Para Hans Ulrich Obrist, 2026 será marcado por experiências coletivas, novos usos da IA e modelos expositivos mais lentos e locais.
Figura central do sistema global de arte, o curador Hans Ulrich Obrist, diretor artístico das Serpentine Galleries, aponta 2026 como um ano de inflexão qualitativa para a arte contemporânea. Após um 2025 atravessado por fragmentação política, social e tecnológica, Obrist identifica um deslocamento claro do foco mercadológico para experiências compartilhadas, processos de longo prazo e formatos expositivos mais integrados à vida cotidiana.
Segundo o curador, o público tem demonstrado menos interesse por percursos acelerados em feiras e exposições e mais disposição para permanecer, conversar e participar. Esse movimento, longe de ser circunstancial, responde a um desejo coletivo de reconstrução de vínculos em um mundo marcado pela polarização. Artistas, nesse contexto, passam a reposicionar o visitante como parte constitutiva da obra, e não apenas como espectador.
Tecnologia, tempo e novos formatos institucionais
Entre suas principais previsões para 2026, Obrist destaca o uso mais crítico e social da inteligência artificial. Em vez de ferramentas voltadas apenas à produção de imagens, a IA tende a ser explorada como tecnologia de coordenação, autoria coletiva e construção comunitária. Ele cita práticas que envolvem colaboração com comunidades locais e experimentações que combinam IA, performance, som e ecologia, ampliando o debate sobre agência e criação no campo contemporâneo.
Outro eixo central é o avanço de obras de longa duração. Para Obrist, cresce o interesse por projetos que escapam ao ciclo curto das exposições tradicionais, muitas vezes se desenvolvendo fora das instituições, em jardins, fazendas, espaços públicos e sistemas ecológicos. Essas práticas exigem que museus e bienais repensem seus modelos operacionais, calendários e métricas de impacto, deslocando o valor da obra do evento para o processo.
- Colecionadores arriscam apostas para 2026 e revelam novos vetores do mercado de arte
- Expectativas para 2026: sinais de ajuste e novas apostas no mercado de arte
- Chanel Next Prize 2026 aposta na transdisciplinaridade e em novas dinâmicas de valorização
Esse mesmo raciocínio se estende à transformação das bienais. Obrist observa que alguns dos modelos mais relevantes recentes abandonaram a lógica do espetáculo globalizado em favor de produções locais, baixo impacto ambiental e forte integração com comunidades. Exemplos como a Bienal de Bukhara e o Okayama Art Summit apontam para formatos mais acessíveis, gratuitos e territorializados, nos quais artistas trabalham com artesãos locais e produzem no próprio contexto expositivo.
No conjunto, as previsões de Obrist sinalizam um reposicionamento importante do mercado de arte: menos dependente de aceleração, circulação incessante e exclusividade, e mais atento à construção de sentido, pertencimento e relevância social. Em 2026, segundo o curador, a arte que permanecerá será aquela capaz de criar espaços reais de encontro em um mundo cada vez mais fragmentado.

