nela não há lugar para falseios ou divertimentos. É reflexo da integridade da alma desse artista. Podemos perceber que o legado artístico que o artista está criando vem se tornando um dos mais ricos do panorama nacional. O constante aprofundamento das questões com que trabalha, plasmado nas soluções que tem encontrado de forma consistente no tempo, sinaliza que será crescente a importância de sua obra.

 

O que o universo do artista representa para você e de que maneira se aproxima do seu cotidiano?
O lugar da arte, como em Cavalariça I, é um dos temas que Senise trabalhou nos últimos anos. Esta já é uma questão que me interessa no dia a dia. Se a arte é a melhor expressão de nossa essência, que lugar lhe concedo no cotidiano?

Daniel opera em um universo bastante complexo. Ela que não está , por exemplo, pintura de 1994, é outro trabalho repleto de questões sobre arte e sua história, questões que não são imediatamente percebidas.

Trabalhos recentes como por exemplo, O poço, Casa 1, Janela, transbordam encantamento e mistério. Essa visualidade funciona qual uma armadilha, que captura a atenção. Daí, as poéticas neles contida lentamente se revelam ao expectador atento. Esses jogos, entre a visualidade e o conteúdo, apresentam grande potencial de enriquecimento de nossas vidas.

 

O que permeou as escolhas das obras da coleção?
Observamos dois critérios: a felicidade da solução encontrada pelo artista, e o significado da peça em relação ao conjunto de suas peças já presentes na coleção.

 

Qual das obras do artista mais te atrai e por quê?
É difícil eleger a melhor peça de Daniel Senise, especialmente neste momento do percurso de seu trabalho. Cada vez mais refinada e sintética, sua obra tem atingido qualidade ímpar. Tivesse que escolher alguma, talvez fosse Little Wanderer, uma pequena paisagem construída em óxido de ferro e prata, sobre a qual está aposta um pequeno par de botas.

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