CASAS ASSINADAS
Por Marcos Tomanik
Há 52 anos faço casas, então posso afirmar com convicção: ser arquiteto é estar a serviço de cada cliente, como um instrumento capaz de materializar um de seus objetos de desejo – o próprio lar.
Não me considero um artista, mas um virtuoso, um profissional capaz de interpretar os desejos das pessoas. A arquitetura que faço é aquela com destino certo: o cliente. Tudo que espero é que cada projeto seja o máximo para uma determinada família. Vivo dentro de minhas plantas. Cada ambiente é sentido como se fosse para eu morar nele.
Aquele que procura por mim – ou por qualquer outro arquiteto – certamente já fez sua escolha prévia do nome que deseja que assine a sua casa. Cada arquiteto tem sua linha de trabalho, características e personalidade próprias, e o cliente vem dirigido, em busca disto.
Sou um profissional eclético, não sigo linhas determinadas, assim como não há nenhum projeto do qual eu abra mão. Por conta disso, a pesquisa é fundamental e também faz parte da minha rotina de trabalho, seja fotografando em viagens, seja investindo em livros especializados. Afinal, cada casa que assino é a referência para a próxima. É a minha maneira de fazer “marketing”.
Quando um novo cliente chega, sempre procuro descobrir como seria a casa dos seus sonhos. A maioria já tem isso em mente, porque já pensou no assunto, já planejou, viu nos livros, nas revistas ou pelas ruas e quer algo parecido. E quanto maior a empatia entre arquiteto e cliente, maior será o sucesso do resultado. A informação do cliente é indispensável.
No meu processo de criação há algumas peculiaridades. Primeiro procuro absorver tudo o que o cliente deseja e espera do projeto. Estudo os detalhes, ouço, analiso e geralmente o projeto fica em stand by. Mas, em um determinado momento – geralmente, ao amanhecer, vem à inspiração... No escritório, durante meu dia de trabalho, passo tudo o que imaginei, ao acordar, para o papel, com uma vontade enorme! Pensando em todos estes anos, cheguei à conclusão de que os projetos das casas não “saem” de mim, mas “entram” em mim, como um sopro... e, pelo menos, para mim, não há outra forma de criar.
Claro que a paixão pelo trabalho é fundamental, e eu amo o que faço até hoje! Mas o cliente tem que esperar o meu tempo. Às vezes, demoro, para ter vontade de fazer determinado projeto. Nem sempre a casa da vez chega primeiro.
Nestes anos todos que exerci minha profissão notei, pelo menos nos meus clientes, períodos com tendências bem determinadas em matéria de estilo arquitetônico. Lembro-me bem que em algumas ocasiões fazia uma casa e ela tornava-se um modelo quase inesgotável para muitas outras.
Por isso a pesquisa é um aspecto tão importante – e apaixonante – da arquitetura. Tem um peso definitivo para aqueles que, como eu, são ecléticos, já que abordamos várias linguagens diferentes. Tempos atrás, por exemplo, um amigo pediu um portão para a sua fazenda, em estilo espanhol. Eu e minha sócia – e esposa – vasculhamos nossos registros, fotos de viagem, livros de arquitetura espanhola e, em cima disso, fizemos o projeto todo. Foi um sucesso!
Em uma outra vez, um cliente pediu uma casa com inspirações tailandesas e me trouxe uma caixa cheia de livros e referências de arquitetura asiática, balinesa e tailandesa. Baseado nesta pesquisa, cheguei a desenvolver dois projetos diferentes para ele.
Isso representa bem a realidade de hoje: os clientes são ativos, têm as suas vontades e trazem muito material de pesquisa e referências. Nem sempre os gostos são parecidos com os meus, outras vezes é preciso frear um pouco os impulsos e desejos absurdos. A confiança depositada em mim geralmente faz com que cheguemos a um consenso.
Particularmente, faço questão de participar dos primeiros passos de todos os projetos, nunca perco a sua linha e permaneço acompanhando todas as etapas. Cada casa segue uma linguagem, uma tendência, e durante a execução do projeto é preciso manter o foco.
Depois da obra entregue, é fundamental que os decoradores não interfiram na linha do projeto. Sou muito detalhista em minhas casas, penso em cada canto, nas molduras, portas, pisos... Quando o decorador é excepcional, vejo as casas ficarem ainda melhores. Do contrário, sofro muito com as interferências que chego a considerar “antiéticas”!
Lembro-me de uma casa que fiz aos 23 anos de idade e que foi decorada pelo carioca João Henrique Vieira da Silva – uma pessoa muito elegante. Ao decorar e colocar móveis, quadros e tapetes, não mexeu em nenhum detalhe, mas realçou cada um deles. Foi um trabalho maravilhoso e complementar ao que eu havia realizado, com um resultado digno de nota!
Os decoradores precisam ter bagagem, conhecimento e pesquisar muito para escolher adequadamente. Outro fator importante é a participação do dono da casa, que vai colocar um pouco de si no projeto e terá, no final, uma casa com a sua cara, de encontro com a sua identidade.
Porque, no fundo, o que todo mundo quer é morar em uma casa aconchegante, agradável, que ofereça proteção e conforto. E cabe a nós aperfeiçoar e realizar este sonho. |