O Art Basel e UBS Global Art Market Report indica que o mercado de arte global voltou a crescer em 2025, ainda sob impacto de instabilidade econômica e mudanças estruturais
O mais recente Art Basel e UBS Global Art Market Report aponta uma retomada moderada do mercado de arte global em 2025, após dois anos consecutivos de retração. O volume total de vendas atingiu US$ 59,6 bilhões, representando um crescimento de 4% em relação ao ano anterior. Apesar da recuperação, o setor ainda opera abaixo do pico registrado em 2022, quando movimentou US$ 67,8 bilhões.
O avanço, no entanto, não foi homogêneo. O relatório evidencia um mercado fragmentado, impactado por volatilidade econômica, tensões geopolíticas e aumento dos custos operacionais. Mais do que um ciclo de expansão consistente, o cenário atual revela uma reconfiguração estrutural do setor.

O topo sustenta o crescimento
A recuperação do mercado foi fortemente impulsionada pelo segmento de alto valor. As vendas em leilão cresceram 9%, alcançando US$ 20,7 bilhões, com destaque para obras acima de US$ 10 milhões, que registraram aumento de 30% em valor.
Embora representem menos de 1% dos lotes vendidos, obras acima de US$ 1 milhão concentraram 54% do valor total do mercado de leilões. Em contraste, peças abaixo de US$ 50 mil — responsáveis por cerca de 95% das transações — apresentaram queda de 2% tanto em volume quanto em valor.
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Esse descolamento reforça uma tendência já consolidada: o crescimento do mercado está cada vez mais concentrado em um número reduzido de obras de alto ticket, frequentemente vinculadas a coleções históricas e artistas estabelecidos. Categorias como Impressionismo e Pós-Impressionismo cresceram 47%, enquanto segmentos ligados à arte contemporânea mais jovem seguem em retração.

O meio do mercado continua pressionado
Se o topo performa, o middle market segue fragilizado. Obras na faixa entre US$ 50 mil e US$ 250 mil acumulam queda de 29% desde 2010, evidenciando uma compressão estrutural desse segmento.
Entre galerias, as vendas cresceram apenas 2%, chegando a US$ 34,8 bilhões. O dado revela um cenário de recuperação tímida, com forte variação entre players. Pequenos dealers registraram alguns dos melhores desempenhos relativos, enquanto galerias de médio porte seguem enfrentando maior dificuldade de tração.
Ao mesmo tempo, o aumento dos custos operacionais pressiona margens. Despesas com transporte, feiras, logística e viagens cresceram cerca de 5% em 2025, superando o ritmo de crescimento das vendas. Como resultado, 38% dos galeristas reportaram queda na lucratividade.

Geografia, novos compradores e dinâmica de acesso
O relatório também confirma a concentração geográfica do mercado. Estados Unidos, Reino Unido e China responderam por 76% das vendas globais, com os EUA mantendo a liderança isolada, somando US$ 26 bilhões.
Por outro lado, canais digitais continuam relevantes na entrada de novos colecionadores. Cerca de 40% das vendas online foram realizadas por compradores inéditos, reforçando o papel do ambiente digital como porta de entrada — ainda que o volume total de vendas online tenha recuado para US$ 9,2 bilhões, o menor nível desde 2019.
As feiras seguem centrais na dinâmica comercial, representando 35% do faturamento dos dealers. O dado sinaliza uma revalorização dos encontros presenciais, especialmente para negociações de maior valor, em detrimento do modelo exclusivamente digital que ganhou força durante a pandemia.
Um mercado mais cauteloso e seletivo
O panorama traçado pelo relatório aponta para um mercado mais seletivo, menos especulativo e com maior foco em ativos consolidados. Em um contexto de incerteza, colecionadores tendem a privilegiar obras com histórico, liquidez e validação institucional.
A retomada de 2025, portanto, não indica um retorno ao ciclo expansivo recente, mas sim a consolidação de um novo modelo: mais concentrado no topo, pressionado no meio e sustentado por uma lógica de risco mais controlada.
