|
DELICIOSAS
EXTRAVAGÂNCIAS
por Cacau Steiner
Não sei bem
o que surgiu primeiro: o gosto por viajar ou a paixão pela alta
gastronomia. Só sei que às vezes, quando me escuto contar sobre
as longas horas de estrada que enfrento só para comer, penso se
na verdade o meu gosto não é por dirigir. Outro dia, nosso companheiro
dessa viagem que vou contar aqui, brincou comigo, sugerindo que
fôssemos jantar num bistrozinho ótimo, a apenas 400 quilômetros
de São Paulo. E eu, inocente, topei! Mas querem saber a verdade?
Acho que a combinação entre distância, aventura, programa de índio
e a desculpa de estar com um apetite de leão porque viajei demais
é o que me seduz... E foi assim, munida desse espírito rodoviário,
que estive na Europa há pouco tempo, atrás de um bom prato de
comida.
Como sempre
comecei a viagem por Paris. Houve um tempo que eu não gostava
muito da capital francesa. Era quando eu ia para lá tão preocupada
em não perder nenhuma indicação que acabava não sobrando muito
tempo para aproveitar a minha Paris. Aliás, sempre digo que essa
é a dica mais valiosa que posso dar: descubra o seu próprio roteiro.
Leve consigo todas as dicas que puder carregar, mas nunca se esqueça
de enxergar a cidade com seus próprios olhos. Eu, por exemplo,
apesar de adorar os restaurantes e museus de Paris, não gostava
muito da cidade. Até que um dia, numa noite de verão, atravessando
a Ponte Alexandre III, olhei para cima, respirei fundo e me extasiei.
Descobri que para mim, Paris existe para ser admirada e não desbravada,
e desde esse dia nunca mais comecei uma viagem pela Europa por
outro lugar. Bem, Paris...
Desde que
descobri as vantagens de hospedar-me do lado direito do Sena nunca
mais saí dali, mas naquele começo de noite de junho, espremida
dentro de um taxi quente e presa no trânsito há quase uma hora,
desejei estar em algum dos hotéis do Quartier Latin. Passava das
sete e meia da noite e, apesar do sol a pino, eu sabia muito bem
que a chance de conseguirmos lugar no L’Atelier de Joel Robuchon
diminuía a cada instante. Desde que comecei a tomar gosto pela
gastronomia, sonhava em jantar à mesa de Robuchon. Só que naquela
época ele era o mais famoso chefe três estrelas da França, e um
jantar no seu restaurante custava bem mais do que eu poderia pagar.
Quando finalmente tive dinheiro suficiente para poder pagar a
conta, Robuchon se aposentou e tive que me conformar com as inesquecíveis
e incontáveis idas ao “Jamin”, no número 32 da Rue de Longchamp,
seu primeiro restaurante, e que, segundo se dizia à boca pequena,
continuava sob sua supervisão. Até que no ano passado Joel resolveu
voltar. E depois de tantos anos de espera, o universo haveria
de conspirar a nosso favor.
O ar condicionado
estava quebrado e o calor infernal acabara por afugentar um grupo
de americanos, que preferiu ir jantar em outro lugar, cedendo
seus lugares à nós. Para a minha primeira visita, Joel pensou
em tudo! Sabia que eu iria querer experimentar tudo que sempre
tentei copiar de seus livros e por isso elaborou um cardápio com
jeitão de bar de Tapas, onde todos os pratos são servidos em pequenas
porções para que se possa ver e provar de tudo! Sem mesas, no
L’Atelier senta-se em um enorme balcão de madeira escura em estilo
japonês onde pode-se, sem nenhum pudor, observar, invejar, cobiçar
e até mesmo pedir o que o cara da cadeira ao lado está comendo.
Uma delícia! O melhor da noite foram todos, mas vou mencionar
os meus dois favoritos: codorna caramelizada servida com purê
trufado (marca registrada de JR) e aspic de caranguejo com tomate
confit e abacate, um velho conhecido do Jamin, mas que naquela
noite tomou outra proporção.
