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COLECIONADOR E AS FEIRAS INTERNACIONAIS DE ARTE Antes de mais nada devo uma explicação: não sou um profissional das artes. Apenas trafego pelo mundo das artes com curiosidade e, nos últimos anos, uma certa paixão. Há mais ou menos dez anos comecei a colecionar obras de artistas brasileiros contemporâneos. Principalmente de amigos meus que fazem parte da chamada “geração oitenta”. O ato de colecionar nasce da curiosidade, do ímpeto, da necessidade de conviver com o que lhe dá prazer e da fraqueza de querer possuir o objeto do prazer, ou seja, da paixão. Como se trata de um instinto, mais ou menos controlável, quase sempre o início é marcado pelo amadorismo. Não há lógica, organização ou foco. Com o tempo podemos nos tornar mais profissionais. Surge também o vínculo cada vez maior com artistas, galerias, museus, outros colecionadores, críticos e curadores. No meu caso a primeira grande mudança foi ter a ajuda de um curador, um profissional. Adriano Pedrosa foi, desde muito cedo, meu grande amigo e, alguns anos atrás, aceitou curar minha coleção. A intimidade de anos juntou-se ao profissio-nalismo amadurecido e rigor do Adriano. Ele me ajudou a iniciar uma coleção de paisagens que hoje reúne não apenas obras de artistas brasileiros, mas também um grande número de obras de artistas de vários cantos do mundo. A internacionalização das coleções contemporâneas segue a tendência de globalização do cenário das artes como um todo. No início da década de 90, artistas brasileiros começaram a ter maior exposição no palco internacional. Eles foram levados por galeristas como Marcantonio Vilaça e Luisa Strina e apreciados por galerias e museus mundo afora. Estamos falando de artistas como Beatriz Milhazes, Adriana Varejão, Ernesto Neto, Vik Muniz, Marepe, além de outros que já tinham seu lugar conquistado como Cildo Meireles e Tunga. Seguindo um princípio da economia de que só exporta quem importa, galerias brasileiras e museus também começaram a abrir suas portas para artistas internacionais. Colecionadores brasileiros abriram o escopo de suas coleções para receberem jovens artistas contemporâneos de diversas nacionalidades. Esta tendência é clara e acelerada. Cada vez mais jovens artistas e suas obras circulam pelo mundo sem que suas raízes tenham mais importância que a qualidade dos seus trabalhos ou signifiquem qualquer limitação. Quanto ao aspecto da arte como investimento, sabemos que uma escolha certa, na época certa, pode garantir um retorno altíssimo. O problema é que a confluência de todos os fatores (entre eles estudo, conhecimento e uma visão privilegiada) que podem materializar um ganho, raramente acontece. Por outro lado, são poucas as opções de investimento que lhe dão tanto prazer em termos de convivência. Neste sentido, a opção de abrir sua coleção para artistas internacionais implica em uma diversificação de risco que é sempre saudável e, muitas vezes, em maior liquidez da obra. As feiras internacionais de arte são um reflexo deste novo cenário da arte contemporânea. Galerias do mundo todo apresentam a colecionadores, diretores de museus e curiosos, artistas não só de seus países, mas de diversas nacionalidades. Como exposições em grandes museus e bienais, as feiras são mais um grande termômetro daquilo que acontece no mundo das artes. Diferentemente das bienais e das exposições, as feiras têm um traço marcante que encanta os colecionadores: o panorama, a multiplicidade de foco e de curadorias, representando terreno virgem para o olho mais ou menos treinado do colecionador. O prazer do encontro com o trabalho que lhe chama atenção, a descoberta do objeto semi-oculto instiga o instinto, o ímpeto e a curiosidade e a sensação do trabalho de “arqueologia” bem feito. Da mesma forma, a rotina das feiras permite ao visitante acompanhar as tendências do mercado e a evolução de preços de artistas jovens ou mais conceituados. Além da chance de conhecer muitas pessoas interessantes, como artistas, galeristas e outros colecionadores, as feiras oferecem ainda a chance de se fazer bons investimentos. Nada disso, porém, deve ser confundido com amadorismo. O profissionalismo é refletido em todos os detalhes das grandes feiras de arte como Art Basel, Miami Basel, Arco em Madri, Frieze em Londres, The Armory Show em Nova York, entre outras. Milhões de dólares são gastos pelos seus organizadores e pelas galerias participantes para criar um mercado de arte, que vai do moderno ao contemporâneo, em espaços às vezes maiores que os grandes museus do mundo. Obras são vendidas por US$ 2 mil em uma galeria, enquanto outra fecha um negócio que pode passar a fronteira dos milhões. Logicamente tudo é feito para acirrar a disputa pelas melhores obras. Colecionadores se digladiam e correm para ter acesso o mais cedo possível, após a abertura da feira, às galerias de sua preferência. O público é o mais eclético possível – ali não estão apenas os milionários que tudo podem – estão também os jovens colecionadores, neófitos, curiosos, artistas e aqueles que não respeitam os limites de suas realidades e cometem verdadeiras loucuras. As cidades que hospedam estes eventos oferecem um espetáculo à parte, com seus museus e galerias. Neste quesito talvez saia ganhando Londres que, em função de suas instituições culturais que, de forma coordenada, oferecem uma programação paralela extraordinária. O mesmo pode-se dizer de Nova York, porém em menor escala. É claro que as demais cidades não ficam muito atrás. Miami, onde a feira acontece em dezembro, é uma festa! O ambiente acolhedor de Miami Beach faz os assíduos se trombarem na rua, em um clima de amizade e quase juvenil que lembra as velhas excursões do colégio. Para os colecionadores, o foco na América Latina é seu grande diferencial. Art Basel, na pequena cidade de Basileia na Suíça, é a maior e mais tradicional de todas as feiras, oferecendo desde obras de artistas jovens à Matisse e Picasso. Ali existem também duas feiras mais jovens que são a Liste e Nada. Como todo grande evento que vive não só da qualidade daquilo que é oferecido, mas também do glamour e de instigar a vaidade dos seres humanos, o entorno do evento é todo ele preparado e planejado com esmero. Eventos e exposições paralelas, recepções, jantares e visitas à coleções particulares, tudo isto é um grande atrativo. E acima de tudo está a grande oportunidade: integrar um clube exclusivo que tem acesso ao melhor da arte contemporânea e aos seus artistas. Divirta-se! |