AS BELEZAS DE CINEMA DO SUDESTE ASIÁTICO
Por Eric Freitas

Angkor é um sonho de infância. Desde quando vi em um livro de história aquela “cidade perdida” da Ásia, descoberta por exploradores “à la Indiana Jones” em meio à floresta, ela não me saiu mais da cabeça.

Desde então me interesso por Angkor e pelo Império Khmer – que teve seu auge a partir do século VIII, quando a região onde está a cidade continha mais de um milhão de habitantes e grandes templos. Seu domínio cultural, econômico e militar alcançava todo o atual Camboja e muito da Tailândia, Laos e Vietnã, tendo seu declínio no século XV, quando as construções de Angkor foram abandonadas pelos antigos habitantes. A partir de então, estas construções foram “engolidas” pela floresta tropical do país. Somente em 1860 a antiga capital foi resgatada das “entranhas” da mata pelos arqueólogos, revelando toda a beleza de suas construções.

Ao desejo de conhecer Angkor somou-se o encanto pelas belezas naturais mostradas nas cenas de filmes passados no litoral sul da Tailândia, como A Praia (2000), com Leonardo DiCaprio e 007 Contra o Homem da Pistola de Ouro (1974), com Roger Moore. Resolvi, então, tornar este sonho em realidade, partindo no começo deste ano para o Sudeste Asiático em companhia de minha esposa.

Tailândia
Chegando à Tailândia, fomos direto ao principal destino turístico do país: a ilha de Phuket. As paisagens da região são de tirar o fôlego e nem mesmo a devastação causada pelo “tsunami” conseguiu destruir sua beleza natural, que continua sendo um dos destinos mais cobiçados do mundo.

Mas o litoral sul da Tailândia não se resume a Phuket. Chega-se aos lugares mais bonitos por barco, saindo de Phuket ou Krabi, os dois principais pontos turísticos da região.

Fizemos três passeios de barco até a belíssima e exótica Baía de Phang Nga. O que impressiona é a visão de imponentes maciços calcários, totalmente recortados pela erosão causada pelo mar e recobertos por vegetação. Muitas vezes, são atravessados por túneis e estreitos canais, que conduzem às câmaras ocas (conhecidas por hongs), muitas com estalactites e estalagmites em seus interiores. Para explorar estes canais, recomendamos uma excursão de caiaque, pois somente estas pequenas embarcações dão acesso às entradas das câmaras e mangues. Além do espetáculo natural, também é possível observar inscrições rupestres pré-históricas nas grutas Laem Chao Le e Tham Hua Kalok.

Só existe este tipo de formação geológica em mais dois lugares do mundo: Baía Halong (Vietnã) e sul da China. Em Phang Nga foram rodadas algumas das cenas mais célebres do filme O Homem da Pistola de Ouro. O rochedo isolado onde se encontrava a arma secreta do vilão Scaramanga (Christopher Lee), bem como a própria ilha residência do vilão, acabaram virando a “ilha de James Bond” que, assim como os passeios de caiaque pelos hongs, é uma das principais atrações para quem se desloca à esta baía.

Outro passeio imperdível é a visita às ilhas (Koh) “Phi Phi” (Koh Phi Phi Don e Koh Phi Phi Le), com sua idílica faixa branca de areia sombreada por palmeiras e banhada pela imensidão do mar de águas transparentes, em tons azul ou verde claro. Sabendo da fama da diversidade da flora e fauna aquáticas da região, fizemos alguns mergulhos maravilhosos, com direito à visita de uma enorme tartaruga marinha.

Em Phi Phi Le está a Baía Maya. Rodeada por penhascos íngremes cobertos por uma vegetação densa, foi o local onde Di Caprio filmou a maioria das cenas para A Praia. Após a aparição nas telas, o local passou a atrair muitos visitantes buscando conferir a beleza do local.

Na costa ocidental de Phuket pode-se aproveitar as praias de Kamala, Surin e Pansea (esta última é a mais bonita, com incríveis formações rochosas e acessível aos hóspedes dos luxuosos hotéis Amanpuri e Chedi). À noite, para quem gosta de vida noturna “intensa”, Patong oferece um prato cheio: a principal estância turística da ilha é um centro de compras dos mais variados tipos (desde artefatos nativos até “réplicas” de produtos de luxo), bares, restaurantes e “massagens tailandesas”. A diversão é certa!

