BRASIL NAS OLIMPÍADAS TAMBÉM SOBRE OS ESQUIS
por Marcelo Apovian

Liberdade, paisagens deslumbrantes, velocidade, pai xão. Poderia associar o esqui a muitos adjetivos, mas estes são alguns dos mais presentes desde quando o esporte passou a fazer parte da minha vida, em 1986. Em princípio, era apenas um programa de família, mas com o tempo, as viagens foram se intensificando. E em 1988, seguindo a sugestão de um amigo, já estava treinando para participar do campeonato brasileiro!

Competindo na neve
Poucos sabem, mas o Brasil tem uma Confederação de Desportos na Neve (CBDN), que organiza campeonatos e incentiva a prática dos esportes de inverno. Desde quando participei do meu primeiro campeonato, me apaixonei pela idéia e continuei competindo por mais 13 anos. Para competir pela primeira vez, eu e este amigo passamos as férias escolares treinando em Las Leñas, sem técnico ou qualquer orientação. Mas nos anos seguintes levei a brincadeira a sério, alternando treinos a cada seis meses na América do Sul e na Europa, até que, em 1991, fui para o meu primeiro mundial, na Áustria.

Outras competições internacionais vieram. Em 1992 fui com mais oito atletas para os Jogos Olímpicos de Inverno, quando pela primeira vez uma delegação brasileira marcou presença. No total, fui para quatro mundiais e duas olimpíadas, além dos campeonatos brasileiros. Nos Jogos Olímpicos do Japão, em 1998, conquistei o 37º lugar, o melhor resultado de um brasileiro no esqui na neve até hoje. Mas para os jogos de 2006, em Turim, nossos atletas podem superar esta colocação, pois estão esquiando muito melhor do que eu naquela época, o que demonstra a evolução da prática deste esporte no nosso país.

Confederação brasileira
Depois que parei de competir me envolvi com os trabalhos da Confederação. Hoje temos um apoio financeiro através do Comitê Olímpico Brasileiro, amparados pela Lei Piva e, com este dinheiro, conseguimos financiar parte das viagens dos nossos atletas e montar centros de treinamento. O resultado do trabalho e investimento é a evolução do nível dos nossos competidores, como a Isabel Clark, primeira sul-americana a se classificar para os Jogos Olímpicos de Inverno de 2006 no snowboard. Ela está entre as 25 primeiras no ranking mundial, uma colocação excelente, mas infelizmente ainda pouco valorizada no Brasil. É uma prova de que trazer medalhas para o Brasil ainda é um sonho difícil, porém não impossível.

Este trabalho começou na década de 60, de uma forma bem amadora. Um grupo de amigos, que queriam esquiar e se divertir, começou a organizar alguns campeonatos. No início, estes amigos se juntaram ao Clube Alpino Paulista e obtiveram uma permissão especial para representar o Brasil em competições internacionais. Quase três décadas depois, em 1989, outros clubes se juntaram e fundaram a Associação Brasileira de Ski, filiando-se ao COB (Comitê Olímpico Brasileiro) e ao FIS (International Ski Federation). A partir de 1994 a ABS passou a representar também o snowboard, passando a se chamar ABSS (Associação Brasileira de Ski e Snowboard) em 1999. Finalmente, em 2003, passou a se chamar CBDN – Confederação Brasileira de Desportos na Neve, por determinação do COB. Hoje representamos, além do esqui e do snowboard, o cross country (onde, como em uma maratona, o atleta desliza em um trajeto que varia de 10 até 50 quilômetros) e o biathlon (que associa a maratona com provas de tiro).

Os campeonatos brasileiros são realizados anualmente. Este ano, ambos serão em Lãs Leñas (Argentina). O de snowboard acontece na última semana de agosto e o de esqui, na primeira semana de setembro.

Longe da neve
O esqui é um esporte com mais de 100 anos, mas nosso nível técnico ainda é deficiente em relação aos países europeus. Não temos tradição na prática deste esporte, não temos neve em nossas montanhas, precisamos viajar algumas centenas de quilômetros para chegar em uma pista. Mesmo assim, o brasileiro sempre dá o seu “jeitinho” e consegue esquiar, seja em viagens curtas ou até mesmo trabalhando nas estações de esqui. É este mesmo jeitinho brasileiro que nos ajuda a ocupar a liderança nos rankings sul-americanos de snowboard em todas as categorias: temos o Felipe Motta no half pipe, o Ricardo Moluzzi no gigante paralelo e a Isabel Clark, em todas as categorias do feminino.

