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KATANA - AS
ESPADAS JAPONESAS
por Laerte Otaiano
Mais de 40
anos dedicados ao conhecimento desses objetos que fizeram a história
do Japão
Como na vida
mundana, onde o indivíduo pode ter a “paixão da sua vida” (seja
ela temporal ou perene), a minha relação com as Katana (espadas
de Samurais do Japão) foi intensa na qualidade, profunda na busca
do conhecimento e, por assim dizer, vitalícia, pois até hoje permanece
inteiro o amor e o respeito por “elas”. A beleza e a perfeição,
que são suas qualidades intrínsecas, estão aliadas a uma mágica
sutil, que somente um iniciado pode desfrutar.
Desde menino,
com sete ou oito anos, as coisas do mundo me fascinavam! Comecei
colecionando selos e moedas e, entre os 17 e 18 anos, dediquei-me
a armas antigas, especialmente espadas de todos os tempos, lugares
e tipos. Estudava com afinco línguas estrangeiras para ter acesso
à literatura especializada. Por curiosidade, ou desafio, aprendi
também o japonês, de maior importância para o que viria a seguir.
Por conta disso, pude ler obras no idioma original sobre a arte
japonesa e, em particular, sobre espadas.
Em 1961,
com a aquisição da primeira Katana, todas as outras espadas perderam
o sentido. Vendi minha coleção para o museu de armas de Petrópolis
(RJ) e a partir daí dediquei-me a colecionar somente Katana. Em
viagens pelo mundo adquiri várias peças, que trazia para cá e,
quando necessário, as restaurava. Os principais pontos de compra
eram Paris, Londres e Buenos Aires. Das idas ao Japão, o mais
importante foram as informações obtidas através da NBTIIK (Sociedade
para preservação das Espadas Japonesas).
Em São Paulo,
a concentração da colônia nipônica produziu um grande número de
colecionadores e de peças de qualidade. Tive contato com muitos
deles e pude adquirir algumas dessas peças entre os anos de 1965
até 1995, época onde o “mercado” foi bastante ativo. Durante esse
período aprendi a restaurar empunhaduras, laquear bainhas e, o
mais importante, polir as lâminas (arte dominada somente por especialistas).
Em 1987 editei
o primeiro livro em língua portuguesa sobre o assunto - “Nippon-Tô:
a Espada Japonesa” - e organizei a maior exposição jamais realizada
no País, com o apoio cultural do Cônsul Geral do Japão, que inaugurou
pessoalmente a mostra. Eram 60 espadas japonesas, ilustrando períodos,
escolas e tipos, mais peças de montagem, uma coleção de 100 Tsuba
e vários outros itens correlatos.
Outras exposições
aconteceram nos anos 90. Mantive uma turma de aficcionados e estudantes,
que se reuniam em casa nos sábados à tarde para estudar teoria
e prática, inspecionando espadas minhas e de terceiros. Devo afirmar
que alguns estudantes tiveram pleno sucesso, com conhecimento
de alto nível e formação de coleções importantes. Interessante
notar que a maioria foi de indivíduos não japoneses.
Por que
a Espada Japonesa?
Para quem aprecia a arte, beleza e estética são essenciais porque
transcendem o tempo e as fronteiras. É aí que a Espada Japonesa
se apresenta ao mundo. Na parte externa, uma vestimenta de alto
luxo: peças na empunhadura com qualidade de jóias, bainhas laqueadas
artisticamente. Nas lâminas, forjadas manualmente, a estética
perfeita, perfis e curvaturas incrivelmente elegantes, aço com
texturas e cores sutis. Algumas assinadas pelos mais famosos espadeiros
da História... E mais: uma energia mágica, que pode fazer arrepiar
os pêlos do braço dos mais sensíveis.
Não poderia
ser menos. Cada uma delas tem uma história composta, mesclando
a dos que se empenharam em produzi-las, colocando aí sua vida
e sua alma, com a história daqueles que as usaram, de geração
em geração, com altivez e orgulho - os Nobres Samurais.
Colecionismo
hoje
O fim do século 20 e início do 21 estão encontrando um mercado
firme e definido. Já não se encontram mais à venda peças “para
restaurar” - estão todas devidamente “prontas”, nas capitais do
mundo. Uma espada comum, sem ser de alto luxo ou de um autor famoso,
com 300 ou 400 anos, pode ser encontrada e comprada na faixa entre
7 e 10 mil dólares, mas não há limite de preço para categorias
superiores. Se o comprador em potencial não tiver julgamento próprio,
por falta de experiência ou conhecimento, deve pedir ajuda de
um expert para evitar qualquer desconforto.
FORMAS
DE ARTE
Com mais de mil anos de história, a espada japonesa, genericamente
chamada de Katana, traz em si além das tradições e folclore, belas
formas de Artes, a saber: Arte da Forja e do Polimento, Arte da
Laca e Arte Decorativa nas peças da montagem.
A Arte
da Forja e polimento - lâmina
A arte da forja desenvolveu-se, a partir de 700 DC, passando por
vários graus de experimentos e desenvolvimentos. Permanece, porém,
o sistema básico até o fim do século 19. Essa Arte da Forja resulta
em resistência e flexibilidade ao corpo da lâmina. Na fase final
da manufatura da lâmina, desenvolveu-se o sistema de têmpera na
área do corte, o que permite um corte extremamente efetivo e durável.
