COSTA RICA - ATRÁS DO SAILFISH
por Jorge Gabrielli Calixto

Uma pescaria é um evento que requer uma série de pormenores e nuances, que se não forem cumpridos ou bem cuidados, podem acarretar em resultados não desejados.

A minha grande sorte é ter um amigo pescador que, além de tudo, organiza as nossas grandes aventuras em sua própria agência de viagens! Com a ajuda de alguns de seus parceiros coligados, experientes na forma de atender a estas solicitações, nossas pescarias sempre resultam em sucesso.

Recentemente, eu e mais três companheiros estivemos na Costa Rica em busca do sailfish, um peixe de bico bom de briga! Ficamos em Quepos, cidade litorânea na costa do pacífico, e escolhemos o mês de fevereiro por ser a melhor época para a pesca de sailfish nesta região.

É fundamental escolher a época adequada para cada tipo de peixe, mas outros fatores como vento, pressão barométrica, cor e limpeza do mar, chuvas, interferem na pescaria. Ter um pouco de sorte também conta - e ela estava do nosso lado: além de 20 sailfishes, ainda trouxemos um marlim de aproximadamente 300 quilos, o único da semana dentre todos os barcos que saíram para o mar!

Mar azul
Nossa agência providenciou um hotel ótimo, limpo, com um bom atendimento e uma vista fantástica! Imaginem o grande benefício: acordar, abrir a janela e vislumbrar aquele mar azul maravilhoso e convidativo, esperando para mais um dia de boa pescaria! A comida era boa, com um farto café da manhã, e em uma das duas piscinas ainda era possível fazer pequenas refeições ou lanchar.

Todos os dias, o pessoal da embarcação nos pegava no hotel por volta das sete da manhã para nos levar ao cais, onde dois barcos - um para cada dupla - nos esperavam.

Voltávamos apenas no final da tarde trazendo o resultado do dia, felizes pelo contato com o mar, o bom ar e aquele ambiente maravilhoso, de água azul – que é a propícia para a pesca de peixes de bico.

Logo que chegamos em Quepos a água estava um pouco esverdeada, não tão ideal para a pesca, mas no decorrer de nossa estada foi melhorando e no final tivemos um resultado excelente!

Trabalho em equipe
A participação do comandante e da tripulação durante a pescaria é essencial para que os resultados sejam profícuos. O comandante precisa ter a malícia de entender o comportamento do peixe fisgado e conduzir o barco adequadamente, para que a gente consiga trazer o peixe, fotografá-lo e obviamente, de acordo com a nossa filosofia, sempre soltá-lo.

Já o marinheiro fica responsável pela montagem do aparato de pesca na popa, com um mínimo de seis ou sete varas e as devidas iscas, que podem ser naturais (sardinhas ou agulhas) ou artificiais (lulas coloridas). São as iscas, aliadas a alguns artifícios e ao movimento do barco, que chamam a atenção e atraem o peixe.

Quando o peixe é fisgado, o marinheiro vai soltando a linha fisgada, enquanto os pescadores recolhem as demais linhas, já que os peixes de bico são bem agressivos, se movimentam demais e podem embaraçá-las.

Geralmente estabelecemos uma ordem entre os pescadores para trazer os peixes, nos alternando, para que ambos tenham a chance de pegar o mesmo número de peixes.

Logo que é fisgado, o sailfish faz muita força para se desprender. Nesse momento o trabalho do comandante é crucial. Ele observa o comportamento do peixe e vai posicionando o barco da melhor forma, para não perdê-lo, enquanto o pescador, sentado em uma cadeira especial, vai trabalhando o peixe. É preciso ser cuidadoso e deixar sempre a linha bem esticada, porque se ela ficar frouxa o peixe consegue pular e se debater, jogando fora o anzol.

O tempo que se leva para trazer o peixe ao barco varia muito, mas o desejável é que não demore muito, para não estressá-lo. Isso porque o objetivo da pesca esportiva é fisgá-lo, trazê-lo ao barco, apreciá-lo, fotografá-lo e devolvê-lo ao mar o mais rápido possível, para que ele possa continuar nos dando este prazer.

Atrás do sailfish
Pescamos o sailfish em uma faixa entre 15 e 30 milhas da costa. Normalmente nossa viagem oscilava entre 1h30 e 2 horas, desde o cais até a região da pesca. A partir de 15 milhas já começamos a lançar as iscas e a pescar, até alcançarmos as melhores regiões, e na volta só recolhemos tudo também a partir deste ponto.

Não existe nenhuma norma pré-estabelecida para a pesca esportiva, mas existe uma ética entre os pescadores: os barcos permanecem sempre a uma distância adequada. Como a pesca do sailfish é feita com o barco em movimento, por vezes nos cruzamos a alguns metros de distância.

Existe também a comunicação via rádio, para que os comandantes troquem informações e possam localizar os melhores pontos de pesca do dia e explorá-los.

O sailfish localiza-se geralmente próximo aos drop offs (espécie de “barrancos” submarinos, quedas abruptas de profundidade), onde encontra sua alimentação. Esse tipo de peixe anda em grupos de dois ou mais e quando se está observando o mar, da parte superior do barco, quase sempre é possível vê-los na superfície.

Uma vez que o comandante os visualiza, direciona o barco para passar com as iscas próximas a eles. Dessa forma, pode até acontecer, como aconteceu conosco, de fisgar dois sailfish ao mesmo tempo. Nessa hora o comandante é mais importante ainda, para administrar e controlar o barco e satisfazer aos dois pescadores.

Vida de pescador
A pesca nos traz várias lições, mas a maior delas é o respeito. Quando você está no mar, é apenas um ponto em meio à imensidão - onde a solidariedade, o respeito e a importância de obedecer à voz do comandante trazem disciplina para aqueles que carregam em si o verdadeiro espírito da pesca esportiva. Esse conjunto de valores me ensinou que o mais importante não é pegar os peixes e matá-los, mas respeitar a natureza, os peixes e as pessoas que estão juntas ali, com o mesmo objetivo.

Um bom pescador é aquele que sai para pescar, independente de qual seja o resultado. Se ele traz o peixe, complementou a premissa de tudo o que ele organizou. Se ele não traz ou deixou de pegar o peixe esperado, não fica nervoso ou aborrecido, porque realizou a pescaria da mesma forma e é isso o que importa.

Algumas pescarias, como aquelas realizadas com um grupo de amigos, se tornam agradáveis pelo seu contexto – estar junto de seus companheiros, tomar um aperitivo, conversar, contar as histórias de pescador – e os peixes fisgados são apenas mais um item desse conjunto.