BASELITZ DOS JARDINS
Por Ana Carmen Longobardi
Nova York, 9 de novembro de 2007
Acabo de chegar em Manhattan num dia lindo de outono. Depois de um merecido descanso da longa viagem, milagrosamente sem atrasos, comecei a abrir a correspondência acumulada de alguns meses. Entre catálogos e contas havia um envelope grande, contendo um cartão duro e curvado pela pressão do elástico que prendia a papelada. Ao abrí-lo, deparei com um convite para a inauguração, no dia 9 de novembro, da exposição de Georg Baselitz na Gagosian Gallery, uma das mais famosas e importantes galerias com sede em Londres e Nova York. Foi o que me motivou escrever esta matéria.
São Paulo, 24 de outubro de 2007
Foi inaugurada na Galeria Thomas Cohn a exposição em comemoração aos 25 anos da galeria, intitulada Cinco + Um, onde estavam ali reunidos pela primeira vez no Brasil, alguns dos mais importantes artistas do movimento Neo-Expressionista alemão, entre eles Georg Baselitz.
Como tudo começou
O próprio Thomas nos conta: “A partir de maio de 1982, de forma não-oficial, num porão que tinha sido o atelier do Antonio Dias na rua Álvaro Ramos, no Rio, a galeria nasceu. Um ano depois, em Ipanema, oficialmente surge com o nome de Galeria Thomas Cohn – Arte Contemporânea. As primeiras obras eram de Vergara, Mira Schendel, Leonilson, Amilcar, Tony Cragg, Antonio Dias (mestre e guia já na época de colecionador), Sued. Depois vieram caras novas, nomes como Guillermo Kuitca, Edgard de Souza, Adriana Varejão, Leda Catunda, Daniel Senise, Rosana Palazyan e alguns estrangeiros, a fotografia da Diane Arbus, Peter Schuyff, uma coletiva incluindo Keith Haring e Donald Baechler e assim por diante. Em 1997, viemos para São Paulo como Galeria Thomas Cohn.
Na década de 80, marcada pela retomada da pintura, dois movimentos se iniciavam: o Neo-Expressionismo na Alemanha e o chamado ‘Grupo do Bonito Oliva’, na maioria oriundos de Nápoles, como Clemente, Chia, Cucchi, Paladino e De Maria. Na Alemanha, duas vertentes se formavam, uma geograficamente situada na área do aço – Dusseldorf e Colônia – e a outra em Berlim, com reforços vindos dos refugiados da Alemanha Oriental”.
O que motivou a realização da exposição
Thomas continua: “Os grandes nomes da época eram Baselitz, Penck, Polke, Lupertz e claro, Gerhard Richter, Kiefer, Immendorf, entre outros. O mercado era fechado para artistas estrangeiros, e a Thomas Cohn quebrou este tabu em 1985, quando expôs no Rio os artistas Middendorf e Koberling, mostra que provocou bastante interesse”.
“O sonho continuava naqueles primeiros quatro nomes e foi a amizade com Michael Schultz (galerista em Berlim) que permitiu concretizá-lo. Num encontro em Madrid, ele disse que queria fazer alguma coisa conosco no Brasil, ao que eu respondi: ‘OK, me arranje uma coletiva incluindo os quatro nomes acima’. E assim finalmente aconteceu”.
‘We take it for granted’
Esta é uma expressão em inglês que explica bem várias situações com as quais somos expostos e não damos a devida importância.
Simultaneamente à exposição na Thomas Cohn, Baselitz se apresenta na Gagosian (NY) e uma grande retrospectiva do artista acontece na Royal Academy of Art, em Londres.
Como colecionadora, tenho freqüentado as galerias e aprendido muito sobre arte em geral, conversando com os galeristas. Nestas conversas, conheci um pouco dos meandros do ofício de vender arte, que embora apaixonante, requer muito talento, competência e esforço. Passei a considerá-los e respeitá-los ainda mais.
Quem está envolvido com arte, como galeristas, curadores e até alguns colecionadores, sabe muito bem o trabalho que dá organizar uma exposição de nível internacional no Brasil – sem falar em toda a burocracia. É preciso muita credibilidade, confiança e reputação para que uma galeria brasileira possa realizar exposições de artistas estrangeiros consagrados como Held, Lupertz, Penck, Polke, além de Baselitz.
