PETER COHN
Por Maria Alice Milliet

A DAN Galeria, dirigida por Peter Cohn, ocupa um lugar muito especial no nosso mercado de arte. Melhor dizendo, quando se pensa em comprar, vender, cotar, cotejar ou simplesmente conversar sobre arte moderna brasileira, a figura simpática do Peter é logo lembrada. O meio século de arte produzida no Brasil, de 1920 até os anos 70, é a sua especialidade.

Envolvido com o mercado de arte há quase 40 anos, ele conquistou essa posição com muito trabalho. Seu dia-a-dia ainda é levado com paixão, seja no atendimento aos inúmeros clientes que o procuram pessoalmente, seja ao telefone, ele está sempre ativo. É o único galerista que eu já vi correr dentro do espaço expositivo. Apressado em mostrar determinada obra, em decidir alguma pendência, em comunicar uma nova idéia, ele sai em busca do apoio do Flávio, seu filho, ou recorre à Silvia, sua assistente. Entusiasmo pelo que faz não lhe falta, o que acaba por contagiar os que freqüentam sua galeria.

Seu olhar filtra, analisa e avalia as obras. Mais do que isso, certifica a qualidade do que está sendo vendido. A boa procedência e a autenticidade das obras comercializadas constituem sua preocupação constante. Para o colecionador, poder confiar na sua expertise não tem preço. Essa capacidade do marchand de separar o joio do trigo vem da pesquisa e do estudo constantes e, acima de tudo, da sua convivência com a arte.

Deste trabalho continuado veio o reconhecimento da galeria e a certeza de que na sala do Peter sempre é possível encontrar uma preciosidade, aquelas obra que qualquer colecionador sensível gostaria de ter.

Desde o começo
Ávido leitor, Peter, no início de sua vida profissional, trabalhava com livros, no departamento comercial braço da Editora Verbo especializada na área de literatura e humanidades em geral. O envolvimento com arte foi gradativo até que resolveu abrir a galeria. O primeiro endereço da Dan Galeria foi na Padre João Manoel. No começo, a galeria também abrigava um setor de molduraria, pois Peter não sabia se conseguiria sobreviver apenas vendendo os quadros. Logo percebeu que poderia manter a família (nessa altura ele já tinha os filhos) só com o comércio de arte.

A Galeria de início privilegiava artistas de formação acadêmica como Visconti, Batista da Costa, Almeida Junior, Oscar Pereira da Silva, entre outros e também os seguidores dessa tradição que ainda apareciam nos Salões de São Paulo. Embora esses pintores retardatários tivessem seus fiéis colecionadores, Peter foi percebendo que um outro público se formava, interessado em arte moderna. Gente que freqüentava as Bienais de São Paulo e os museus MASP, MAC e MAM.

A mudança no perfil da Galeria foi gradual. Na década de 1970, já havia outras galerias melhor estabelecidas em São Paulo, por exemplo, a Galeria Cosme Velho, Galeria Documenta, a Seta, a Galeria Bonfiglioli, que trabalhavam com arte moderna. Aos poucos Peter foi se aproximando do modernismo, de alguns artistas ainda vivos, especialmente do Grupo Santa Helena, da antiga Família Paulista. Conheceu Volpi, Bonadei e outros e penetrou nos ateliês desses pintores. Mais tarde passou aos primeiros modernistas, os grandes mestres, como Tarsila do Amaral, Di Cavalcanti e Ismael Nery, nos quais se aprofundou.

As galerias dessa época – Documenta, Cosme Velho, Bonfiglioli, Collectio e São Paulo e Ipanema e Petite Galerie no Rio de Janeiro – importantes para o desenvolvimento do mercado de arte, acabaram por encerrar suas atividades. A Dan permaneceu e cresceu graças à competência profissional, sem pose e sem exibicionismo, de seu fundador. Peter não hesita em afirmar que muito aprendeu convivendo com críticos, artistas, colecionadores e colegas marchands. Hoje, delega a seu filho Flavio, a abertura para a arte contemporânea, o contato com os jovens artistas e novos colecionadores. Na retaguarda está Gláucia, sua mulher, quem verdadeiramente administra a galeria.

Colaboração
Participei de alguns projetos da Galeria. Em 2005 foram realizadas duas exposições e publicado o livro sobre Lothar Charoux. Peter foi o incentivador da pesquisa que resultou no resgate da obra desse concretista. Era inaceitável que um expoente do Grupo Ruptura, com uma produção de altíssima qualidade, estivesse esquecido e alijado do mercado. O livro e as exposições concomitantes, no MAM e na Dan, fizeram com que a obra desse mestre renascesse. A mostra do MAM recebeu o prêmio ABCA de melhor retrospectiva do ano. Hoje, quem se interessa por arte concreta brasileira sabe quem foi Charoux.

Tenho textos críticos em catálogos editados pela DAN. Lembro-me especialmente de ter escrito a propósito de uma exposição de Jesus Soto, artista cuja obra pertence ao importante ciclo construtivista latino-americano. Catálogos dedicados a Di Cavalcanti, Antonio Henrique Amaral, Gonçalo Ivo também trazem ensaios meus. No momento desenvolvo uma ampla ampla pesquisa sobre a pintora Yolanda Mohalyi, cujo espólio esteve abrigado na Dan. O levantamento da vida e obra dessa artista deverá resultar na publicação de um livro e numa grande retrospectiva.
Quando financia pesquisa, a Galeria desempenha papel pertinente aos museus. Há uma vontade de participar da vida cultural para além do comércio da arte. A longa relação de Peter com o MAM de São Paulo, seja participando do Conselho, avaliando obras e, eventualmente, fazendo doações ao acervo, demonstra essa intenção.

Habitualmente cercado de livros e catálogos bem manuseados, entre um telefonema e outro, ele conversa com seu público – o colecionador que busca uma obra específica, o visitante que está à procura de informações, o desconhecido que lhe pede uma opinião, o que lhe faz confidências, o que veio para desabafar, o que está ali para esquecer as lides empresariais – ele está disponível aos velhos e novos conhecidos.

De bom humor e com a família à sua volta, a DAN Galeria parece ser uma extensão de sua casa.