O VINHO DA VITÓRIA - Château Mouton Rothschild 1945
por Guilherme Rodrigues

Uma das mais sublimes experiências é degustar um grande tinto bem maduro, em plena forma. Quando se trata de um premier grand cru de Bordeaux, capaz de desafiar o tempo e manter-se bem vivo depois de quase 60 anos de idade, antes de abrir a garrafa as mãos começam a suar, a respiração quase que para. Pois bem, considere ainda que se trata de um dos maiores ícones de todos os tempos, o lendário e raro Château Mouton Rothschild 1945. Momentos antes de tirar a rolha, os nervos ficam à flor da pele. Até a respiração se suspende. Deve ser assim para um piloto de Fórmula 1 na hora da largada, para um astronauta no instante da ignição dos foguetes. Pensamentos como: se a rolha estiver muito ruim, se o vinho estiver bouchonée, se estiver passado, transitam ligeiros pela mente, mas vão se embora. Prepondera a concentração absoluta e a certeza de que, tirada a rolha, uma grande aventura começará.

É claro que antes já foi possível examinar a garrafa fechada. O nível do vinho em boa altura, ainda junto ao gargalo, contra a luz, a cor brilhante e avermelhada (nada de tons marrons ou foscos), todos sinais de saúde. Antes de ser aberta, a garrafa ficara uns dias em pé, para que a borra depositasse no fundo e não turvasse a decantação. Corto a tampa da cápsula, limpo bem a boca da garrafa. É preciso cuidado com os gargalos já envelhecidos. Pela ação do tempo, há uma tendência da rolha grudar-se nas bordas internas do gargalo. Com isso, a parte externa da cortiça, presa ao gargalo, resiste demais e o miolo pode se desmanchar quando puxado. No caso do Mouton 45, a rolha saiu inteira. Mais um bom sinal, a nobre cortiça fez seu trabalho.

Aberta a garrafa, liberto o vinho, a surpresa foi imediata. Aromas explosivos e saudáveis emergiram no mesmo instante. Vitória! Garrafa em plena forma. Um decanter de cristal impecavelmente limpo esperava pelo vinho. Ao ser vertido para fora de sua morada durante quase 60 anos, o tinto irradiava contentamento e esbanjava saúde: uma cor rubi, ainda firme e densa, muito viva e brilhante. Aromas maduros, possantes e sensuais emanavam do precioso líquido; eram percebidos mesmo à distância. Atestavam a certeza de que uma garrafa lendária e inesquecível viera sentar-se à mesa para conversar longamente com os amigos à volta.

Ainda antes de provar o vinho, a imagem do lugar de seu nascimento. Visitar o Médoc e não ver o Mouton é como ir à Roma e não ver o Papa. Lá se encontra o esplêndido Musée du Vin, dentro do Château, com seu acervo inigualável de arte relativa ao vinho, colecionado pelo Barão Philippe de Rothschild durante o tempo que esteve à frente da lendária vinícola (1922 a 1988). Além desse atrativo especial, não há como não ver o vinhedo. Ele situa-se numa elevação mais proeminente da planície costeira, aproximadamente 30m acima do nível do mar, cerca de um quilômetro e meio da margem esquerda da Gironde. De acordo com o Barão Philippe, essas elevações, como corcovas numa planície, podem ter originado o nome do vinhedo, em francês antigo: Mothon (pequeno monte). Ademais, essas saliências fazem lembrar um rebanho de carneiros (mouton) a pastar na planura. Fáceis de ver para quem trafegue por perto.

