

Felipe Diniz fala sobre a produção artística de Ana Maria Tavares
Touch of Class - Como foi pincelar, dentro da produção da artista, uma peça para colocar na sua casa que conseguisse sintetizar o conceito tão contemporâneo do trabalho da artista?
Felipe Diniz - O que me pegou neste trabalho (“Cityscape”) foi, acima de tudo, a beleza associada à leveza. Eu vejo essa obra como uma reflexão do espaço onde ela está colocada, ou seja, ela reflete o espírito do ambiente onde está disposta - tanto pela superfície refletora, própria do material, como pelo que está escrito na obra.
TC - Os trabalhos da artista exercem um fascínio muito grande no espectador, pois são extremamente bem realizados. Por outro lado, o conceito por trás do trabalho é algo que desafia a nossa reflexão. Qual destes aspectos você acha que atraíram mais a sua atenção para a obra da artista?
FD - Com certeza, o desafio a nossa reflexão.
TC - Recentemente, a artista desenvolveu a série “Noturnos” (uma obra que nasceu a partir de “Cityscape”, 2001). O prazer de colecionar arte contemporânea estaria relacionado à possibilidade de acompanhar a pesquisa do artista ou para você essa questão nem é pensada ao comprar uma obra? Como isso se deu com relação à obra de Ana Maria Tavares, você acompanhava o trabalho da artista já há algum tempo?
FD - Eu não tinha conhecimento do trabalho da Ana até a Bienal 50 anos, que ocorreu em 2001. Quando vi essa obra (“Cityscape”) na mostra, fiquei encantado. Além de achá-la belíssima, achei a maneira como estava exposta incrível. Quando surgiu a oportunidade de comprá-la, não hesitei.
TC - Saberia dizer em poucas palavras o que representa o trabalho da artista dentro da sua coleção?
FD - Para mim, representa uma obra que reflete o espírito da minha casa. É uma obra que une o mundo atual, e os valores da sociedade, junto aos valores individuais de cada um. Acho que reflete bem a entrada do século XXI, além de ser uma obra belíssima - esteticamente falando.
| ANA MARIA TAVARES, UMA OBRA EM TRÂNSITO Por Adriana Matarazzo A trajetória da artista Ana Maria Tavares é marcada pelas impactantes instalações que idealiza. O potencial que as obras da artista possui tem sido amplamente reconhecido ao redor do mundo. Na Holanda a artista recebeu o convite da prefeitura de Middelburg para conceber uma obra pública permanente para cidade. A proposta aconteceu em função da individual, Middelburg Airport Lounge with Parede Niemeyer, que a artista realizou, em 2001. Foi nesse ano também que Ana Maria Tavares apresentou, na mostra Rede de Tensão: Bienal 50 Anos, a instalação Cityscape, obra que trouxe alguns elementos plásticos novos ao trabalho da artista, entre eles um especial: o uso da palavra. Cityscape é uma instalação de 120m2 composta por uma parede modulada nos seus 22 metros em aço inox colorido e com inscrições como “Lexotan”, “Sexo”, “Visiones Sedantes”, entre outras. Essa imensa parede refletia a paisagem da cidade de São Paulo mesclada ao verde do Parque do Ibirapuera. Uma trilha sonora e bancos como os de aeroporto foram dispostos para possibilitar uma reflexão a respeito dos artifícios criados pelo indivíduo para escapar das pressões da vida contemporânea. Ao mesmo tempo, lugares como esse de Cityscape são criados pela artista, a fim de provocar uma suspensão do tempo e do espaço e propiciar a contemplação das várias paisagens criadas. Em 2003, Tavares foi uma das artistas escolhidas para integrar o livro “Cream 3” (2003), uma seleta publicação da editora Phaidon Press (443 págs), na qual dez curadores selecionam cem artistas high-lights do momento. A artista foi chamada pela curadora japonesa Yuko Hasegawa. No ano passado, São Paulo recebeu mais uma complexa exposição individual da artista: “Enigmas de Uma Noite com Midnight Daydreams” (da série “Dream Stations”), 350m2, apresentada no Instituto Tomie Ohtake: (...) “em meu trabalho recente venho tratando poeticamente as idéias relativas ao homem e seu trânsito solitário pela vida e a base desse trabalho artístico está, principalmente, na tentativa de refletir a respeito da busca incessante da humanidade pelo controle e domínio de sua própria cultura material e tecnológica”. A capacidade da artista de trabalhar harmoniosamente com a arquitetura dos espaços expositivos faz com que seus site-specifics pareçam construídos simultaneamente ao local onde são expostos: a obra constrói o espaço. É o caso da obra Numinosum que idealizou para mostra inaugural do 21st Century Museum of Contemporary Art, na cidade de Kanazawa, no Japão, em outubro de 2004. Para essa exposição a artista foi convidada a conceber uma obra para uma das maiores salas do museu, com 144 m2 e 12 metros de pé direito. A obra em questão ilustra bem o crescente reconhecimento da artista no cenário internacional. |
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