Após dois anos de retração, o mercado de arte entra em 2026 com sinais de ajuste estrutural e retomada mais consciente
O início de 2025 foi marcado por um sentimento generalizado de retração no mercado de arte. Fechamentos de galerias, redução no apetite por compras e ajustes no calendário de feiras desenharam um cenário de cautela. No entanto, à medida que o ano avançou, sinais importantes começaram a emergir, sugerindo que o ciclo de queda pode ter atingido seu ponto mais baixo.
A virada ficou mais clara no segundo semestre, com uma temporada de leilões em Nova York acima das expectativas e uma edição mais robusta da Art Basel Miami Beach. As duas maiores casas de leilão do mundo, Christie’s e Sotheby’s, encerraram 2025 reportando crescimento nas receitas projetadas, interrompendo uma sequência de quedas consecutivas.
Esse movimento reforça uma leitura compartilhada por insiders do setor: o fim da hiper-especulação não representa um colapso, mas um ajuste necessário. A chamada “gamificação” do mercado, inflada por hype e apostas de curto prazo, perdeu força, abrindo espaço para decisões mais fundamentadas e colecionismo de médio e longo prazo.
O que muda no mercado de arte em 2026
Na avaliação de Marc Spiegler, ex-diretor global da Art Basel e hoje estrategista cultural, o desafio central não está na falta de dinheiro, mas na incapacidade do setor de atrair novos colecionadores. Mesmo com o crescimento expressivo da riqueza global, apenas uma fração desse capital chega efetivamente ao mercado de arte.
Spiegler aponta um problema estrutural: ao ajustar os números históricos de vendas pela inflação, percebe-se que o mercado vem encolhendo há mais de uma década. Para ele, o reposicionamento passa por devolver à arte seu caráter transformador, menos como ativo financeiro e mais como experiência cultural significativa. A ideia de “arte como magia” surge aqui como um vetor estratégico, especialmente para dialogar com novas gerações de compradores.
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Outro ponto-chave para 2026 é a revisão do modelo de crescimento das galerias. O formato expansionista, baseado em múltiplas sedes e participação excessiva em feiras, mostrou-se insustentável para a maioria. Em seu lugar, ganha força um modelo mais enxuto, orientado por comunidade, patronagem e projetos com maior impacto público. Menos império, mais ecossistema.
Nesse contexto, a recuperação do mercado de arte não deve vir como um retorno à euforia pré-crise, mas como uma transição para um sistema mais seletivo, adaptável e consciente. Galerias menores, modelos híbridos, redução de custos fixos e maior foco em narrativas e projetos de longo prazo tendem a definir o ritmo de 2026.
O cenário que se desenha não é de explosão, mas de maturação. Para quem observa o mercado com lupa, os sinais são claros: a recuperação está em curso, mas será construída com estratégia, flexibilidade e um novo entendimento sobre valor cultural.
Fontes: Artnet e podcast Art Market Minute