O vinhedo, de aproximadamente 80 hectares, é plantado com 85% de Cabernet Sauvignon. Ostenta uma das mais altas proporções dessa casta dentre os châteaux de Bordeaux. É o apogeu dessa nobre uva em todo o mundo. Numa boa safra, produz em torno de 25 mil ou pouco mais caixas (com 12 garrafas de 750 ml). Em 1945, o rendimento foi muito pequeno, menos da metade. As geadas de maio reduziram a carga das parreiras. Clima impecável durante a maturação gerou uvas mais do que perfeitas, que propiciaram a enorme concentração e força do imortal tinto. A vinha dá vinhos muito retintos, longevos, fortes, corpulentos, mas ao mesmo tempo exóticos e exuberantes. Até 1730 Mouton fazia parte do Château Lafite. Naquele ano foi desmembrado. Passaram a ser vizinhos. Em 1853, foi comprado pelo Barão Nathaniel Rothschild, do ramo inglês da família. Seus descendentes até hoje são donos do vinhedo. A Baronesa Philippine, filha do Barão Philippe assumiu e mantém o comando do Mouton desde a morte do pai (1988). Um seu parente, de outro tronco, James Rothschild (banqueiro parisiense), viria a adquirir o Lafite, em 1868.

Terminada a 2ª Grande Guerra, o Barão Philippe pôde voltar a seu amado Mouton, em tempo ainda da célebre e grandiosa colheita de 1945. A natureza e a dedicação dos vinicultores produziram um vinho estonteante, jamais visto, em quantidade bem mais reduzida que o usual. Como que para marcar indelevelmente a vitória na guerra, o Barão comissionou o artista Philippe Julien para elaborar o rótulo. Inaugurou a série ininterrupta dos famosos rótulos de artistas. Ostenta o “V” da vitória, símbolo muito usado por Sir Winston Curchill durante os anos difíceis do conflito. Traz a expressão definitiva: “1945 Anée de la Victoire”.

Subitamente todas essas imagens se desfazem: o Médoc, o vinhedo, as pessoas que colheram as uvas e fizeram o vinho há tanto tempo, a vitória na guerra, a saga dos Rothschilds e a figura esfuziante e emblemática do Barão Philippe. Tudo desaparece, pois surge à frente, bem vivo no copo, o Mouton 45, que domina a cena.

Os aromas opulentos, ricos, complexos e sensuais jorram para fora e inundam os sentidos. Fruta muito madura, de diversos matizes, especiarias asiáticas, cacau, café, bálsamo, fumo, minerais, tudo combina-se com grande frescor, vida, intensidade e voluptuosidade. Os sabores são igualmente complexos, muito intensos, potentes e magistralmente harmonizados sobre uma textura aveludada. O final de prova é interminável. Agüenta-se no copo por muito tempo. Um vinho na verdade indescritível, exótico, único e incomparável. Dois dos maiores provadores do mundo dão seu testemunho. Para Robert Parker, o vinho tem “apenas” 100 pontos, nota máxima, somente porque sua escala de pontuações termina aí: “um dos vinhos verdadeiramente imortais do século XX”; “um vinho admiravelmente jovem” (dito nos anos 90); “beba até 2047”. Já Michael Broadbent não deixa por menos. Sua escala termina em 5 estrelas, mas confere 6 ao Mouton 45: “simplesmente não existe outro vinho como este”; “a Churchill of a wine ”.

Um natural silêncio se fez entre os presentes. Expressões estimulantes de contentamento, satisfação e admiração, espontâneas, brotavam nas faces dos convivas. Depois, aos poucos, as palavras foram surgindo. O vinho conversa com todos, diz tudo, revela as melhores qualidades. Nada de esnobismos, frivolidades ou sentimentos superficiais. As pessoas como que sentem-se atraídas pela verdade revelada pelo vinho: grandioso e simples, natural como a vida, dedicado, sincero e generoso como a amizade. Imagem fantástica que fica para sempre, como a memória das pessoas sentadas à mesa, a sorrir de contentamento para o vinho. Uma garrafa inesquecível, o vinho da amizade: O Vinho da Vitória!

Guilherme Rodrigues é advogado e enófilo. Colaborador da Revista GULA e da enciclopédia Larousse dos Vinhos (ed. brasileira), é membro de confrarias báquicas no Brasil e no exterior e presidente do Solar do Vinho do Porto (Curitiba).