Foi tudo
tão bom, que no dia seguinte resolvemos comer de novo. Só que
dessa vez fomos ao “La Table de Joel Robuchon”, um restaurante
com o mesmo cardápio do L’Atelier só que com diferenças estruturais:
ali a comida é servida na mesa e não existe fila na porta, já
que se aceitam reservas. Bem alimentados para enfrentar o longo
caminho, partimos direto para a Alemanha, onde pararíamos por
duas noites a caminho da Itália.
Passei boa
parte da minha vida conjugal gozando meu marido por só dominar
o francês na hora de ler o cardápio do restaurante. Mas qual não
foi minha surpresa ao descobrir que o alemão, que para mim sempre
foi grego, é praticamente minha língua materna quando o negócio
é comida. Acho que tive tanto medo de passar fome por não saber
me comunicar que meus instintos falaram mais alto! E foi assim,
em alemão, que me vi traduzindo o cardápio do bar do Hotel Colombi,
em Freiburg, as dez e meia daquela mesma noite. Desconfiado da
minha tradução, meu marido acabou pedindo um Bradwurst acebolado.
Eu, já sabendo que o restaurante tinha 18 pontos no guia Gault
& Millau, pedi um filé com molho de trufas e a melhor batata rosti
que já comi na minha vida! Para a nossa sorte, no bufê de café
da manhã do dia seguinte, ao lado do salmon pouco defumado e das
lingüiças e salsichas, lá estava a batata rosti de novo! E, como
por causa do fuso ainda era hora do jantar aqui no Brasil, não
vi mal nenhum em pedir uma bier para acompanhar tudo aquilo!
Antes de partirmos,
uma noitada no restaurante do Hotel Colombi que estava fechado
na noite que chegamos. Comemos como reis! Pato e Venison da floresta
negra, acompanhados de muita cerveja, para desgosto do sommelier.
De sobremesa, apfel-strudell numa massa que deveria ter no mínimo
cinco mil folhas. Uma delícia! Uma noite memorável!
Quando finalmente
chegamos ao L’Alberetta, na Franciacorta, já tínhamos descoberto
uma liquidação na butique Hermés de Basel, comido várias seleções
de lingüiças na cervejaria mais charmosa de Luzern e nos perdido
nas estradas da Brescia.
Gualtiero
Marchesi, o chefe em pessoa, nos aguardava ansioso na porta do
hotel para avisar que estávamos atrasados (como se não soubéssemos)
e que os últimos pedidos seriam feitos até às 22 horas. Resolvemos
então tirar no par ou ímpar com nossos companheiros de viagem
para ver quem teria que tomar o banho mais rápido. Perdemos e
por isso, tive que deixar os óleos e sais de banho relaxantes
da Ettro para depois.
Ao entrar
no restaurante envidraçado e com muita madeira entendi a aflição
de Marchesi. Ele nos reservara a melhor mesa da casa, bem de frente
para a cozinha e pendurada por sobre os vinhedos da Locanda. Seria
“una grossa figura” deixar uma mesa tão importante vazia numa
noite de sexta-feira. Para aqueles que não sabem, a Franciacorta
é uma região vinícola famosa pelos seus espumantes e, para começar,
resolvemos experimentar a bebida local. Muito gostosa, está mais
para as Cavas espanholas do que para os Pro Secco. Mas, naquela
noite, a despeito de eu ter pedido peixe, o pessoal estava mais
para um Barbaresco do Angelo Gaja do que para espumante, e logo
mudamos de copo.
Como eu estava
com sorte nessa viagem, o melhor prato da mesa acabou sendo a
minha entrada: salada de spaghetti com cebolinha e caviar oscettera.