Depois de mais de uma semana no mar de Adaman, viajamos para Bangkok, que está situada no delta do rio Chao Phraya. A cidade foi designada capital da Tailândia (então chamada Sião) em 1782 por seu monarca, Rama I, que construiu a muralha da cidade, o Grande Palácio e vários templos. Durante a segunda metade do século XIX, sob o governo de Rama V, a construção de uma rede de rodovias e pontes trouxe o progresso, transformando Bangkok na principal cidade do sudeste asiático.

Em suas avenidas amplas e extremamente movimentadas, táxis de três rodas (Tuk-Tuks), ônibus barulhentos, automóveis e motocicletas disputam espaço. Bangkok mantém uma atmosfera característica, com sua mistura intrigante do velho e do novo. Por todos os lugares você nota os belos telhados ornamentados em camadas, chamados wats, típicos dos templos budistas, que funcionam como importantes centros religiosos e culturais. Vendedores de rua apregoam os pratos tailandeses condimentados e animados mercados flutuantes ocupam alguns dos canais remanescentes.

Começamos a explorar a cidade navegando de “long tail” no Chao Phraya, indo até o maravilhoso templo Wat Arun (templo do amanhecer), que no pôr-do-sol é ainda mais estonteante! Na seqüência, em dois dias, visitamos Wat Traimit, Wat Phra Keo e Wat Pho. Em Começamos a explorar a cidade navegando de “long tail” no Chao Phraya, indo até o maravilhoso templo Wat Arun (templo do amanhecer), que no pôr-do-sol é ainda mais estonteante! Na seqüência, em dois dias, visitamos Wat Traimit, Wat Phra Keo e Wat Pho. Em Wat Traimit está o ”Buda de Ouro”, esculpido há 700 anos e com quase cinco toneladas de ouro maciço. Wat Phra Keo, conhecido como o templo do Buda de Esmeralda (que, na verdade, é de jade), é o mais famoso dentre os 100 prédios e jardins do complexo do Palácio Real. Em Wat Pho - um monastério e complexo de templos e estufas bastante intrigante - está o Buda Reclinado, uma imensa estátua de 50 metros de comprimento, retratando Buda com uma serenidade impressionante em sua imensidão dourada, olhos e solas dos pés esculpidos em madrepérola. Imperdível!

No penúltimo dia de nossa estada em Bangkok fomos de carro até o mercado flutuante Damnoen Saduak, localizado a 100km de Bangkok, na província de Ratchaburi. Lá embarcamos no “long tail” e entramos no mercado flutuante – um labirinto de canais estreitos, congestionado por pequenas embarcações de madeira, que funcionam como barraquinhas flutuantes. Foi muito diferente!

Camboja
Para visitar a principal atração turística do Camboja, o conjunto de mais de 100 templos e edifícios de Angkor, é necessário hospedar-se em Siem Reap, a cidade mais próxima das principais ruínas: Angkor Wat, Angkor Thom, Preah Khan e Ta Prohm. A palavra Angkor deriva do sânscrito e quer dizer “cidade”.

Construídas a partir do século VIII, no auge do império do Khmer, as construções de Angkor estão espalhadas em uma área de 100km² e merecem pelo menos três dias de visita. A luminosidade da luz do sol favorece a visita de Angkor Thom pela manhã e de Angkor Wat à tarde.

Angkor Thom (“Grande Cidade”), com quase 10km², é uma das ruínas que mais chamam a atenção. Acredita-se que entre os anos de 1181 e 1201, cerca de um milhão de habitantes viviam por lá, número muito superior a qualquer cidade européia daquela época. Cercado por uma muralha de 12km de extensão e 8m de altura, Angkor Thom é rodeada por um lago artificial, que antigamente ficava lotado de crocodilos ferozes. Por ser muito rica em ruínas, reserve de meio dia a um dia inteiro, no mínimo, para visitar Bayon, Terraço dos Elefantes e Terraço do Rei Leproso. Bayon é um espetáculo à parte: fica atrás de Angkor Wat e possui as famosas faces de pedra gigantes talhadas em suas torres, característicos da arquitetura Khmer do período, além de dois murais em alto relevo belíssimos que retratam história, mitologia e cenas do quotidiano Khmer.

