LEONILSON, O ARTISTA MÚLTIPLO
Por Ana Lenice
Leonilson sempre foi fora do comum. Desde criança estava às voltas com atividades diferentes dos outros de sua idade, criando, inventando, entretido com as enciclopédias e os atlas da casa.
Éramos uma família tradicional, com o nosso pai à frente de um comércio de tecidos. Leonilson, o quarto dos cinco filhos, era, segundo as idéias de nosso pai, aquele que tomaria conta da loja no futuro.
Mas o nosso irmão vivia nos rodeando, enquanto costurávamos, ficando com as sobras dos retalhos e transformando-os em uma de suas brincadeiras prediletas, costurando, recortando e bordando. Outra de suas predileções era desenhar. Em qualquer lugar aonde íamos, lá estava ele querendo um pedaço de papel, um lápis... E quando nossa mãe queria vê-lo quietinho, prontamente o colocava a desenhar!
Aos 11 anos de idade Leonilson pediu para ser matriculado na Escola Panamericana, onde permaneceu até os 18 anos participando de inúmeros cursos.
Meu pai achava que esta paixão pelos desenhos fazia parte da adolescência, já que queria para ele um outro destino. E permanecia na esperança de que tudo fosse passageiro.
No entanto, o interesse de Leo pela arte era crescente. Entrou em Artes Plásticas na FAAP, porém o curso ‘certinho’ e regrado demais para os seus padrões o fez abandonar a faculdade. Foi então que vendeu seu carro e com o dinheiro levantado se dirigiu à Espanha, levando consigo uma porção de desenhos.
Na Espanha encontrou Antonio Dias, que viu seus trabalhos e gostou muito, já encaminhando-os às galerias e apresentando-o à pessoas importantes. Leonilson assustou-se: em apenas uma delas vendeu todos os seus desenhos! E logo mais teve sua primeira exposição individual na Casa do Brasil em Madri.
Leonilson fez sua história na contra-mão, alcançando respeito antes no exterior e só depois sendo reconhecido no Brasil. Quando voltou para cá, contatou os mais expressivos galeristas da época – Luisa Strina e Thomas Cohn – e viu seu sucesso crescendo a cada dia.
Sua sensibilidade e inteligência incomuns, suas particularidades, estão todas reproduzidas em suas obras. Inquieto, estava sempre buscando, misturando, inventando, e por isso sua arte é tão viva e múltipla, visto que representa todas as suas facetas. Seu amadurecimento é visível, mas sua força é uma constante. Ele parte das grandes telas no inicio de sua produção e vai experimentando, diminuindo os tamanhos e acrescentando um sem-fim de elementos pessoais,
íntimos, seus sentimentos e propósitos. No final, sua produção é praticamente autobiográfica, apresentando até mesmo suas iniciais, idade, peso, frases...
Aliás, o escrito em suas obras aparece desde o início, quando ele já usava palavras e frases em suas telas, desenhos e bordados. Leonilson viveu intensamente a sua arte e por vezes precisava de mais do que as telas para se expressar. Suas obras são sempre uma descoberta e há sempre novos elementos nos chamando a atenção.
Meu olhar sobre o seu trabalho também foi se modificando com o tempo. Antes, influenciada pelo nosso pai, não via Leonilson como um artista. Quando ele nos avisava sobre as suas exposições individuais ou coletivas, não conseguíamos enxergar a grandiosidade do que isso representava.
Somente depois de sua morte a nossa família compreendeu a dimensão de seu trabalho. E por isso, decidimos que nós e um grupo de amigos próximos cuidaríamos de seu legado e de sua herança artística. Suas obras então passaram a representar o Leonilson vivo entre nós. O amor que ele depositava em tudo o que produzia nos moveu a levar adiante o seu trabalho. E assim nasceu o Projeto Leonilson.
O Projeto Leonilson
Com a sua morte, além de ficar sem rumo, nos vimos de posse de todo o acervo de Leonilson – suas obras, objetos, livros, manuscritos, cartas, suas coleções... Para dar continuidade ao seu trabalho resolvemos criar o Projeto, na intenção de catalogar suas obras.
De início, montamos uma grande exposição cujo fruto foi o livro de Lisete Lagnado. Em sua primeira edição, catalogamos 500 trabalhos; na segunda edição, o número já havia subido para 800. E achamos que nossa tarefa estava cumprida.
Tínhamos a intenção de montar um catálogo raisoneé e não conseguimos o patrocínio necessário – o que foi excelente! Porque depois de algum tempo o número de obras catalogadas subiu para 3 mil!
Depois desse, publicamos um segundo livro chamado “Use, é lindo, eu garanto”, que reúne os desenhos feitos especialmente para a coluna semanal de Bárbara Gancia na Folha de S. Paulo e já está em sua segunda edição.
Além disso, desenvolvemos no Projeto Leonilson um trabalho pioneiro, com a catalogação das obras, colecionadores, exposições, com fotos e todos os detalhes possíveis. Aos poucos fomos nos tornando um centro de referência sobre o artista.
Temos uma equipe pequena, mas dedicada, que conta com um coordenador, uma museóloga e pesquisadoras. A falta de investidores e patrocinadores nos leva, vez ou outra, a vender uma das obras de Leo para manter o Projeto vivo.
Ainda há muito trabalho a fazer. Encontramos textos, correspondências, agendas, cadernos de viagem e suas coleções de objetos (mais de 300 que, por vezes, são representados nas telas) e estes elementos nos ajudam a compreender o universo do Leonilson, identificar e datar as suas produções. A dificuldade em trabalhar com todos eles é grande e a busca por patrocinadores é constante.
Em uma destas buscas, me deparei com um texto dele que certamente traduz sua visão sobre arte, a sua geração e sobre si mesmo:
“Eu tenho que tomar cuidado porque arte não é só ser um loucão, só doido e pinceladas. Nossa geração teve tudo muito fácil e muito farto. De tudo, comunicação, informação... Não tem que controlar. Já dá para saber usar isso direito. O problema da geração é que, às vezes, falta... falta parar de ter vergonha de ser do jeito que é. Eu acho o máximo todo mundo pintar. Um tempo atrás era quase uma vergonha. Você tinha que fazer gravura, vídeo-texto, arte conceitual, brincar de enigma, botar caixinha de fósforo e um pincel, sabe... Você tinha que ser socialista – essas coisas que a gente detesta.
Leonilson – Um ponto na história*”
*trecho do texto |