PESCA OCEÂNICA
Paixão e consciência ambiental
Por Arthur Santos Neto
Nasci em Santos e a proximidade com o mar me levou a explorar a pescaria desde os 10 anos de idade. Primeiro com os peixes pequenos, na pesca nos barrancos e encostas e também na praia. Mais tarde tive o prazer de descobrir a pesca oceânica, muito mais emocionante do que todas as outras. E nunca mais parei.
ILHABELA
Isso já faz 22 ou 23 anos. Comecei em Ilhabela que é, desde então, o meu lugar predileto. No litoral Norte de São Paulo, Ilhabela é o principal point de pesca de oceano do estado. De lá se chega muito mais rápido aos pontos ideais para a pesca. Fui me envolvendo cada vez mais com a pesca oceânica, gostando cada vez mais, a ponto de assumir a Diretoria de Pesca do Yacht Club de Ilhabela, por oito anos.
Além das saídas para pescar também pude participar de vários campeonatos e fui acompanhando de perto as diversas fases que a pesca esportiva percorreu. No início não havia a preocupação intensa de preservação, embarcávamos e matávamos todos os peixes fisgados. Hoje não fazemos mais isso, a grande maioria é solta, principalmente os peixes de bico. Dentre as modalidades de pesca esportiva, a oceânica é a preferida da maioria por oferecer os peixes mais “combatentes”, que dão muito trabalho ao pescador. Dependendo do seu tamanho, um marlim azul, por exemplo, chega a brigar até duas horas antes de ser totalmente dominado.
No nosso litoral a temporada de pesca oceânica vai de outubro a meados de fevereiro, já que os peixes migram junto com as correntes de água quente. Quando a temporada acaba, partimos para a pesca costeira, onde encontramos uma grande diversidade de peixes de fundo como chernes, lírios, namorados, olhetes e outros. A pesca costeira também é feita em locais de grandes navegações, a cerca de 40 milhas da costa e em profundidades que variam entre 120 e 250 metros.
Nesta modalidade temos usado bastante uma novidade, que são os jigs (peixes artificiais de metal), uma isca recente que vem atraindo cada vez mais adeptos, em função do excelente resultado em pescas de profundidade.
Isso porque, no litoral paulista, a pesca está praticamente proibida na região costeira. Então, para pescar o ano todo, temos que fazer saídas cada vez mais longas.
PRESERVAÇÃO X PROIBIÇÃO
Hoje não podemos pescar na Laje de Santos, nas ilhas Queimada e Queimadinha, Moela e Alcatrazes. O pescador esportista, que é o que menos causa danos ao ecossistema marinho, não tem mais espaço. Os pescadores profissionais mantêm suas redes de malha fina e pescam de arrastão tudo o que encontram pela frente – peixes, tartarugas e outros animais marinhos. Não há nenhum cuidado com os manguezais e os locais de desova. E nós, pescadores esportistas e conscientes, licenciados pelo Ibama, que recolhemos todas as taxas exigidas pelo governo, corremos o risco de ser presos caso haja o desacato das regulamentações da pesca nas áreas costeiras e de recife.
É preciso que haja uma regulamentação da pesca e uma fiscalização permanente. Os pescadores amadores, as marinas e iate clubes e os donos de barcos certamente são os primeiros a aderir e apoiar qualquer ação que beneficie o mar. Países menos desenvolvidos do que o Brasil, como a Venezuela, Guatemala e Panamá, tornaram-se pontos de turismo de pesca conhecidos mundialmente graças às práticas adotadas em busca do equilíbrio da cadeia alimentar do ecossistema marinho.
Para tentar mudar este quadro, decidi participar ativamente da ONG Vivamar, onde sou conselheiro, ao lado de nomes como David Alhadeff (diretor de pesca do Iate Clube de Santos) e Julio Cardoso (diretor de pesca do Iate Clube de Barra do Una), para que possamos pelo menos navegar por estes locais hoje restritos.
PAIXÃO CONTAGIANTE
Consegui com que meu amor pela pesca fosse transferido ao meu filho. Hoje pescamos juntos e, sempre que possível, participamos de competições dentro e fora do Brasil.
Além de Ilhabela, gostamos muito de pescar no Rio de Janeiro, que é o principal pólo de pesca do País. Freqüentemente encontramos por lá nossos amigos e os mais experientes pescadores de São Paulo, do Rio e de outros estados.
Na minha opinião, o Iate Clube do Rio de Janeiro promove o principal evento de pesca oceânica do Brasil, um torneio anual do qual participo e que tem levado a sério a tendência mundial da conscientização e preservação am-biental. Prova disso é que, este ano, o Iate Clube do Rio já seguirá as regras internacionais da IGFA (International Game Fish Association), utilizando os anzóis circle hook. Estes anzóis são comprovadamente menos agressivos, pois fisgam os peixes sempre pela boca (ao contrário dos demais, que podem ser engolidos e machucam o estômago).
É importante seguir estes passos e começar a agir. Sou suspeito para falar, mas a pesca esportiva é apaixonante e por isso conquista cada vez mais adeptos... Quem é fisgado por ela já se vê planejando suas próximas saídas para o mar, pensando em comprar um barco e levar os amigos para pescar junto. Se com esta paixão nascer também a consciência da preservação, já é um grande passo para a continuidade da pescaria.
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