UM SONHO BARROCO
Por Vitor Figueiredo
O Palácio Real de Dresden - quase totalmente destruído no decorrer da II Guerra Mundial - recuperou finalmente todo o seu esplendor, ao reabrir ao público, em setembro de 2006, a histórica galeria conhecida como Grünes Gewölbe, restaurada e reempossada dos seus tesouros. Um mês depois, em 15 de outubro, inaugurou a Galeria Oriental, projetada pelo arquiteto nova-iorquino Peter Marino, que abriga a fabulosa Coleção de Porcelana Oriental de Augusto, o Forte.
A Grünes Gewölbe é uma das mais requintadas e famosas câmaras de tesouro que
existiram na Europa. Foi estabelecida como museu pelo Príncipe Eleitor da Saxônia e Rei da Polônia, Augusto, o Forte, entre 1723 e 1730. Foi nesta época que as suntuosas coleções de tesouros renascentistas e barrocos, pertencentes à dinastia Wettin, foram mostradas pela primeira vez, nas seis salas que o rei destinara ao museu.
A síntese barroca de objetos de arte e magnificência arquitetônica manteve-se quase inalterável até a II Guerra Mundial. Três das oito salas de exposição foram então destruídas, durante um bombardeamento ocorrido em 1945. Felizmente, todos os objetos preciosos tinham sido removidos anteriormente para a Fortaleza de Königstein.
Depois da Guerra, os tesouros foram levados pelo Exército Vermelho para a União Soviética, onde ficaram até 1958, quando foram devolvidos à Alemanha Democrática. Ao regressarem para Dresden os objetos passaram a ser expostos no Museu Albertinum, onde permaneceram durante 30 anos antes de poderem regressar ao Palácio Real. Em setembro de 2004, 1080 objetos que constituem a coleção de tesouros foram transferidos e expostos ao público no primeiro andar da Galeria Oeste, que passou a chamar-se a Neues Grünes Gewölbe, nome baseado na modernidade do projeto museológico.
O Palácio Real de Dresden, também conhecido como Zwinger (entre muralhas), é um dos museus mais importantes do mundo, com temáticas diversas que estabelecem 10 instituições museológicas diferentes: a Galeria dos Mestres de Pintura Antiga; Coleção de Porcelana; Relógios e Instrumentos Científicos; Câmara de Tesouros; Museu de Artes Decorativas; Armaria; Numismática; Arte Popular; Gabinete de Desenhos e Gravuras; Galeria dos Mestres da Pintura Moderna.
A Galeria Oriental, cujo projeto é da autoria do famoso arquiteto nova-iorquino Peter Marino, situa-se na ala norte, no local da antiga estufa dos Eleitores da Saxônia. O fato de dispor de um espaço criado exclusivamente para ela nos leva a recuar no tempo. Pouco tempo depois de Augusto, o Forte, ter iniciado a sua coleção de porcelana oriental, ela se torna a maior da Europa e do mundo. O monarca, que construíra o seu belo palácio barroco, depois de ter visitado o Palácio de Versailes - padrão máximo da Arquitetura e das Artes Decorativas - sonhava construir um palácio japonês para expor a sua coleção de porcelana oriental.
A fantasia do monarca e os desenhos encomendados em 1735 à Zacharias Longuelune para o palácio japonês, que não chegou a existir, inspiraram Peter Marino na Galeria Oriental, um espaço onde o passado e o presente se tocam nas margens do sonho.
Aclamado internacionalmente pelos seus trabalhos, que se estendem a espaços culturais, comerciais e residenciais, Peter Marino redefiniu através da sua obra o conceito de luxo. Sua empresa, a Peter Marino Architec, de Nova York, tem projetado edifícios e interiores para entidades e personalidades famosas do mundo da moda e da arte como Chanel, Armani, Fendi, Louis Vuitton, Dior, Donna Karan, Valentino, Andy Wharol ou Barneys New York.
Antes de ser convidado a projetar a Galeria Oriental, Peter Marino já tinha abordado um espaço museológico dedicado a porcelanas, através do seu projeto para a exposição da Sèvres, no American Craft Museum, em Nova York. O convite do Staaliche Kunstammlungen de Dresden a Peter Marino
implicava na criação de um ambiente de grande impacto visual em toda a Galeria Oriental e o sublinhar do valor artístico da coleção de porcelanas de Augusto, o Forte.
Neste seu novo e surpreendente projeto, Peter Marino funde a sua visão moderna de luxo com o glamour do barroco, combinando formas históricas autênticas com modernos conceitos de design. Consolas douradas, lareiras de sala e mesas de aparato recortam-se contra fundos em boiseries, com painéis forrados em seda, ressuscitando o esplendor do barroco que parece nunca ter abandonado o local. Um cenário que o rei aprovaria.
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