BRETANHA
Muito além das brumas
Por Cacau Steiner
Sempre que ouvia alguém contar que esteve no Mont St. Michel, na Bretanha, França, achava cafona. Antes de ir, fiz de tudo para convencer meu marido a desistir do programa. Por sorte, meus esforços foram em vão. Ele estava determinado em conhecer o restaurante de Olivier Roellinger, o único com três estrelas no Guia Michelin que ainda não tínhamos visitado na França. E lá fomos nós, de Paris à Cancale, numa manhã de domingo.
Achei um exagero reservarmos hotel e restaurante por duas noites, mas confesso que já no caminho, que passa pela região da Normandia, admirando os jardins e florestas ao longo da estrada que corta cidades como a bela Givernny, imortalizada nas telas de Monet, comecei a achar que o passeio poderia ser interessante.
Chegamos ao Chateau Richeux, um dos hotéis que compõe as “Maisons de Bricourt”, pouco depois das duas da tarde. O pessoal da recepção ofereceu-nos a última mesa vazia do bistrô marinho Le Coquillage.
Eu não sabia se olhava o cardápio ou admirava a vista magnífica da baía do Mont St. Michel. O fundo do mar estava exposto pela baixa da maré que, de tão distante, se confundia com o horizonte. Uma bruma completava o cenário recheado de aves e mais de 2500 plantas que compõem o parque que circunda o hotel.
Enquanto aguardávamos os pratos, tive a oportunidade de ler sobre a estória do Chateau Richeux, a magnífica casa de pedra onde estávamos. Construída na década de 20, foi ocupada pelos alemães durante a segunda guerra. Anos mais tarde, foi comprada pela Família Roellinger.
As opções de cardápio não eram muitas: menu degustação quente ou frio. Tentamos pedir um de cada, mas devido ao horário, tínhamos que pedir o mesmo menu para a mesa inteira. Optamos pelo quente.
Para começar, meia dúzia de ostras “Creuses de Cancale”. Conhecem o ditado “Na França só se come ostras em meses com R”? Pois é, na Bretanha isso não vale! Que ostras magníficas! Frescas como nunca comi. Diante de tanta qualidade, confesso que me arrependi por não ter pedido o menu frio. Mas o que veio a seguir não decepcionou: bolinhos crocantes de lula com chutney de tomates, linguado dourado com batatas esmagadas e limão confit, tamboril sobre pedra servido com manteiga de algas e uma maravilhosa casquinha de caranguejo recheada e gratinada. Para terminar, um carrinho de sobremesas capaz de tirar qualquer um da dieta. Como eu não podia comer todas, optei por quatro: mil folhas, musse de caramelo “au beurre sallé”, baba au rhum e uma torta divina feita com massa de carolina e recheada com creme de pistache.
Depois do almoço, antes de partirmos em direção ao Mont St. Michel, uma sessão de fotos na varanda debruçada sobre o mar/areal e uma rápida visita ao quarto (divinamente claro, amplo e bem decorado) com vista para o jardim.
Já pelo caminho, muitas surpresas agradáveis. Os pequenos vilarejos que surgem entre uma e outra fazenda de ostras são de um charme impar. As praias cheias de gente soltando pipa, fazendo wind kite ou simplesmente admirando a paisagem, contrastam com as casas de pedra. Os moinhos solitários completam a paisagem. Vez por outra pode se ver rebanhos dos tão famosos cordeiros pré-sallé pastando nas areias à beira da estrada. Esses animais são famosos por sua carne pré-salgada, uma vez que se alimentam da vegetação que à noite é coberta pelas águas do mar. Uma delícia que, juntamente com ostras, mexilhões, caranguejos, lagostas, sal e tantos outros produtos maravilhosos da região, faz parte do cardápio da maioria dos restaurantes locais (exceto no Restaurante Gourmand de Olivier Roellinger, aonde o cordeiro vem do Plateau d’Aubrac).
A vista do monte é tão deslumbrante que descarreguei a bateria da máquina fotográfica e acabei ficando sem nenhuma foto do jantar da primeira noite no Roellinger. O lugar é místico e parece estar bem na ponta do mundo, envolto sempre em uma espécie de bruma.
Eu tinha sido alertada para a enorme quantidade de ônibus de turistas que chegam ali todos os dias, mas naquela tarde, tínhamos um plus: um passeio de motos com mais de cinco mil motoqueiros lotou a pequena estrada de duas mãos. Levamos quase 40 minutos para percorrer cerca de quatro quilômetros. Nada que estragasse o momento mágico que vivemos quando chegamos ao topo da abadia, 450 degraus acima da base do monte. Um passeio de tirar o fôlego. Literalmente, também! A vista é deslumbrante. Passei algum tempo sentada no jardim interno que fica no topo da abadia tentando entender como aquilo fora construído ali.
O pequeno povoado, que já abrigou uma das mais temidas prisões da França, não é muito diferente de tantas outras belas cidades históricas da França. A grande atração ali é o restaurante La Mere Poulard, aonde se come o melhor e mais famoso omelete do mundo. As paredes do lugar estão cobertas com fotos de comensais ilustres, a começar por Napoleão Bonaparte que, fã declarado da iguaria, esteve várias vezes na região apenas para comer ali. Os ovos são batidos por vários minutos em tachos de cobre e depois colocados em frigideiras, sobre uma espécie de fogueira. O recheio, que pode ser de cogumelos variados, bacon, batata e cebola, vem servido à parte. Mas isso, a gente só experimentou no dia seguinte quando voltou ao monte para almoçar.
