Bienal do Whitney troca o debate de identidade por um raio X dos sistemas que sustentam o mundo

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Na Bienal do Whitney deste ano, o foco sai do “quem somos” e vai para “como funciona”, com obras sobre império, energia, cuidado e cadeias globais

A Bienal do Whitney 2026 chega com uma virada de chave bem clara: menos discussão sobre identidade como fim em si e mais investigação sobre infraestrutura, no sentido amplo do termo. As curadoras Marcela Guerrero e Drew Sawyer trouxeram para a 82ª edição um olhar expandido para o que chamaram de “greater United States”, conceito associado ao historiador Daniel Immerwahr, que propõe enxergar o país para além do “mapa logo” das 50 estrelas.

Na prática, isso se traduziu em uma seleção que incluiu artistas ligados a Okinawa sob ocupação dos EUA, Vietnã, Iraque e Afeganistão, além de territórios atuais ou antigos como Porto Rico e Filipinas, e também a presença de vozes da Palestina. O recorte não ficou só na geografia: ele virou linha de força para pensar o império como sistema, e como esse sistema se infiltra no cotidiano, nos mercados, na tecnologia e no imaginário.

A partir daí, a mostra costurou uma tese: sistemas estão em colapso, e a arte é um dos poucos lugares capazes de tornar visível o que normalmente só percebemos quando quebra. Obras no percurso abordaram sistemas econômicos, energéticos, institucionais, legais, de saúde, cadeias de suprimento e, com insistência, os mecanismos algorítmicos e imperiais.

Há exemplos que operaram como metáforas cirúrgicas, como o vídeo de Ignacio Gatica sobre um distrito financeiro chileno que espelha Manhattan, e as fotografias de Aziz Hazara feitas com visão noturna, colocando em jogo o que a tecnologia “vê” e o que convenientemente apaga. Em paralelo, o tom da edição não ficou preso ao desastre: a curadoria apostou no contraste emocional, com trabalhos mais irreverentes e “ferais”, e um fio sensível sobre redes de cuidado, memória e legado.

Carmen de Monteflores: Four Women, 1969. ©Carmen de Monteflores. Photo Philip Maisel. Courtesy the artist.

Carmen de Monteflores: Four Women, 1969. ©Carmen de Monteflores. Photo Philip Maisel. Courtesy the artist.

Entre os núcleos mais comentados, apareceu um retrato de família que virou leitura de instituição. Andrea Fraser apresenta trabalhos ao lado das pinturas vibrantes de sua mãe, Carmen de Monteflores, que ficaram décadas guardadas. A mostra também trouxe um eixo afetivo potente com Emilie Louise Gossiaux e sua homenagem ao cão-guia London, e uma comissão que tocou no nervo do presente com Kelly Akashi, ao reconstruir em vidro a ideia de uma chaminé sobrevivente de incêndio.

Na entrada do tema A.I., a edição parece menos “moda” e mais presságio, com a instalação CULTUS, de Zach Blas, enquanto Leo Castañeda expandiu o formato com um video game acessível online. Resultado: a Bienal de Whitney 2026 se posicionou menos como espelho de identidades e mais como diagnóstico de mundo, com a coragem de encarar a infraestrutura como política vivida, não como conceito.

 

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