Após a forja e a têmpera, a lâmina passa por um processo de polimento.
Na sua forma final, incluindo o polimento, é a busca da perfeição
que confere o padrão de excelência da espada japonesa.
A Arte
Decorativa nas peças das montagens - Bainha, Tsuba, Fuchi-Kashirá
e Menuki
Entende-se por montagem a bainha, o tsuba e empunhadura.
A Arte
da Laca - bainha
A arte da laca também é milenar e desenvolveu-se artisticamente
aos níveis mais altos. Esse material foi escolhido para as bainhas,
devido a suas propriedades de impermeabilidade e resistência.
Na sua qualidade artística, desenvolveu-se com mais evidência
a partir do ano de 1500, quando as bainhas das espadas japonesas
passaram a ser alvo de sofisticação, comportando desenhos de padrões
de brocados e de brasões “Mon”, que definiam os clãs. Foram aplicadas
nas bainhas as mais variadas técnicas e cores.
A arte
decorativa dos metais
O tsuba é a guarda da espada (disco de proteção para a mão). Esse
implemento fica acima da empunhadura. Desenvolveu-se a partir
da forma mais primitiva de um simples disco metálico, até o mais
sofisticado objeto de arte. Os tsubas são colecionados em todo
o mundo como tal, independente da espada japonesa.
Dois tipos
básicos são conhecidos: o tipo Kinkô (sólido) e o tipo Sukashi
(vazado). Os dois tipos são produzidos na sua grande maioria em
ferro forjado e, em menores quantidades, em metais macios. A arte
no tsuba está na sua forma e na decoração - uma simples textura
na superfície ou um desenho em relevo com aplicações em ouro e
prata, o que faz desse objeto a parte decorativa mais sofisticada
da espada japonesa. Com referência aos vazados, os desenhos são
representados em silhuetas positivas ou negativas de alta sofisticação.
O Fuchi-Kashirá,
traduzindo-se literalmente, quer dizer “colarinho e cabeça” e
representa os terminais metálicos da empunhadura. Os Menuki (sem
tradução literal) são os enfeites metálicos que são colocados
debaixo da fita que está enrolada na empunhadura.
Esses objetos
deveriam, em tese, acompanhar o mesmo tema e decoração do tsuba.
A técnica e a arte da decoração desses objetos são exatamente
a mesma da decoração do tsuba. Também são colecionados, independentemente,
do resto da espada japonesa.
A apreciação
da Espada Japonesa como um objeto de arte
No Japão e no mundo inteiro, obedece-se a uma determinada ordem
de apreciação.
Quando a
espada japonesa estiver montada, aprecia-se primeiro a parte externa
do objeto; terminais da empunhadura, tsuba e bainha. Quando a
espada japonesa estiver em “sbirassaya”, (um simples estojo de
madeira para guardar a lâmina), parte-se para a apreciação da
lâmina.
Existe uma
regra de ética definida até a lâmina ser desembainhada.
O que observar
na lâmina
Primeiro - forma da lâmina: a forma define um período e eventualmente
um local. Existem lâminas pequenas, médias e longas.Curvaturas:
rasas ou fundas, no primeiro terço, no meio ou na ponta. Podem
ocorrer pequenas variações nas formas das lâminas.
Segundo -
a textura da superfície: que define a Escola. Essa textura é variada,
visível a olho nú e estéticamente traz beleza a lâmina.
Terceiro -
padrão do desenho da área temperada: esse padrão do desenho traz
uma informação importante: a Escola de Espadeiros, e eventualmente
identifica um Espadeiro em especial. Devido a sua cor diferente,
esbranquiçada, destaca-se do resto da lâmina.
Quarto -
a ponta: existem pontas pequenas, médias e grandes, dependendo
do período. A têmpera da ponta pode definir um determinado espadeiro.
Quinto - “nakagô”:
parte da lâmina que fica inserida dentro da empunhadura. Nessa
parte, existem informações importantes para a identificação do
período e do Espadeiro. Essas informações são vistas sob a forma
de: a) coloração da área, b) marcas de lima e c) assinatura e
data, se existir. Só é possível acessar essa informação desmontando
a empunhadura.
A espada
japonesa - ícone da cultura japonesa
Espadeiros famosos produziram espadas para a Corte e para os grandes
Shoguns. Esses espadeiros também ficaram registrados na história.
Algumas espadas
japonesas perpetuaram fatos heróicos e grandes vitórias, essas
espadas ficaram registradas e são consideradas tesouros nacionais
no Japão; sobreviveram até hoje e podem ser vistas nos melhores
e mais importantes museus do mundo.
Com todas
as suas qualidades e peso cultural, as espadas japonesas que sobreviveram
ao tempo, em relativamente pequenas quantidades são avidamente
colecionadas em todo o mundo.
O
professor (sensei) LAERTE OTAIANO é autor do primeiro livro sobre
espadas japonesas no Brasil. Profundo conhecedor, divide com os
nossos leitores informações importantes para entender um pouco
mais desta arte milenar.
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