A região muito próspera, que já abrigou o mais rico porto da França, oferece inúmeras opções. Visitamos uma fazenda de ostras, passeamos pela charmosa cidade murada de Saint Malo, que definitivamente vale a visita, e caminhamos pelo porto La Houle em Cancale, onde nosso “chá das cinco” foi composto por ostras, mexilhões e cerveja, admirando as falésias e os barcos encalhados por causa da maré baixa. Um dia realmente inesquecível.
O Relais Gourmand Olivier Roellinger fica a cerca de 15 minutos da Maison Richeux e, por isso, o hotel disponibiliza vans com motoristas para o transporte dos hóspedes. Nossa mesa não era a melhor do salão envidraçado, mas mesmo assim, tínhamos uma bela vista do lago com patos. Eram nove horas da noite, mas como o sol nessa época do ano só se põe depois das onze, não era difícil identificar os pequenos porcos-espinhos, que circulavam tranqüilos pelo jardim muito bem cuidado da casa onde o chef nasceu e se criou.
Optamos pelo menu que incluía lagosta e foie gras. Para começar, não posso deixar de mencionar os três tipos de manteigas e os pães deliciosos do couvert, que me deixaram ansiosa pelo café da manhã do dia seguinte. Uma delícia (falando dos pães... porque o café da manhã foi um pouco decepcionante). Em seguida o amuse-bouche: sardinha grelhada sobre a pedra, chips de batata com vinagrete de manga e mini camarões em espuma de coral. Fantásticos e equilibrados, aguçavam o paladar para o que prometia ser uma noite memorável.
O prato seguinte foi uma deliciosa sopa de moluscos com fumê de peixes ao perfume de capim limão. Delicado e delicioso. Nesse momento do jantar cheguei a achar que fosse impossível que o prato seguinte fosse melhor, mas me enganei. Os aromas da lagosta com molho de xerez, pimenta e chocolate encheram a sala e o prato bem servido foi pouco para a minha vontade de devorá-lo outra vez. Perfeito. Genial. Daquelas combinações improváveis que fazem a gente se perguntar porque não pensou nisso antes.
Veio então o bacalhau fresco com molho ácido de laranja Bahia e casquinhas de laranja kincan confeitadas. Ácido de trincar os dentes e comer fazendo careta, era outra maravilha. Nesse momento concluí que, na minha opinião, Olivier Roellinger é o chef que melhor trabalha peixes e frutos do mar da França. E aproveitei para agradecer ao marido não só pela insistência, mas também por ter programado um segundo jantar ali.
O próximo prato era um velho conhecido: foie gras grelhado servido em caldo de atum e folhas de coentro. Das três versões que já experimentei deste prato, essa foi sem dúvida a melhor, contrariando nossa expectativa de que o chef não fosse tão bom com aves, caças e carnes quanto era com os pescados.
Nesse primeiro jantar troquei, meio a contragosto, os doces pelos queijos. Obviamente, não me arrependi. Orgulhosos, os bretões privilegiam os produtos locais e, como a Normandia está logo ali ao lado, os queijos, delicadamente afinados, não decepcionaram.
A segunda noite, na minha opinião, foi ainda melhor do que a primeira. Para começar, ganhamos a melhor mesa da casa, bem no centro do salão, de frente para o vidro. Como já tínhamos experimentado um pouquinho de tudo, pudemos escolher as estrelas da casa que não fazem parte de nenhum dos três menus com preço fixo: lagosta e cordeiro de Aubrac em dois serviços. Para começar, o mesmo e delicioso amuse-bouche da véspera. Depois, aventura marinha - um pout pourri de três pequenas entradas: ostras, tartar de Saint Pierre e rabanete com gelatina de caranguejo. Tão bom quanto era de se esperar. Em seguida, um prato do dia: sopa de favas com aspargos e cheddar. Bom, mas não excepcional.
Veio a lagosta carnuda e grelhada com molho aos sabores da ilha e ervas que fez virar todas as cabeças do salão na direção de nossa mesa. Qualquer elogio não seria superlativo o suficiente para descrever o paladar. No mesmo prato, a cabeça grelhada na brasa ao limão. Me esbaldei comendo as ovas azuis da lagosta que, minutos antes, me assustou ao bater suas pinças num cesto de palha trazido até a nossa mesa.
Por fim chegou o cordeiro cobiçado desde a véspera. Na primeira parte, o lombo perfeitamente rosado servido com um molho do próprio assado e legumes que estava tão perfeito e macio que posso dizer que foi o melhor cordeiro que eu já comi na minha vida. Melhor até do que o do Michel Bras, cujo restaurante fica no Plateau d’Aubrac. Para minha sorte, ainda tínhamos o segundo serviço: a carne que entremeia os ossos da costela, grelhada, e que foi servida com uma pequena salada. Uma delícia que eu nunca tinha tido a sorte de experimentar. Para fechar a noite com chave de ouro, “Autour de Chocolat“, uma combinação perfeita de creme de chocolate meio amargo com caramelo feito com manteiga salgada e amendoins, e creme de chocolate amargo com bananas ao rum e pimenta. De gritar de bom!
Mas o melhor de tudo, nas duas noites, foi voltar para o hotel e poder dormir tranqüilamente, sem sentir o peso da comida, já que tudo era muito leve e bem feito. Ao contrário de alguns jantares que se tornam inesquecíveis pelas noites mal dormidas, lembrando de temperos exagerados, só o que eu podia pensar era no sabor dos ingredientes destacado pelo perfume das ervas usadas e combinadas com maestria, além da alta da maré que eu não consegui ver... Fui dormir feliz, sonhando com o dia que eu irei voltar ali. |