Angkor Wat (“Templo Cidade”) é um daqueles lugares que jamais sairão de sua memória. Foi desenhado para representar o universo, sendo rodeado por um fosso de 200 metros de comprimento, simbolizando os oceanos que cercam a terra, e uma sucessão de galerias concêntricas, representando as montanhas que circundam o próprio Monte Meru, casa dos deuses da mitologia Hindu. Sua área total é de 1,5km por 1,3km e por isso muitos afirmam se tratar do maior edifício religioso do mundo! Grande parte da beleza desse templo do século XII é associada às suas torres de 65 metros de altura em forma de botão de flor de lótus e seus altos-relevos sobre mitologia hindu e guerras históricas, que são marcas da arquitetura Khmer deste período, anterior à Angkor Thom. As construções foram descobertas em 1860 pelos franceses e fechadas, durante 30 anos, primeiro por causa da guerra civil e, depois, devido aos bombardeios americanos. Finalmente, Angkor Wat foi reaberto à visitação nos anos 90. Uma curiosidade: é o único monumento do mundo a aparecer na bandeira de um país.

Outra ruína muito popular entre os turistas é Ta Prohm, templo datado dos séculos XII e XIII. Ao contrário das outras construções, que tiveram a vegetação retirada pelos pesquisadores franceses, Ta Prohm foi deixado tal qual encontrado. Hoje em dia, pelas janelas e portas das ruínas, árvores centenárias cresceram, mesclando suas grossas raízes e troncos com as pedras. É uma visão de perder o fôlego, que vale a viagem. Foi nesta ruína e em Angkor Wat que o filme Tomb Raider, estrelado por Angelina Jolie, foi filmado.

Para visitar os outros templos – que são muitos – aconselho a contratação de guias, não só pelas informações que você poderá receber, mas também pela quantidade de minas terrestres espalhadas pelos campos e florestas.

Laos
Nosso destino no Laos resumiu-se à cidade de Luang Prabang, considerada patrimônio cultural da Humanidade pela Unesco.

A fusão da arquitetura urbana Laociana e da Colonial Francesa (período de 1893 a 1954) são muito marcantes na cidade, onde há pouquíssimas construções modernas. O país tornou-se comunista e se “fechou” em 1975, só vindo a se “abrir” em 1997. A visita à Luang Prabang é praticamente uma volta no tempo. Além das construções antigas, poucos e antigos carros circulam pelas ruas dominadas por bicicletas e “tuk-tuks”, além de muita gente a pé.

Toda esta atmosfera torna o passeio pela cidade muito exótico. O povo é muito simples, porém bastante amável e cortês, além de muito religioso, em sua maioria budistas. Graças a esta somatória de fatores, pude vivenciar algo único: oferecer comida aos monges budistas da cidade, que só se alimentam duas vezes ao dia (às 7 horas e às 11 horas). Diariamente, entre 6 horas e 6h30, centenas de monges saem de seus templos e vão às ruas para colher as oferendas, normalmente um punhado de arroz, dos habitantes e turistas. É uma cena inesquecível! Aliás, estes templos também valem a visita, principalmente o Wat Xieng Thong, construído por volta de 1560, onde até 1975 os Reis do Laos eram coroados.

Outro passeio muito interessante é subir o Rio Mekong para visitar as cavernas Pak Ou, acessíveis somente por barco. As cavernas possuem impressionantes esculturas de estilo Laociano e budista, esculpidas em suas paredes, bem como mais de 4.000 budas, ofertados pelos peregrinos que ali vão uma vez ao ano.

Realmente, para quem quer voltar no tempo, aliado a uma mística religiosa, Luang Prabang é um lugar imperdível.

Sonho realizado
Estar ali, em meio às ruínas, paisagens e rotina de um povo tão rico em cultura e história foi uma experiência única. Mais do que um sonho de infância realizado, viajar ao Sudeste Asiático foi conhecer um mundo mágico - como o que eu imaginava nos livros e no cinema.