Power 100 ArtReview: como o ranking redesenha o mapa do poder na arte

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O ranking Power 100 ArtReview 2025 revela a virada geopolítica do sistema de arte, com Ibrahim Mahama no topo, avanço do Golfo e presença de quatro brasileiros

A lista Power 100 da ArtReview se apresenta como um retrato anual de poder no mercado de arte, não apenas em termos financeiros, mas como rede de relações que define o que é visto, onde e por quem. O ranking se propõe a descrever quem de fato influenciou a produção e circulação de arte ao longo do ano, mais do que listar quem vendeu obras mais caras ou quem assinou as exposições mais midiáticas.

O processo começa com um painel de cerca de 30 profissionais de diferentes regiões e funções, que indicam nomes que, em seus contextos, moldaram o que foi mostrado e discutido. A partir daí, ArtReview consolida debates, consensos e disputas, sempre com três critérios centrais: influência ativa sobre a arte que está sendo produzida e exibida agora, impacto que ultrapassa o âmbito local e efeitos tangíveis, mesmo no caso de pensadores cuja produção teórica não seja necessariamente recente.

O texto que acompanha a lista é transparente ao admitir que se trata de uma simplificação e, ao mesmo tempo, de uma ferramenta de leitura. As ausências são tão importantes quanto as presenças, revelando quais cenas, discursos e agentes permanecem à margem da visibilidade global. Apenas oito nomes ou grupos se repetem em relação à primeira Power 100 de 2002, e só Hans Ulrich Obrist segue entre os 50 mais influentes, evidência de que a configuração atual do sistema de arte pouco se assemelha àquele início da globalização.

Mais do que um inventário de reputações, a Power 100 funciona como indicador de mudanças estruturais. Ela explicita deslocamentos de poder entre regiões, tipos de instituição e modelos de atuação, e mostra como artistas, curadores, galerias e patronos estão redefinindo papéis em um cenário de pressões políticas, cortes de financiamento e reorganização econômica.

Ibrahim Mahama, o avanço do Golfo e o Brasil na Power 100 de 2025

Este ano, o topo da Power 100 é ocupado por Ibrahim Mahama, primeiro artista africano a liderar o ranking. A ArtReview deixa claro que a escolha não se resume à origem geográfica. O que coloca Mahama no número 1 é um modelo de atuação em que a obra monumental em juta e materiais industriais dialoga diretamente com a criação de infraestrutura cultural em Gana, por meio de centros, residências e programas educacionais como o Savannah Centre for Contemporary Art, o Red Clay Studio e o Nkrumah Volini.

Mahama exemplifica um movimento mais amplo: artistas que seguem presentes em galerias, museus e bienais, mas que também constroem seus próprios ecossistemas, residências, escolas e plataformas de acolhimento e circulação. É a lógica de Yinka Shonibare, Theaster Gates, Marina Abramović, Emily Jacir, RAQS Media Collective e outros nomes citados pela revista, que aproximam fazer artístico e fazer sistema, reposicionando o artista como agente de distribuição, financiamento e formação.

Em paralelo, o ranking registra a perda de protagonismo relativo de megagalerias tradicionais. Hauser & Wirth, David Zwirner, Gagosian, Perrotin, Pace e White Cube aparecem em posições mais baixas do que em anos anteriores, enquanto a ArtReview destaca galerias que ampliam seu papel, como Goodman e Experimenter, com programas educacionais e de formação curatorial, e iniciativas editoriais e de cruzamento com outras indústrias culturais.

No campo geopolítico, a Power 100 reforça o peso crescente do Oriente Médio e, especialmente, do Golfo. Sheikha Al Mayassa, à frente dos museus do Qatar, sobe para o segundo lugar, e Sheikha Hoor Al Qasimi mantém posição de destaque com a Sharjah Art Foundation. A presença de Badr bin Abdullah Al Saud no ranking, em posição mais alta que no ano anterior, espelha a expansão de um ecossistema cultural sustentado por investimentos estatais e estratégias de reposicionamento econômico e de imagem nacional.

O contraste é visível em relação aos antigos centros hegemônicos, marcados por austeridade, guerras culturais e interferências políticas em instituições públicas. Nesse contexto, a lista sugere que muitos artistas e curadores passam a enxergar o Golfo como plataforma de expansão de práticas e projetos que exigem escala e recursos.

O artista brasileiro Dalton Paula figura na 68ª posição do ranking Power 100 da ArtReview

O artista brasileiro Dalton Paula figura na 68ª posição do ranking Power 100 da ArtReview

Para o público brasileiro e para o colecionismo latino-americano, um dado é particularmente relevante: Dalton Paula ocupa a 68ª posição, ascendendo a partir do 87º lugar em 2024. A ArtReview associa sua presença à força do projeto Sertão Negro, em Goiânia, que atua como escola, ateliê e residência voltada a artistas negros, indígenas e LGBTQIA+, operando fora dos eixos tradicionais e ancorado em saberes afro-brasileiros e quilombolas.

Outros três basileiros estão no ranking: Adriano Pedrosa, diretor artístico do MASP, na 44ª posição (33ª em 2024); o curador Raphael Fonseca, subindo da 86ª para a 74ª posição; e Thiago de Paula Souza, também curador, caindo da 90ª para a 97ª posição.

Essa combinação de reconhecimento institucional internacional, prêmios recentes, participação em exposições de alta visibilidade e construção de infraestrutura de base reforça uma tendência que a própria lista evidencia: o poder no sistema de arte se desloca na direção de agentes que articulam obra, território e comunidade. Para colecionadores e profissionais do mercado, acompanhar a Power 100 significa observar onde estão se formando os novos centros de gravidade simbólica, econômica e política do mundo da arte.

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