Após 20 anos de colecionismo, o que motivou os sócios Thomas Cohn e Myriam Cohn a abrirem sua galeria foi a idéia de trocar a posse definitiva de um número limitado de obras, por uma atuação direta no circuito da arte, através do contato com os artistas e uma voz no mercado. Foi a escolha de vida de ambos.
Eu acrescentaria que esta escolha carrega ainda a generosidade de repartir o conhecimento adquirido ao longo de anos, nos presenteando com essa importante exposição que não só merece destaque, mas também uma visita.
Os artistas da exposição ‘Cinco + Um’:
Georg Baselitz (originalmente Hans-Georg Kern) nasceu em 1938 em Deutschbaselitz. Começou seus estudos de arte na Escola Superior de Artes em Berlim Oriental, de onde foi expulso. Mudou-se para Berlim Ocidental e, no ano seguinte, adotou o nome de Georg Baselitz em homenagem à sua cidade natal. Sua primeira individual foi em 1963 na Galleria Werner & Katz, que acabou em escândalo com confisco das obras por “Indecência”. Em 1969 pinta seu primeiro quadro de “ponta-cabeça”. Em 1975 viaja à Nova York e logo após participa da 13ª Bienal de São Paulo junto com Polke. Nos anos 80 o nome Baselitz vira um clássico. Sua obra abrange pintura, escultura, desenho e gravura.
A.R. Penck (originalmente Ralf Winkler) nasceu em 1938 em Dresden. A partir de 1956 tenta em vão ser aceito nas academias de Dresden e Berlinm Oriental. Pouco depois, conhece Baselitz e, a partir de 1961, faz retratos e auto-retratos. Se estabelece em ateliê em 1965 e em 1967 adota o nome de A. R. Penck. Faz contato com o galerista Michael Werner e, em 1968, realiza sua primeira mostra individual. Em 1972 participa da Dokumenta de Kassel. Após retrospectiva, ganha o prêmio na Academia de Artes de Berlim Ocidental. Em 1980 muda para a Alemanha Ocidental, perto de Colonia. Em 1984 participa da Bienal de Veneza e, a partir de 1989, fica como Professor na Academia de Artes de Dusseldorf. Em 1992, volta a participar da Dokumenta de Kassel.
Markus Lupertz nasceu em 1941 em Liberec, Bohemia. Estuda na Escola Industrial de Krefeld e, em 1962, muda para Berlim. Em 1974, organiza a primeira Bienal de Berlim e é convidado como catedrático pela Academia Estatal de Karlssruhe, onde ensina até 1987. Expõe na Whitechapel de Londres em 1979, na Dokumenta e, em 1982, na Bienal de São Paulo. Começa o ciclo Parsifal em 1983 (Cinco obras da série estão expostas na Galeria Thomas Cohn). Em 1996, expõe no MOMA (NY) e, ultimamente, nos museus Shanghai Zendal Museu de Arte Moderna e Imperial Museum de Beijing, entre outros.
Sigmar Polke nasceu em 1941 em Oels. Em 1961, entrou para a Academia de Artes de Dusseldorf, onde estudou com Karl Otto Goetz e Gerhard Hoehme e fez pinturas incorporando fotos. Em 1963, Polke fundou o realismo capitalista, um movimento com Gerhard Richter e Konrad Lueg, apropriando técnicas de publicidade. Tido como artista irreverente e avesso ao uso de técnicas tradicionais, muitas vezes confia no acaso e até mesmo em erros. Obteve o Prêmio de Pintura na Bienal de São Paulo, em 1975, entre muitos outros.
Bukard Held nasceu em 1953 em Berlim. Pertence à geração imediatamente posterior, porém com um currículo de excelente qualidade. Ele foi decano da Academia de Artes de Berlim, onde é professor.
Seo nasceu em 1977 em Gwangiu. É uma jovem artista coreana, aluna de Baselitz e já realizou exposições individuais em Berlim, Nova York, Milão, Seul e Madrid. |