Uma delícia que eu já me arrisquei a copiar. O prato, robalo grelhado
com champignons do bosque também estava uma delícia. Na mesa,
lasanha de vieira, cordeiro e Frango a Kiev. Tudo muito bom. Fomos
então para a varanda e, enquanto experimentávamos o vinho doce
da Franciacorta, concluímos que uma ida ao L’Alberetta vale pelo
hotel e pelos arredores tanto quanto pelo restaurante.
O dia seguinte
foi uma delícia. Para começar, dormir num dos quartos e suites
do L’Alberetta é um privilégio. O castelo, que já foi a residência
da família Moretti, é todo decorado em tons que acalmam e agradam,
com mobiliário digno de museu. Os banheiros são uma estória à
parte... Nas suítes, além do banho turco, todos os quartos têm
jacuzzi para casal! Depois daquele banho que não tomei na chegada,
fomos para o café da manhã onde toda sorte de embutidos, pães,
bolos e geleias nos esperavam. A pastiera di grano estava de gritar!
Fomos então
até o spa marcar uma massagem para o fim do dia. Ali, além de
hidroterapia, sauna, cabeleireiro, esteticistas, personal trainers
e uma piscina com ondas, ainda é possível alugar mountain bikes
para um passeio pelos vinhedos íngremes do hotel. Para os amantes
do golfe a melhor opção é o Franciacorta Golf Club, a apenas 10
minutos, que cobra taxas especiais para os hóspedes do L’Alberetta.
Mas não se esqueça de levar seu certificado de handicap, já que
tanto ali quanto nos outros cinco greens da região, eles são obrigatórios.
Além do golfe
há quadras de tênis, cavalos e pesca no Lago D’Iseo. Os barcos
a motor podem ser alugados no próprio hotel, com ou sem marinheiro.
Mas, como esporte não é o meu forte, resolvemos então dar um passeio
de carro. O concierge nos ofereceu o Jaguar do hotel com o chofer,
mas como estávamos em quatro, preferimos ir no nosso carro.
Nosso destino
era Verona, a cidade encantada de Romeu e Julieta, que para mim
é uma das mais lindas da Europa. Almoçamos um maravilhoso fetuccini
al funghi porcini fresco e saímos para descobrir a cidade. Ali
é preciso cuidado para não se perder o almoço, já que os restaurantes
fecham às 14 horas. Antes do sorvete, especialidade da região,
fomos até o Coliseu de Mármore cor de rosa tentar uma entrada
para a Ópera daquela noite, Aida de Verdi. Mas era impossível!
O coliseu é mundialmente conhecido por suas temporadas de ópera
e dizem que Pavarotti se emociona sempre que canta a ária “Nessun
Dorma” ali... Bem, eu também choraria.
Conformados,
demos uma bela volta pela cidade, passamos em frente ao L’Hotel
della Accademia, onde há anos comi o melhor Baccala alla Vicentina
da minha vida e voltamos para Erbusco.
Naquela noite,
jantamos a 40 minutos do L’Alberetta, em Bergamo, no Ristorante
Da Vittorio. O senhor Vittorio em pessoa tratou de nos atender
e nos ofereceu um menu surpresa de cinco pratos, que estava fantástico!
Começamos com um antipasto misto de frutos do mar que incluía
atum cru ao pesto e mariscos brancos. Comi ali um inesquecível
spaghetti al frutti di mare! Para finalizar, peixe fresco ao alecrim
com purê de abobrinha e Frito Misto di Mare. Divinos! E, por sorte,
naquela noite, quem ganhou no par ou impar fui eu e, por isso,
pude tomar o Solaia 97 sem culpa, pois não teria que dirigir depois.
Infelizmente
dez noites depois da primeira já estava quase na hora de voltar
para casa. Para isso, largamos o carro e pegamos um vôo para Paris
com escala em Londres: uma paradinha básica só para jantar no
Sketch... Bem, mas de avião não é loucura, não é mesmo?
Cacau
Steiner sempre traz as melhores opções em roteiros de gastronomia
pelo mundo. Durante suas viagens, observa, fotografa e anota o
que há de melhor em cada destino, para escrever aqui, com exclusividade.
|