Mas a realidade é muito dura no Brasil. Os esportes de neve e gelo, assim como todos os outros, sofrem com a falta de apoio e patrocínio. Em 13 anos de competição, eu só podia contar com a ajuda financeira da minha família e de amigos. Só consegui patrocínio um ano antes dos Jogos Olímpicos de 1998, quando eu fui o único brasileiro a conseguir o índice para participar.

O trabalho da CBDN hoje é bastante profissional. Temos o amparo da Lei Piva e recebemos uma verba do COB, que é repassada aos nossos atletas. Em contrapartida, podemos cobrar melhor desempenho deles e por isso o nível dos competidores melhorou muito. Se as Olimpíadas fossem hoje, já teríamos oito atletas com índice para participação: quatro homens e uma mulher no esqui, uma mulher no snowboard e dois no cross country. Ainda assim, falta patrocínio e divulgação. Só com este apoio conseguiremos melhores condições de treinamento, para que o esporte cresça.

Tempo de mudanças
Felizmente muita coisa mudou. Há 20 anos os esportes na neve eram muito elitizados, mas atualmente alguns pacotes de viagem são bem acessíveis. Hoje um grande público pode se programar para uma viagem assim, o que está fazendo o esporte crescer em termos de participação e preferência dos brasileiros.

Todos os esportes de neve têm apelos muito fortes: o snowboard, que visualmente se assemelha ao surfe e ao skate (esportes muito populares no Brasil), é a coqueluche do momento dentre os brasileiros. Isso porque enquanto no surfe você pega uma onda de no máximo uns 30 segundos, no snowboard você “surfa” uma montanha por cinco, dez, trinta minutos, com uma infinidade de manobras possíveis. Já o esqui é apaixonante pela velocidade. A sensação de liberdade é predominante, o vento na cara, as paisagens... É maravilhoso olhar para o alto de uma montanha, pensar “vou esquiar naquela pista, lá em cima” e poder realmente fazer isso! No cross country, o desafio, o impulso de se superar, é o que manda. E o biathlon tem o desafio extra, onde você percorre um trajeto em velocidade e precisa parar, se concentrar e atirar para acertar um alvo. Estas duas últimas modalidades ainda não são muito conhecidas no Brasil e temos poucos praticantes. Mas é este contexto de emoção, aventura e liberdade que tem atraído cada vez mais adeptos!

Para quem quer começar, não é preciso comprar nada além de óculos, luvas, meias e ceroulas adequados, além de procurar estações com facilidade para o aluguel de equipamentos, como Bariloche. Para quem já esquia ou pratica o snowboard pelo menos duas vezes por ano, é interessante comprar também as botas, que são um equipamento bem pessoal e precisam ser confortáveis. E para os adeptos do esporte, vale a pena comprar o equipamento completo!

E para quem quer começar a competir, indicamos começar pelo campeonato brasileiro, nas provas do campeonato aberto. Durante as provas os atletas são avaliados e, dependendo do desempenho, podem ser convidados a treinar com a Confederação. O trabalho é lento e os resultados não vêm da noite para o dia, mas os esportes na neve, em médio prazo, dão a possibilidade de competição. Não digo que é fácil, mas se houver dedicação e seriedade, em cinco ou seis anos você consegue estar preparado para uma olimpíada.

Momentos marcantes
Dois momentos marcaram muito minha vida como esquiador. Em 1998, no Japão, fui o único atleta brasileiro a participar dos Jogos Olímpicos. Entrei no estádio lotado com 100 mil pessoas, carregando a nossa bandeira, sendo aplaudido de pé, porque os japoneses adoram o Brasil. Foi inesquecível, assim como a minha descida na pista, durante os Jogos. Foi a primeira vez que a imprensa nacional cobriu o evento, era uma loucura, todo mundo me ligando e querendo notícias.

Além disso, o esporte me proporcionou muitas outras coisas positivas. Para quem não esquia, vale a pena experimentar! Quando você vai para uma estação de esqui, além da oportunidade de viajar e conhecer lugares e pessoas, o astral é muito positivo, as paisagens deslumbrantes, você está praticando um esporte... Não tem contras, apenas prós. É claro que é preciso respeitar os limites, mas uma semana na neve já é suficiente para sentir a sensação de liberdade e querer voltar mais vezes!

Embora distante dos centros de esqui, o Brasil possui uma Confederação de Desportos na Neve, da qual MARCELO APOVIAN é ex-atleta e atual vice-presidente. Presente em duas Olímpiadas e em vários mundiais, ele nos fala sobre a evolução da prática do esqui entre os brasileiros.