Nnena Kalu vence o Turner Prize 2025 e se torna a primeira artista com deficiência intelectual a receber o principal prêmio da arte britânica
Nnena Kalu, artista britânica nascida em Glasgow em 1966, tornou-se a vencedora do Turner Prize 2025, o mais prestigioso prêmio de arte contemporânea do Reino Unido. A decisão representa um marco histórico: pela primeira vez, uma artista com deficiência intelectual recebe o reconhecimento máximo da cena britânica. Kalu receberá £25.000, enquanto os demais finalistas – Rene Matić, Mohammed Sami e Zadie Xa – receberão £10.000 cada.
Sua prática é marcada pela construção de esculturas e desenhos que se desenvolvem a partir de gestos repetitivos. Trabalhando com materiais cotidianos como fitas VHS, tecidos, cordas, papel e celofane, Kalu cria formas envolventes, quase orgânicas, que emergem de processos de envolvimento, embrulho e acúmulo. Essas “cascas” escultóricas, muitas vezes suspensas ou instaladas em clusters densos, conversam com seus desenhos espiralados, que registram energia, ritmo e respiração.
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A artista desenvolve sua produção há mais de duas décadas no ActionSpace, organização londrina dedicada ao desenvolvimento de artistas com deficiência. Embora sua prática seja consolidada desde os anos 1990, sua entrada no mercado comercial é recente, especialmente após exposições individuais em Londres e Stavanger, além da participação em Manifesta 15, em Barcelona.
O júri – liderado por Alex Farquharson, diretor da Tate Britain – destacou a força expressiva de suas esculturas e a precisão com que manipula composição, escala e cor. Para os jurados, suas obras apresentam presença contundente, capturando uma vitalidade que opera entre repetição, expansão e gesto.

Nnena Kalu e a relevância do gesto repetitivo
O reconhecimento a Nnena Kalu amplia discussões sobre acessibilidade, diversidade e a ampliação de narrativas dentro da arte contemporânea britânica. Sua vitória atravessa fronteiras simbólicas: como afirmou Charlotte Hollinshead, facilitadora artística da ActionSpace, o prêmio “quebra um teto de vidro profundamente resistente”, validando um percurso marcado por persistência diante de um sistema historicamente excludente.
A artista foi indicada por duas obras-chave: Hanging Sculpture 1–10, comissão realizada para Manifesta 15, e o desenho Drawing 21, exibido na Walker Art Gallery, em Liverpool. Ambas evidenciam sua assinatura: o gesto circular, acumulativo, que se torna linguagem visual própria. Na mostra do Turner Prize, suas instalações criam ambientes pulsantes, onde materiais tensionados, superfícies vibrantes e estruturas envolvidas pelo movimento sugerem tanto introspecção quanto expansão.
A Tate destacou que a seleção de Kalu contribui para dissolver barreiras entre artistas neurotípicos e neurodivergentes, ampliando o escopo do que se entende como prática contemporânea. Sua obra oferece uma política de presença: um convite para experienciar matéria, repetição e intensidade como forma de expressão plena.
O Turner Prize 2025 segue em exibição no Cartwright Hall Art Gallery, em Bradford, até fevereiro de 2026. A próxima edição acontecerá no MIMA, em Middlesbrough, em 2026.
